automóveis Google e Apple: gigantes apostam no desenvolvimento de carros autônomos

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 28/06/2019 07:34 Atualizado em:

Apple anunciou a compra da Drive.ai, especializada no desenvolvimento de veículos altamente tecnológicos. Foto: Drive.ai/Divulgação
Apple anunciou a compra da Drive.ai, especializada no desenvolvimento de veículos altamente tecnológicos. Foto: Drive.ai/Divulgação
A Apple demonstrou, nesta semana, que tem planos ambiciosos para explorar o mercado de carros autônomos. Sem estardalhaço — o que é raro em se tratando da cultura da empresa —, anunciou a compra da Drive.ai, startup do Vale do Silício especializada no desenvolvimento de veículos desse tipo.

Apesar de a quantia envolvendo o negócio não ter sido revelada, a imprensa americana estima que o preço pago pela gigante de tecnologia foi bem abaixo do valor de mercado da startup, estimado em US$ 200 milhões, em 2017 — algo como R$ 800 milhões em preços atuais.

A Drive.ai vinha sofrendo com graves problemas de gestão — inclusive com trocas frequentes dos presidentes —, que a impediam de realizar os investimentos necessários em um segmento de alta densidade tecnológica e que, por isso mesmo, exige fortes aportes financeiros. Há duas semanas, a Drive.ai parou a sua operação e fechará oficialmente a sede em Mountain View, na Califórnia.

Desde fevereiro deste ano, a startup havia informado ao mercado que estava à venda. Nas últimas semanas, especulações apontavam que a Amazon e a Tesla estariam disputando o controle da empresa. Mas a verdade é que a Apple, temerosa de ficar para trás em um segmento promissor, resolveu se antecipar às concorrentes.

Fundada em 2015, a Drive.ai é considerada uma das startups mais ousadas e com maior potencial no setor de carros autônomos. A sua especialidade é o uso de inteligência artificial e machine learning para a identificação de objetos e obstáculos que surgem no caminho dos automóveis.

Um dos diferenciais da empresa é que suas inovações já estavam sendo aplicadas na indústria real. Diversos modelos da Nissan contavam com sistemas produzidos pela Drive.ai que enviam mensagens de alerta aos pedestres, como “esperando”, “indo”, “entrando” e “saindo”. No ano passado, a empresa começou a testar em Frisco, no Texas, um serviço sob demanda que usa veículos autônomos.

A Apple ainda não informou que estratégias tem para o desenvolvimento da startup, nem se pretende impulsioná-la com fortes investimentos. Nesta quinta-feira (27/6) alguns dos 90 funcionários da Drive.ai atualizaram seus perfis no Linkedin, informando que agora fazem parte da equipe de projetos especiais da Apple.

Com a aquisição, a Apple segue os passos da Amazon e do Google, gigantes da área de tecnologia que também investem em companhias desenvolvedoras de carros autônomos. O Google é dono da Waymo, a empresa que, segundo especialistas, está à frente dos concorrentes na corrida por veículos que não precisam do controle humano, e a Amazon comprou recentemente a startup Aurora, que também projeta sistemas para veículos independentes.

Apesar de o crescente número de empresas que são referências globais em suas áreas de atuação investirem em carros autônomos, não é certo que os automóveis sem motorista vão dominar as ruas, avenidas e rodovias no futuro próximo.

Projetos 
De tempos em tempos, alguma inovação tecnológica cria expectativas que jamais são realizadas. Nos anos 1960 do século passado, os futuristas apostavam em mochilas dotadas de propulsão a jato, que levariam o usuário a voar livremente. Nos anos 1980, acreditava-se que aviões supersônicos transportariam passageiros da América do Sul para a Europa em no máximo três horas. Há uma década, a indústria de eletrônicos anunciou que as TVs 3D mudariam a forma como as pessoas assistem à televisão, com imagens saltando aos olhos e interagindo com todos ao redor.

Por diferentes razões, tudo isso ficou no campo da fantasia, servindo apenas para iludir milhões de consumidores. A nova onda futurista diz respeito aos carros autônomos. Há pelo menos dois anos, a indústria automobilística tradicional e empresas de tecnologia como Tesla, Google e Uber afirmam que veículos que não precisam de condutor humano para se movimentar estão perto de se tornar realidade, prometendo transformar por completo a paisagem das cidades e a maneira como as pessoas lidam com os automóveis.

Por mais que notáveis avanços tenham saído dos departamentos de pesquisa das empresas, ainda está muito distante o dia em que a pessoa pede um carro por aplicativo e ele aparece na porta da casa sem que um ser humano de carne e osso esteja atrás do volante.

