história Ataque dos EUA a avião comercial iraniano há 30 anos foi marco na discórdia entre países

Por: João Perassolo - João Perassolo

Publicado em: 01/07/2019 09:25 Atualizado em:

Reprodução/Pixabay
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No dia 3 de julho de 1988, um avião de passageiros da companhia Iran Air voava de Teerã para Dubai quando, ao sobrevoar o estreito de Hormuz, foi derrubado por um míssil disparado de um navio da Marinha norte-americana.

Segundo a versão dos EUA, o capitão da embarcação Vincennes teria confundido a aeronave, que estava em espaço aéreo iraniano, com um caça militar em procedimento de ataque.

O engano matou as 290 pessoas a bordo -destas, 254 eram cidadãos iranianos. Havia 66 crianças entre as vítimas.

Além disso, o míssil que derrubou o voo 655 foi disparado a partir de águas iranianas. Mas este fato só foi revelado pela Marinha dos EUA em 1992, quatro anos após o ocorrido.

Em 1988, na primeira entrevista do Pentágono para a imprensa após a tragédia, o almirante William Crowe havia dito que a embarcação de onde saiu o foguete navegava em águas internacionais.

No dia 20 de junho, a Guarda Revolucionária do Irã derrubou um drone americano não tripulado que voava sobre o mesmo estreito de Hormuz. Pelo canal, circulam 20% do petróleo consumido no mundo.

Deu-se então uma guerra de narrativas, com Donald Trump afirmando que o drone estava em espaço aéreo internacional, e o líder iraniano, Ali Khamenei, defendendo que o veículo sobrevoava o espaço aéreo do país, o que justificaria parcialmente a ofensiva.

(O Irã também argumentou que optou por não abater um avião norte-americano com 35 passageiros que acompanhava o veículo aéreo militar.)

Independentemente da localização exata do drone, os ataques separados por 30 anos sublinham momentos tensos na relação entre os países inimigos há décadas.

No final dos anos 1980, o Golfo Pérsico passava pela "Guerra dos Navios-Tanque", em que navios americanos escoltavam petroleiros que circulavam pelo estreito de Hormuz após minas iranianas terem atingido embarcações na região. Os Estados Unidos estimam em 160 os navios atacados pelo regime.

As tensões geraram um conflito naval que durou um dia entre Washington e Teerã -além da derrubada do avião de passageiros, que entrou para a lista das dez piores tragédias da história da aviação.

O Ir%u0101 não comprou a explicação americana de que a derrubada fora um acidente, afirmando que o país realizou um ato intencional e ilegal. Por sua vez, os EUA nunca pediram desculpas formalmente, dizendo apenas que lamentavam "uma terrível tragédia humana".

O evento azedou ainda mais as relações entre os lados, que haviam rompido laços diplomáticos após o episódio em que estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teer%u0101, em 1979, e fizeram 52 reféns -a invasão se deu no contexto da Revolução Islâmica.

No dia 13 de junho deste ano, dois navios petroleiros sofreram explosões no Golfo de Om%u0101, região vizinha ao estreito de Hormuz, e ao menos um deles teria sido danificado por minas navais acopladas ao casco.

Os EUA dizem que o Irã implantou as bombas, mas o país nega. Não há confirmações independentes.

O relacionamento dos países está em mais uma baixa histórica desde que os EUA se retiraram, em 2018, de um acordo nuclear com o Irã e outras potências, e em seguida ordenaram que aliados americanos parassem de comprar petróleo iraniano. O petróleo é a principal fonte de receita da nação do Oriente Médio.

Gunther Rudzit, coordenador do Núcleo de Estudos em Negócios do Oriente Médio da ESPM, afirma que o clima periclitante dos anos 1980, assim como o de hoje, pode facilmente "fugir do controle", eventualmente levando a um conflito.

Para o professor, uma guerra agora não interessaria a nenhum dos lados, já que isto causaria um novo choque do petróleo. O preço da commodity aumentaria exponencialmente, o que afetaria os mercados globais e o preço na "bomba de gasolina dos americanos".

"Imagine a derrubada de um avião de passageiros hoje, em que o capitão de um navio manda apertar um botão e 'depois a gente vê'", diz Rudzit, entre risos nervosos.

Qualquer botão pressionado por engano pode ser fatal.


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