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CINEMA

Comédia dramática 'Os Rejeitados' concilia conflitos de geração dos solitários do Natal

Filme de Alexander Payne venceu o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical e atriz coadjuvante e é um dos mais cotados para o Oscar

Publicado em: 11/01/2024 09:00

 (Paul Giamatti, Dominic Sessa e Da' Vine Joy Randolph protagonizam aclamada comédia dramática do diretor de 'Sideways' e 'Os Descendentes'. Universal/Divulgação.)
Paul Giamatti, Dominic Sessa e Da' Vine Joy Randolph protagonizam aclamada comédia dramática do diretor de 'Sideways' e 'Os Descendentes'. Universal/Divulgação.
No internato Barton Academy, na década de 1970, o professor Paul Hunham (Paul Giamatti) é de longe o mais odiado entre os docentes da instituição, e, ao que parece, não apenas pelos alunos. Durante o período de festas de fim de ano, ele acaba sendo incumbido da supervisão dos jovens que terão de ficar na escola, já que não possuem famílias para recebê-los em casa. Mal humorado e solitário, com rigidez irrestrita para com todos os estudantes, ele desenvolve uma conexão maior com August (Dominic Sessa), um adolescente especialmente melancólico e com quem bate de frente várias vezes antes de criar um laço de amizade. Mary Lamb (Da’ Vine Joy Randolph), chefe da cozinha, também passa parte desse período na companhia improvável do professor e do estudante, formando a curiosa família que faltava para cada um. 

Os rejeitados, já em cartaz, é o oitavo longa-metragem de Alexander Payne, mas apenas o terceiro dentro de um intervalo de uma década. Conhecido pelas premiadas comédias dramáticas Sideways: Entre umas e outras, Os descendentes e Nebraska, o diretor é uma das vozes mais prestigiadas do gênero desde o final dos anos 1990 e retorna às graças da crítica e do público agora, após o fracasso de seu último projeto, a ficção científica Pequena grande vida, de 2017.

A simpatia criada pelos seus personagens e as dores que se revelam mais intensas do que a fachada de comédia inicialmente indica são parte fundamental da obra de Payne, que faz em Os rejeitados o que soa como um retorno nostálgico à sua própria adolescência, também passada nos anos 1970. A ambientação é perfeitamente evocativa de uma solidão acompanhada de algum aconchego (a neve do lado de fora da escola em contraste com os tons pasteis das internas) e o humor não raro se manifesta com uma leveza até infantil, como na cena em que o professor corre atrás de August pelos corredores do internato.

Apesar de circundar algumas situações trágicas, a filmografia de Payne tem um carinho quase paternal com os seus protagonistas, como se fossem sempre extensões de sua própria família. Em Os rejeitados essa característica atinge um outro patamar, já que o filme precisa oferecer àquelas três pessoas, sobretudo o garoto (numa interpretação reveladora de Dominic Sessa), o acolhimento que lhes falta justamente na temporada festiva. O longa deposita as forças do drama na aspereza inicial da atuação cheia de manias e calor de Paul Giamatti e no amolecer de seu trato com o garoto.
 
É evidente que o arco central, dos conflitos geracionais que aos poucos vão sendo diluídos pelos pontos de convergência, já foi explorado diversas vezes até mesmo com esse recorte da relação professor/aluno. Os rejeitados, inclusive, não tem exatamente o brilho e os lances memoráveis de texto que alguns dos melhores momentos do cinema de Payne já proporcionaram. Falta, talvez, um desapego maior desse espírito de conciliação em função algo que mobilize mais o filme, que o liberte um pouco dessa estrutura segura em suas convenções e sacuda a experiência – algo que o recente nacional Tia Virgínia, de Fábio Meira, também um ‘filme natalino’, faz com perfeição. 

Ainda assim, é um trabalho profundamente honesto nas suas intenções de abraçar aqueles pra quem as festas de fim de ano sempre foram menos momentos de confraternização e mais períodos merencórios. O trio improvável que Alexander Payne cria com Paul Giamatti, Dominic Sessa e Da’ Vine Randolph é uma ode tanto aos que se sentem esquecidos quanto à compreensão das diferenças quase como uma dádiva natalina: algo que nos une mais do que nos separa. E é também uma lembrança de que, em última instância, a família real pode ser aquela que se constrói.
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