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Cinema

O combustível da imagem

'Ferrari', de Michael Mann, acelera com fluidez pela estrada e pelos closes, em cinebiografia de dramaturgia exemplar e que trepida em intensidade visual

Publicado em: 22/02/2024 06:15 | Atualizado em: 22/02/2024 00:04

 (Diamond Films)
Diamond Films
Em 1957, o ex-piloto e magnata italiano Enzo Ferrari (Adam Driver) está passando por um momento complexo que entrelaça a situação financeira do seu império de automóveis e a relação doméstica com sua esposa, Laura (Penélope Cruz). Conselheiros do comendador ligam o alerta para a falência iminente caso ele não obtenha um acordo com outra gigante do mercado, sugerindo ainda que aposte tudo em fazer de um de seus carros vencedor da corrida de longa distância Mille Miglia. Uma das principais apostas para tanto é o corredor célebre Alfonso de Portago (Gabriel Leone), que passa a representar a marca. Para colocar os negócios adiante, ele depende da boa vontade da mulher, que não só detém metade das ações da empresa como, desde a morte de seu único filho, em 1956, mantém com Enzo uma relação a ponto de explodir.

Ferrari, que entra em cartaz hoje, é um exemplo excelente do potencial da cinebiografia hollywoodiana para além do formato ilustrativo e legatório em voga há tantos anos, e ainda uma experiência de cinema de trepidação física. Poucos cineastas na indústria possuem um conjunto da obra tão robusto quanto Michael Mann (Fogo contra fogo, O informante, Colateral e Inimigos públicos), que retorna à direção oito anos após a má recepção do thriller de ação Hacker e consolida, agora, um projeto que estava em suas mãos há cerca de três décadas.

A abordagem formal de Mann, sobretudo com a ação, é das mais influentes do cinema americano desde os anos 1990 e, ao longo da década de 2000, ele se mostrou um dos expoentes na aplicabilidade narrativa da imagem digital e na mobilidade quase ilimitada da sua câmera, em especial na orquestração de sequências de tiroteio e perseguição. Ele é também um dos cineastas que melhor fotografam closes climáticos e confrontos entre dois personagens – e, em Ferrari, todas essas qualidades fortalecem uma a outra.

No lugar de segmentar a narrativa com uma sucessão de fatos históricos da vida de Enzo, o filme arranca tudo o que não é essencial a esse recorte de 1957. Ao contrário de projetos históricos similares, por exemplo, a personagem da esposa não tem apenas um papel decorativo ou informativo, mas é motor dramático central da trama. Em interpretação que toma conta do filme, Penélope Cruz tem em seu rosto uma paisagem tão intensa e completa quanto as imensidões abertas das corridas. Mann jamais renega o melodrama – principalmente em uma história como essa, que inclui ciúme, traição, filho bastardo – e trata o jogo emocional entre Enzo e Laura como uma batalha de negócios que, na prática, ele é, e as estupendas sequências na estrada acabam se transformando em expressões visuais das emoções dos personagens, cheias de acelerações imprevisíveis. 

Ferrari não deixa de ser uma cinebiografia de prestígio, com produção pomposa, dados verídicos importantes e elenco estelar, mas é um corte bastante particular da história que joga fora todo o possível excesso de bagagem para se concentrar no que há de cinematográfico nela. O impacto da ação é indivisível, portanto, de todo o drama e o encontro entre o mais íntimo dos elementos com o mais grandioso deles, no terceiro ato, provoca uma cena impressionante que figura entre as maiores e chocantes da filmografia do cineasta – e que certamente pegará o público desprevenido.

Michael Mann, em retorno triunfante, mobiliza a linguagem entre o classicismo – que valoriza o poder de um simples plano e contra-plano de dois grandes atores – e a estilização que enche os olhos. Realizando seu desejo de longa data de dirigir um projeto sob alta velocidade automobilística, ele, novamente, encontra na força da imagem seu combustível indispensável.
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