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Cinema

O espelho da realidade

"Segredos de um escândalo" coloca Natalie Portman e Julianne Moore em jogo complexo de interpretações que transita entre o melodrama e o cinismo autoconsciente

Publicado em: 18/01/2024 06:00 | Atualizado em: 18/01/2024 07:02

Perturbadora história de abuso discutida no longa é inspirada num caso verídico (Diamond Films)
Perturbadora história de abuso discutida no longa é inspirada num caso verídico (Diamond Films)
Empenhada no papel que acabou de receber em um telefilme, a atriz Elizabeth (Natalie Portman) resolve passar um tempo na convivência de Gracie (Julianne Moore), a personagem real que irá interpretar e que, décadas atrás, foi assunto de comoção nacional quando se envolveu com um pré-adolescente, sendo condenada por abuso de menor. Após sair da prisão, ela manteve relação com a vítima, já crescida, e teve dois filhos, levando uma vida normal e negando veementemente ter cometido qualquer crime. 

Segredos de um escândalo, já em cartaz, parte do caso real da professora Mary Kay Letourneau – condenada em 1998 por estuprar seu aluno de 12 anos – para desenvolver sua própria trama sobre o mergulho na interpretação de uma personagem controversa. Apropriadamente, o roteiro escrito por Samy Burch faz dos pormenores do passado meras especulações e foca no processo da atuação de Elizabeth, na sua curiosidade mórbida daquele caso e, à medida que a trama avança, no despertar gradual do já adulto Joe (Charles Melton), a vítima que não se vê como tal.

Dirigido por Todd Haynes (A salvo, Longe do paraíso e Carol) a convite da própria Natalie Portman, que assina como produtora, Segredos de um escândalo combina de modo muito particular a seriedade dramática que o peso da temática em questão pede com um tom novelesco autoconsciente e até meio desavergonhado. O comportamento de Elizabeth ao longo do convívio com o casal é cada vez mais despudorado – claramente tirar proveito criativo da situação é de maior interesse para ela do que o sofrimento humano em si – e essa energia cínica parece contaminar todo o filme. Ele está, na prática, através da personagem de Portman, comentando sobre seu próprio ato de usar uma tragédia real para fins de entretenimento.

Todd Haynes sem dúvida trata os confrontos dramáticos de Segredos de um escândalo com sobriedade e, apoiado em três atuações sublimes e pelo texto formidável de Burch, cria algumas cenas verdadeiramente memoráveis. Mas chama atenção como, mesmo com todo o rigor da direção, o projeto jamais abandona certa vocação de telecine dos anos 1990: a trilha de piano exagerada, os zooms pontuais, a atmosfera de suspense erótico, as caracterizações que beiram a caricatura e até o jeito de falar de Gracie são características marcantes nesse sentido. 

Poucos cineastas têm a capacidade de conciliar esses diferentes apelos sem perder a unidade, mas Haynes, aqui na quinta colaboração com Julianne Moore, o faz sem demonstrar esforço, visto que várias coisas não são respondidas pelo filme. Ele lida com a bagagem do caso, não com origens dele. O arco devastador do personagem de Charles Melton é propositalmente incompleto e se torna ainda mais forte de assistir pelo fato de o público não ter todas as informações sobre seu passado e sobre o que lhe acontecerá após os créditos subirem. 

A eloquência de Segredos de um escândalo está, inclusive, em compreender que toda história, no fim das contas, ganha o mundo através de recortes, seja aquele feito pela mídia, seja por uma adaptação cinematográfica. E, ao trabalhar com a ideia de uma pessoa estudando os trejeitos de outra até se transformar num espelho dela, o diretor reforça o poder e talvez até a natureza imoral da ficção de contar e ressignificar histórias alheias em função da realização artística plena.
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