Economia Aos 79, executiva usa 'o corpo como ele é' para divulgar projeto

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 30/06/2019 18:27 Atualizado em:

No palco de um auditório lotado, a mulher de 79 anos desamarra o cinto de seu vestido preto, despe-o e caminha pelo palco só de calcinha, sutiã e tênis, sob aplausos, durante 35 segundos.

Não é sem propósito que Helena Schargel encena o strip-tease ao final de uma palestra do TEDx, em São Paulo. Ser a garota propaganda de uma linha de lingeries para maiores de 60 anos foi sua exigência quando levou a ideia a uma amiga industrial.

É expor o corpo "sem Photoshop" (como ela diz), e não lançar-se num empreendimento, a verdadeira reinvenção de Helena.

Afinal, idosos que se lançam em negócios não são propriamente novidade. Dados do IBGE e de outras entidades mostram que os mais velhos são 10% dos donos de empresas e a fatia só cresceu na última década.

Lingerie para públicos específicos também é comum num mercado que produz 1,5 bilhão de peças por ano e importa outros 200 milhões (dados de 2017), com 2.600 indústrias que faturam US$ 3,4 bilhões por ano.

A fabricante da coleção imaginada por Helena não forneceu números, o que impede conhecer seu desempenho comercial. Mas a régua que a executiva prefere é outra.

Com 1,70 m, elegante, bem penteada e bem maquiada, articulada e envolvente quando fala, ela viu se multiplicarem os convites para palestras em que divulga a mensagem que quer associar à sua linha de lingeries: "Cada peça da coleção tem que dizer 'você pode tudo, tem mais uma vida a ser vivida, e ela pode ser a melhor de todas'."

"Eu acreditei nisso, e as mulheres acreditaram em mim", diz, relatando que muitas passaram a procurá-la para contar como se inspiraram para "criar coragem e lutar pelo que querem".

"Se apareço assim meio chocando, de calcinha e sutiã, é para mostrar que aos 79 anos, ou aos 60, aos 70, aos 80, a gente pode inventar algo novo e realizá-lo."

Ela diz que o sonho é viável também para quem não tem dinheiro, experiência e conexões -vantagens com que Helena contava quando se lançou no novo projeto. As dicas para iniciantes? 1) "Pergunte-se o que você gostaria mesmo de fazer. Se a gente se envolve com algo que dá prazer, a chance de sucesso é maior"; 2) "Se não souber o que quer fazer, experimente. Seu inglês é ótimo e você gosta de cozinhar? Invente um chá com aulas de idiomas"; 3) "Não tenha medo de arriscar; se der errado, a gente encontra outro caminho".
Trabalho faz parte da vida dela (com exceção de uma breve pausa em 2017) desde os 14 anos, quando a família se mudou de Marília, no interior paulista, para o Bom Retiro, bairro da capital do estado que então, na década de 1950, concentrava a comunidade judaica.

Os pais, imigrantes poloneses, queriam dar mais oportunidades à filha única. "E, afinal, eu era uma menina judia, e precisava encontrar um menino judeu", conta rindo a executiva na sala de estar de seu apartamento em Higienópolis, bairro nobre paulistano.
Foi o irmão de uma amiga, "um rapaz lindo de olhos azuis", o noivo com quem Helena se casou aos 17. Na época, já havia comprado uma Lanofix -máquina de fazer tricô- e vendia as peças que ela mesmo tecia.

Também ajudava os pais, que comerciavam tecidos, e passeava com as vizinhas de prédio, Berta e Zuma, do terceiro e do quarto andar. Foi de braços dados com essa última que ela parou em frente a uma vitrine na rua José Paulino e comentou: "Nossa, essas coisas são horríveis. Quem sabe qualquer dia não venho dar uma ajuda para melhorar isso".

A amiga, mulher do dono da loja, aceitou a oferta. Começou aí uma longa carreira para Helena na Berlan, empresa do ramo têxtil na qual ela fez de quase tudo: rascunhou modelos, reformulou processos, orientou os representantes, elaborou catálogos e negociou contratos.

"Logo de cara, bolei uma saias plissadas que foram um sucesso. Fazia fila na porta da loja para comprar", conta ela, que se guiava pelo próprio gosto no trabalho de estilista improvisada.

"Só mais tarde é que pude viajar para aumentar o repertório." Na construção de uma nova fábrica, sugeriu que incluíssem copa e cozinha, para receber os clientes. Supervisionava o cardápio, se envolvia no preparo e até distribuía folhetos com as receitas ao final da refeição.

"Foi à mesa que fechei os melhores negócios. O objetivo era não ser tão comercial. Ser mais informal, mostrar sinceridade."

Virou diretora de estilo, cargo que ocupou até 2016, quando se aposentou. No meio tempo, teve dois filhos e cinco netos, descasou, casou de novo, teve um câncer, recuperou-se, montou um restaurante nos Jardins, o Pralinê, no qual queria tomar conta de tudo, das compras na madrugada à cozinha e à atmosfera do salão.

Na entrevista à Folha, convidou repórter e fotógrafo para um café com torta quente de maçã e sorvete de creme. Viúva há sete anos, deu-se mal com a curta aposentadoria, em que ocupava o tempo com ginástica e terapia. "Nada me dava tesão, e sou movida a tesão", comenta Helena, que agora se anima com a ideia de "tirar as mulheres da invisibilidade".
Helena diz que não foi difícil tirar o vestido em frente ao auditório lotado, ideia que partiu dela própria, e que seus filhos e netos não se importaram. "Eles nunca tiveram uma mãe normal", diz, sorrindo.

Como gosta de ficar de pijama, também desenhou uma linha que pode ser usada na cama ou na rua. Só calça tênis ("mesmo de terno ou vestido"), não faz regime, não se considera vaidosa, vai ao pilates três vezes por semana e negocia nova parceria, em outra área de vestimentas.

As demandas do novo papel de mulher inspiradora a deixaram um pouco cansada fisicamente, e ela pensa em tentar yoga ou meditação: "Nunca consegui; sou muito elétrica".


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