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Campanha do MEC para leitura mira shoppings e se afasta de famílias pobres

Por: FolhaPress

Publicado em: 17/01/2020 21:10

O ministro Abraham Weintraub está no comando da pasta (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O ministro Abraham Weintraub está no comando da pasta (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Com vídeos e um urso de pelúcia quase do tamanho do ministro Abraham Weintraub (Educação), o governo Bolsonaro deu início a uma campanha para estimular pais a lerem para seus filhos. A estratégia adotada, porém, com uma propaganda que retrata uma casa de classe média alta e recomendações como "ouça audiobooks no carro", deixa dúvidas sobre o potencial da política de alcançar famílias mais pobres.

A campanha Conta Pra Mim se insere em um quadro problemático na alfabetização das crianças. Dados da mais recente Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), aplicada em 2016, mostram que 55% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental tinham nível insuficiente em leitura, e 34%, em escrita. O quadro é ainda pior nas escolas da zona rural do país.

O garoto-propaganda da campanha do MEC para reverter esse quadro é o urso Tito. Ele tem sido levado a shoppings de capitais do país, como o West Plaza, na zona oeste de São Paulo, para chamar a atenção ao tema em estandes que oferecem também contação de histórias. 

Ainda como parte das ações do programa, uma propaganda tem sido veiculada na televisão, e o ministério disponibilizou em seu site materiais de orientação às famílias para estimular o que chama de literacia familiar, definida como "conjunto de práticas e experiências relacionadas com a linguagem oral, a leitura e a escrita, que as crianças vivenciam com seus pais ou responsáveis". Ela envolve estratégias como interações verbais, leitura de histórias e incentivo à escrita.

A próxima etapa será a distribuição de kits com cadernos, livros e giz de cera e a implantação de 5.000 "cantinhos Conta Pra Mim" nos municípios que aderirem ao projeto. Nesses locais, espera-se que pais do Bolsa Família sejam orientados sobre a literacia familiar por tutores que receberão uma formação específica.

Para pesquisadores e entidades educacionais, a estratégia de comunicação do MEC, no entanto, se distancia desse público quando o mascote Tito é levado apenas a centros de compra das capitais, alguns deles de classe média alta, e com a propaganda de televisão que retrata uma família com lareira em casa acesa em dezembro (no verão), árvore de natal repleta de presentes e lustre com pingentes de vidro.

"Que família no Brasil tem lareira em casa e ainda acende a lareira no Natal?", indaga Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

"A propaganda gera preocupação porque parece tratar de um tipo muito específico de família", afirma. 

Altenfelder ressalta que, em sua experiência de formação de educadores, conheceu diversos casos de pais com baixíssima escolaridade ou mesmo analfabetos que conseguiram despertar o interesse dos filhos pelo mundo da escrita e que é importante estimulá-los a isso.

Mas pondera que a responsabilidade pela alfabetização não pode ser transferida da escola para a família, até porque muitos dos pais têm dificuldade para isso.

O guia do MEC sugere algumas práticas que independem da renda, como falar com o bebê olhando para o seu rosto, passar tempo em família e incentivar jogos e brincadeiras.

Outras orientações, porém, demandam alguma condição material, como "escute audiobooks (audiolivros) com seus filhos, principalmente durante deslocamentos e viagens de carro" e "ofereça blocos ou peças com as letras do alfabeto para seu bebê brincar". "Outra opção divertida são os alfabetos magnéticos, cujas letras podem ser colocadas sobre superfícies metálicas."

Para Claudemir Belintane, professor livre-docente da Faculdade de Educação da USP, o programa vai na contramão de pesquisas atuais que buscam encontrar estratégias de aproximação entre linguagem escolar e a linguagem das famílias de baixa escolarização.

"Os conteúdos dos programas de vídeo e o do manual são expressos em uma linguagem técnica de difícil assimilação para as famílias que não têm estudos. Se elas tiverem acesso ao material, vão se excluir mais ainda, pois podem constatar a distância que estão da escola", diz. 

Em sua avaliação, materiais voltados às famílias poderiam ser valiosos, desde que se relacionem com a realidade do país. 

"Um bom programa de vídeo teria que levar em conta as diferenças culturais, os saberes locais, usar a linguagem deles para abrir um universo de contato. Alguns exemplos: a pesca nas comunidades ribeirinhas, os diferentes modos de se divertir ou de se conviver socialmente dentro de uma favela, o trabalho dos ambulantes nas ruas", afirma.

"O material talvez seja aproveitado por uma parcela da classe média fiel ao governo e predisposta a seguir recomendações – mas mesmo esta terá dificuldades", conclui.

Presidente do movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz também afirma que é importante incentivar a leitura, mas avalia que o MEC está confundindo a promoção de uma ideia com uma política pública real de alfabetização.

O problema, diz, perpassa toda a política do governo Bolsonaro para a área. O MEC promoveu debates com especialistas internacionais sobre o tema e lançou uma publicação com diretrizes, mas ainda não explicou como o seu programa de alfabetização vai chegar à sala de aula.

Para Priscila, focar apenas a chamada literacia familiar é uma medida muito pouco ambiciosa diante do tamanho do problema no Brasil.

"Essa é a melhor forma de usar o canhão que é o MEC para melhorar a alfabetização? Parece algo mais populista porque é mais fácil do que ir nas universidades e mudar a formação dos professores alfabetizadores", afirma.

Em sua avaliação, o governo Bolsonaro também perde a oportunidade de nacionalizar a reconhecida política de alfabetização do Ceará, algo que poderia ter um impacto muito maior.

Com uma das menores rendas médias do país, o estado se destacou por seus resultados educacionais ao desenvolver uma parceria inovadora com os municípios, responsáveis pela etapas iniciais da escolarização.

Entre as medidas adotadas pelo estado estão a elaboração de material didático estruturado, formação de professores e um incentivo financeiro: as cidades que avançam mais recebem uma fatia maior do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

O MEC afirma que o foco da política são as famílias em situação de vulnerabilidade social beneficiárias do Bolsa Família com filhos entre 0 e 5 anos de idade.

Diz que as crianças de todas as escolas receberão as obras do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) e Literário no segundo semestre de 2020.

A pasta não respondeu se a campanha em shoppings e a propaganda dialoga com as famílias mais pobres.
Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.

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