corrupção Escândalo da Odebrecht cresce com novas revelações no Peru

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 29/06/2019 13:05 Atualizado em:

Foto: NELSON ALMEIDA / AFP
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP
O escândalo da construtora brasileira Odebrecht no Peru, que atingiu quatro ex-presidentes, ganhou novo vigor com as revelações sobre pagamentos ilegais em contratos até agora não incluídos nas investigações do Ministério Público, o que a empresa nega.

Os novos casos, que incluem pagamentos ilegais na construção de um gasoduto durante o governo de Ollanta Humala, se somam à denúncia de um procurador contra um colega por supostamente ter facilitado a fuga do país do ex-mandatário Alejandro Toledo. 

Um portal de jornalismo investigativo que vaza informações sobre o caso Odebrecht publicou planilhas de pagamentos ilegais da brasileira em 11 contratos "que até agora não tinham sido sequer mencionados nos acordos de confissão ou de indenização" entre a empresa e a procuradoria peruana. 

São "registros de mais de 45 pagamentos vinculados a nosso país, de mais de 10 milhões de dólares. São pagamentos ilegais a beneficiários finais associados a 11 projetos públicos", segundo o portal IDL-Reporteros, dirigido pelo jornalista Gustavo Gorriti.

A empresa brasileira reagiu após a divulgação das planilhas no portal peruano e afirmou que apresentou toda a documentação aos promotores que investigam o caso.

"Todos os documentos e depoimentos sobre fatos ocorridos no passado (...) estão há três anos nas mãos do Ministério Público do Brasil e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ou seja, estão disponíveis para os países que celebraram acordos de leniência com a Odebrecht e os homologaram", afirmou a construtora em um comunicado enviado à AFP.

A empresa acrescentou que este é um "procedimento judicial adotado internacionalmente", que "estabelece a confidencialidade da informação com o objetivo de resguardar os avanços das investigações, respeitando a soberania de cada país e buscando a eficácia das ações legais contra os acusados".

Nomes em código
De acordo com o IDL-Reporteros, "as planilhas provinham, obviamento, do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht", onde eram registrados os pagamentos ilegais, como propinas e doações para campanhas eleitorais. 

"Não tinha segurança de que todos os pagamentos foram propinas, mas, sim, que todos eles eram ilegais, clandestinos, produtos de lavagem de dinheiro" e quase todos foram feitos "antes da prisão de Marcelo Odebrecht em 2015", disse o portal. 

O IDL-Reporteros afirmou que, "em todos os casos, os receptores de dinheiro figuram com 'codinomes' nessas planilhas".

As tabelas registram pagamentos a pessoas com apelidos como Disco (US$ 400 mil), Princesa (US$ 900 mil), Gaza (US$ 430 mil), Magali (US$ 450 mil), French (US$ 500 mil), Novatos (US$ 200 mil), Magneto (US$ 40 mil), entre outros.

Gasoduto
Três milhões de dólares em pagamentos são ligados ao contrato de construção de um gasoduto que vai da floresta ao mar, cruzando os Andes.

"Até hoje, a Odebrecht não tinha reconhecido o pagamento de propinas no projeto do Gasoduto do Sul", contrato "de mais de US$ 7 bilhões de dólares durante o governo de Ollanta Humala", informou o portal.

"Foram 19 pagamentos a diferentes codinomes ligados a esse projeto entre 15 de abril e 12 de novembro de 2014, por um valor total de mais de US$ 3,2 milhões", acrescentou.

O ex-presidente Humala e sua esposa Nadine Heredia passaram nove meses em prisão preventiva, acusados de receber aportes ilegais de campanha da Odebrecht. 

Algumas das outras transações estão ligadas às obras de uma linha de metrô em Lima, uma rodovia costeira, uma rota suburbana na cidade andina de Cusco e uma estrada amazônica entre Peru e Brasil. 

"O notável neste caso é que quase todas as transações registradas nas planilhas vazadas não estavam nas confissões nem nas delações premiadas da Odebrecht, nem no Brasil, nem nos Estados Unidos, nem tampouco no Peru", destacou o ILD-Reporteros. 

Inatividade?
Depois do Brasil, o Peru foi o país mais atingido pelo escândalo da Odebrecht. As investigações da procuradoria levaram à renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski em março de 2018 e ao suicídio do ex-mandatário Alan García em abril de 2019.

Kuczynski está em prisão domiciliar, e Toledo enfrenta um pedido de extradição dos Estados Unidos. Também estão em prisão preventiva a opositora Keiko Fujimori, a ex-prefeita de Lima Susana Villarán e uma dezena de ex-funcionários. 

As novas revelações sobre pagamentos ilegais são adicionadas às declarações do procurador José Domingo Pérez, que afirmou em um programa de televisão que a "inatividade" de um colega, Hamilton Castro, facilitou a fuga de Toledo aos Estados Unidos no início de 2017.

Pérez é o membro mais proeminente da equipe da Procuradoria que investiga o caso Odebrecht.

Castro se defendeu na quinta-feira: "Não houve nenhuma inatividade de minha parte e de nenhum procurador que esteve sob minha direção", disse à imprensa.

"Não sei quais são as motivações do senhor Pérez, mas eu acredito que deveria estar concentrado nos casos sob sua responsabilidade", completou.


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