Pleito Netanyahu adota discurso mais agressivo às vésperas das eleições em Israel

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 16/09/2019 08:55 Atualizado em: 16/09/2019 09:29

Ahmad Gharabli/AFP
Ahmad Gharabli/AFP
Benjamin Netanyahu acaba de se tornar o primeiro-ministro que governou Israel por mais tempo, superando o patriarca David Ben Gurion, e volta a enfrentar as urnas amanhã, em disputa acirrada entre seu partido, o direitista Likud, e a legenda de centro-esquerda Kahol Lavan (“azul e branco”, as cores da bandeira israelense). Passados pouco mais de seis meses desde a eleição de abril, que não permitiu a formação de uma maioria parlamentar, o país volta a se debruçar sobre alguns de seus impasses cruciais (Leia o quadro). Entre eles, se destaca o futuro das relações com os palestinos, questão dominante nos 13 anos (entre 1996 e 1999, primeiro, e desde 2009, no atual período) sob o comando de “Bibi”, como é chamado.

A uma semana do pleito, o premiê pediu aos eleitores “um mandato forte” para dar o passo que pode enterrar definitivamente o processo de paz iniciado em 1993, com os Acordos de Oslo — missão à qual destinou boa parte de seus esforços. Netanyahu anunciou que, caso reeleito e com a maioria necessária, anexará formalmente o Vale do Jordão e a margem norte do Mar Morto, uma área que representa cerca de um terço do território da Cisjordânia, sob governo autônomo da Autoridade Palestina (AP). A reação inicial do mundo árabe indica que a iniciativa tende a provocar mais um solavanco no Oriente Médio, em meio à prolongada guerra civil na Síria e às tensões múltiplas envolvendo Israel, Arábia Saudita e o inimigo comum: o Irã.

“Bibi” afirma ter o apoio do amigo Donald Trump, que formalizou o reconhecimento da controversa anexação de Jerusalém Oriental, na contramão da comunidade internacional, com a transferência da Embaixada dos Estados Unidos para a cidade. O presidente e o secretário de Estado Mike Pompeo evitaram comentar o anúncio do aliado, mas acompanham com atenção máxima o desfecho da eleição de amanhã. Jared Kushner, o genro que Trump transformou em assessor especial e emissário para as questões do Oriente Médio, aguarda os resultados para confirmar a apresentação de um ambicioso plano de paz para a região.

O cientista político Timothy Hagle, professor da Universidade de Iowa, lembra que a colonização judaica na Cisjordânia, cerne do impasse no processo de paz, é motivo de controvérsia também nos EUA, mas admite que a relação pessoal entre o presidente e o premiê é um fator de peso. “Netanyahu pode ganhar alguma liberdade para ir em frente com os planos”, arrisca. O colega Robert Shapiro, da Universidade de Columbia, compartilha a avaliação e não vê a perspectiva de ajustes na política externa de Washington: “Não enquanto Trump for o presidente, pois ele tem apoiado Netanyahu decididamente”.

Nenhum dos dois analistas acredita que a saída do conselheiro da Casa Branca para assuntos de Segurança Nacional, John Bolton, considerado um linha-dura, possa ter algum impacto nas relações com o Oriente Médio. “Trump assumiu o comando disso, talvez com alguma participação da família. Não busca conselhos de Bolton nem de ninguém”, disse Shapiro ao Correio. “O presidente gosta de ver a si mesmo como um bom negociador de acordos”, observa Hagle. “E, não importe o que cada um pense sobre isso, é fato que ele se mostra disposto a conversar com líderes que outros políticos não procurariam.”

Incerteza
Assim como Washington, as capitais da Europa e do Oriente Médio aguardam com alguma ansiedade o resultado oficial das urnas, com risco ponderável de o impasse de abril se prolongar. Projeções baseadas nas últimas pesquisas de opinião indicam um empate entre o Likud, de Netanyahu, e o Kahol Lavan, liderado pelo general Benny Gantz, ex-comandante das Forças de Defesa de Israel. Cada um teria 32 das 120 cadeiras da Knesset (parlamento), um cenário que retrata a crescente fragmentação política. Considerando as possíveis alianças, Gantz poderia articular um bloco de centro-esquerda com 53 deputados (abaixo dos 61 que formam a maioria), incluindo os eleitos pelos árabes-israelenses. “Bibi” chegaria a 58, mas, para isso, teria de incluir partidos judaicos ultra-ortodoxos e a extrema-direita.