Em recente seminário realizado nos Estados Unidos, Gill Pratt, especialista em robótica e presidente do Toyota Research Institute, demonstrou certo ceticismo em relação à autonomia total dos automóveis. Segundo ele, está longe o dia em que haverá tecnologia 100% segura para que apenas uma inteligência artificial seja capaz de levar as pessoas de um ponto a outro, superando obstáculos, mudando rotas aleatoriamente e não representando qualquer tipo de ameaça para todos os seres vivos que cruzarem o seu caminho.

Pratt disse que, em vez disso, o que deverá dominar o mercado são os sistemas avançados de assistência ao motorista. “Pense neles como um copiloto, não como um autopiloto”, disse o executivo. Ele está se referindo a controles ultraprecisos de direção, dotados de radar, câmeras e uma infinidade de sensores que percebem o entorno do automóvel e automaticamente aceleram, param, seguem, mudam de direção ou tomam ações evasivas.

Ousadia 
O desenvolvimento dos carros autônomos pode ser dividido em duas frentes principais. Na primeira delas estão as empresas tradicionais do setor, como General Motors, Volkswagen, Nissan, Ford e Toyota, que são mais comedidas em seus projetos e que parecem pouco afeitas a promessas mirabolantes. “A indústria tradicional mantém os pés no chão, embora saiba que este é um setor que passará por grandes transformações no futuro próximo”, diz o consultor e analista de mercado Daniel Tafese. “Já as empresas de tecnologia costumam ser mais ousadas em seus prognósticos para o futuro.”

Nessa área, ninguém é mais ousado — ou mais fantasioso — do que o americano Elon Musk, fundador da Tesla. Recentemente, ele disse que “em algum momento do ano que vem você conseguirá que o carro seja autônomo sem supervisão.”

Musk disse que, a partir de 2020, terá um aplicativo de transporte similar ao Uber, mas com uma frota 100% composta por veículos autônomos. Ele batizou esses automóveis de “robôs-táxis” e garantiu que eles vão circular em grandes cidades americanas.

Para muitos analistas, a promessa de Musk não passa de uma estratégia para esconder os resultados decepcionantes da Tesla com os carros elétricos. A empresa não tem conseguido entregar os carros prometidos, o que causou sérios danos às suas finanças. No primeiro trimestre, a Tesla teve prejuízo de US$ 702 milhões, ou 20% acima do que era esperado pelo mercado.

Não é tão simples inundar as cidades de carros autônomos. Ainda não existe regulamentação a respeito — na maioria dos países desenvolvidos, as leis de trânsito determinam que um motorista mantenha pelo menos uma mão ao volante. Enquanto questões como essa não sejam esclarecidas, há um crescente consenso que diz que os carros autônomos vão operar apenas em ambientes controlados, como aeroportos, centros universitários e espaços fechados para a realização de eventos. Nas ruas e estradas convencionais, eles, por muito tempo, continuarão a ser objetos da ficção.

Os níveis de autonomia
Especialistas estabeleceram seis níveis diferentes de autonomia para os veículos. Confira a seguir o que se enquadra em cada classificação

» Nível 0
Os humanos ficam com todo o trabalho de guiar. As únicas tecnologias presentes são o sistema que alerta a iminência de um impacto ou a frenagem de emergência.

» Nível 1
O motorista ainda precisa estar plenamente no controle da direção, mas o carro começa a colaborar de maneira mais efetiva, como manter distância segura do automóvel da frente (ACC) ou controlar a trajetória.

» Nível 2
Os carros que se enquadram no nível 2 podem manobrar e se orientar usando as faixas marcadas no asfalto. Mas cabe aos humanos a tarefa mais importante: monitorar as condições de tráfego e intervir quando o carro pedir. O Cadillac Super Cruise é um exemplo de carro que está no nível 2.

» Nível 3
Neste caso, o veículo fornece “autonomia condicional”. Sob certas condições, o motorista pode tirar as mãos do volante, mas deve estar preparado para assumir o controle imediatamente. O Audi A8 é um exemplo de carro autônomo de nível 3.

» Nível 4
A autonomia de nível 4 oferece um veículo totalmente autônomo, mas apenas em certas velocidades e determinados terrenos. O motorista não precisa estar totalmente no controle durante a viagem, mas deve assumir subitamente quando o veículo não for mais capaz de lidar com uma situação. Não há no mercado comercial veículo de nível 4.

» Nível 5
No último nível de autonomia, os veículos são completamente autônomos. O motorista não tem que estar no controle durante a viagem e o veículo pode lidar com qualquer condição da estrada, tipo de clima e não mais vinculado a locais geograficamente restritos.


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