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Notícia de Divirta-se

CINEMA

A anarquia do corpo

Bizarro, visualmente glorioso e em constante reinvenção, 'Pobres criaturas' traz Emma Stone em jornada fabular de emancipação feminina através do prazer

Publicado em: 03/02/2024 06:00 | Atualizado em: 03/02/2024 16:44

 (Disney.)
Disney.
Na Londres vitoriana, Bella Baxter (Emma Stone) é uma mulher diferente de qualquer outra. Trazida de volta à vida pelo cientista-cirurgião Godwin Baxter (Willem Dafoe) em um método bizarro de transfusão cerebral, após se atirar grávida de uma ponte, ela é, agora, um bebê num corpo crescido e, portanto, precisa aprender tudo do zero. Rapidamente, Bella descobre os prazeres do corpo e, na necessidade de experimentar o mundo, decide viajar pela Europa ao lado do libertino Duncan (Mark Ruffalo), mesmo estando prometida ao assistente de seu criador, o apaixonado Max (Ramy Youssef).
 
Dirigido por Yorgos Lanthimos (O lagosta, O sacrifício do cervo sagrado e A favorita) e adaptado do livro homônimo de 1992 escrito por Alasdair Gray, Pobres criaturas, em cartaz, é uma experiência tão inusitada de se assistir quanto é difícil de categorizar em termos de gênero. Ainda que a premissa tenha inspiração em Frankestein, de Mary Shelley, e vários elementos grotescos remetam ao horror e à ficção científica, o tom predominante é de uma comédia surrealista de caricaturas estruturada como um conto de fadas adulto.
 
O cinema de Lanthimos, grego célebre pelos roteiros provocativos e pessimistas, dialoga sempre com a ideia de prisões impostas pelo mundo e de como os personagens – geralmente tratados por ele como amorais – estão submissos ao chamado ‘sistema’. Em Pobres criaturas, em princípio, não é diferente: a jornada de Bella é essencialmente um rompimento do paradigma de cárcere estabelecido pelo seu pai/criador, que, por sua vez, não demora a compreender a importância do livre-arbítrio da sua criação. Nessa busca por sensações, o sexo será o motor de libertação da protagonista, cada vez mais consciente de suas escolhas. 
 
O que põe o filme numa chave diferente da inquietante obra do diretor, no entanto, não é apenas esse visual retrofuturista salientado pelas suas características lentes grandes-angulares – que transformam Lisboa, Alexandria e até Paris em versões oníricas hiper estilizadas –, mas o caráter fabular quase otimista desse trajeto. As cenas de nudez são gráficas, hilárias e, às vezes, desconfortáveis, mas colocam a personagem num lugar de empoderamento raramente visto por uma produção comandada pelo olhar masculino. É admirável, aliás, como Stone se joga no papel sem qualquer contenção, conferindo na sua fisicalidade a evolução de Bella de uma ‘recém-nascida’ para uma mulher autônoma em suas atitudes.
 
Apropriadamente verborrágico, visto que a personagem está em desenvolvimento constante da sua articulação, Pobres criaturas relembra que as imposições e regras do sistema foram criadas pelos e para os homens –  libertinos na intimidade, mas conservadores em público. Expondo a hipocrisia social através do personagem de Mark Ruffalo e contrariando esse tolhimento da anarquia do corpo, quase todas as mulheres que surgem no filme discutem explicitamente sobre sexualidade sem qualquer constrangimento.
 
É curioso como os assuntos de Pobres criaturas sobre emancipação feminina e toxicidade masculina circulam mesma esfera temática de Barbie, de Greta Gerwig, um de seus fortes concorrentes na temporada de premiações. O que diferencia as jornadas de ambos, além da evidente classificação etária, é que a boneca da Mattel tem de sair do seu mundo ideal para conhecer o patriarcado, enquanto Bella já nasceu nele e precisa desbravar tanto o vasto universo à sua volta quanto seu próprio corpo para se tornar livre.
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