Por ironia, o fiel da balança pode ser o mesmo responsável pela convocação da eleição. Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa, ultranacionalista e porta-voz dos imigrantes russos e de uma parcela dos colonos da Cisjordânia, rompeu a coalizão com Netanyahu em uma disputa por espaço com os partidos religiosos. Seu partido, o Yisrael Beiteinu, aparece com chance de eleger oito parlamentares — o suficiente, e indispensável, para romper o impasse na Knesset. “Eu não entrarei em um governo com fanáticos ultraortodoxos”, afirmou em discurso para apoiadores que compartilham a rejeição a imposições dos partidos religiosos, como a suspensão do transporte público aos sábados, para observação do shabat. “Eu não tenho nada contra eles, mas sou contra eles controlarem a minha vida.”Continua depois da publicidade

Colônia é legalizada
Em uma reunião excepcional do conselho de ministros, o governo israelense autorizou, ontem, a legalização da colônia Mevoot Jericó, na Cisjordânia Ocupada. A colônia fica perto de Jericó, a principal cidade palestina do Vale do Jordão e coração da indústria agrícola, ao norte do Mar Morto. Segundo Netanyahu, o vale é “um muro de defesa que será parte integrante de Israel (..) e que vai assegurar a presença eterna das nossas Forças Armadas”. A Autoridade Palestina condenou a realização da reunião, a dois dias das eleições, e, sem mencionar a colônia diretamente, pediu à comunidade internacional que faça pressão sobre Israel, um governo que “mina todos os fundamentos do processo político (de paz)”. Para a ONG israelense Peace Now, “o governo segue dando provas de seu desprezo pela solução com dois Estados”.

Desafios em série

Questões internas e externas aguardam o próximo governo

Palestina
Com o respaldo do governo Trump, Netanyahu tirou na prática do cenário a chamada “solução de dois Estados”, que prevê uma Palestina soberana lado a lado com Israel. Com o avanço progressivo da direita religiosa ultranacionalista na Knesset, a perspectiva de uma saída negociada parece a cada dia mais distante.

Irã
A retirada dos EUA do acordo multilateral sobre o programa nuclear iraniano reforça os receios de que o regime islâmico de Teerã reinicie a marcha para obter armas atômicas. Impedi-lo de alcançar o objetivo é um dos poucos consensos políticos em Israel, mas sobram divergências sobre como fazê-lo. Netanyahu mantém inabalável a ameaça de um ataque militar preventivo.

Síria/Líbano
Nos dois países vizinhos, o Estado judeu confronta-se com a influência estendida do Irã na região, especialmente entre os muçulmanos xiitas e as forças antiamericanas. Neste mês, as forças militares israelenses travaram escaramuças com o movimento libanês Hezbollah, apoiado por Teerã.

Estado religioso
A definição constitucional de Israel como Estado judaico acirra as divisões na sociedade sobre a relação entre o espaço civil e as normas religiosas — objeto de disputas entre diferentes escolas teológicas. A aliança com Netanyahu fortaleceu, nos últimos anos, as correntes ultraortodoxas, que buscam impor normas rejeitadas por outros setores.

Público x privado
Paralelamente às tensões externas, o país viveu, nas últimas décadas, um processo de reequilíbrio entre a economia estatal e o setor privado. A herança algo socialista do sionismo do século 20, que teve sua expressão nos primeiros governos do Partido Trabalhista, passa por profunda e acelerada revisão. Na atual composição de forças políticas, ganham terreno as posições pró-mercado.

Três perguntas para Timothy Hagle, cientista político da Universidade de Iowa (EUA)
Benjamin Netanyahu anunciou planos de anexar uma parte da Cisjordânia. A reeleição do premiê poderia mudar de alguma maneira as relações de Israel com os Estados Unidos?
A ideia de anexar territórios palestinos costuma ser motivo de controvérsia mesmo nos EUA. Em parte, isso se deve às tensões adicionais que essa proposta causa na região. Elas tornam mais difícil encontrar soluções.Isso pode entrar em discussão, caso Netanyahu seja reeleito, mas não está claro se exigirá ajustes na política americana para o Oriente Médio.

Como praticamente o único governante a mudar a embaixada para Jerusalém, Donald Trump estabeleceu uma relação peculiar com o premiê. Ela pode ser afetada pelo desenrolar do processo eleitoral?
A transferência da Embaixada dos EUA causou turbulências, mas não me parece que isso possa influir sobre as relações pessoais entre Trump e Netanyahu, em um próximo mandato dele. O premiê israelense aprovou a mudança, e não sei se algum dos seus oponentes discutiu esse tema. Se algum deles for o próximo premiê, não me parece que fará alguma coisa a respeito, mas isso poderia se tornar um foco de tensão.

As relações bilaterais sofrem algum impacto com a saída do conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton?
Acho que é cedo para dizer se a política externa dos EUA mudará com a partida de Bolton. Ele tem fama de ser linha-dura em vários temas, mas o próprio Trump empenhou-se em dizer que se considera mais “falcão” do que o ex-conselheiro em vários assuntos. O presidente sempre repete que a relação com Israel é muito forte para ser abalada por circunstâncias, mas, na ausência de um conhecido “durão”, como Bolton, talvez Trump possa se mostrar mais aberto a buscar outras soluções.


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