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LITERATURA

Coletânea "A vida como ela é" resgata 25 histórias de Nelson Rodrigues

Histórias foram publicadas há cerca de 50 anos e reforçam natureza atemporal do escritor

Publicado em: 10/01/2024 14:49

Publicação é o desdobramento de uma ampla pesquisa que teve início em 2012, no centenário de Nelson Rodrigues (Foto: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã)
Publicação é o desdobramento de uma ampla pesquisa que teve início em 2012, no centenário de Nelson Rodrigues (Foto: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã)
Seja pela genialidade ou sensacionalismo hiperbólico, Nelson Rodrigues cunhou textos memoráveis como jornalista, cronista, romancista e dramaturgo. Não é à toa que a ‘obra rodriguiana’ continua sendo aclamada de geração em geração. A Vida Como Ela É…, série de contos escritos pelo autor pernambucano há cerca de 50 anos, ressurge em uma nova coletânea com 25 histórias resgatadas pela editora Nova Fronteira. Como é de se imaginar, assuntos controversos são uma constante ao longo das 160 páginas: ciúme, obsessão, dilemas morais, inveja, desejos desgovernados, adultério e morte.

A publicação é o desdobramento de uma ampla pesquisa que teve início em 2012, no centenário de Nelson Rodrigues, na qual foram coletados mais de 100 textos e pequenos folhetins da coluna A Vida Como Ela É - publicada ao longo dos anos 1950 e 1960 nos jornais Última Hora, Diario da Noite e Jornal dos Sports. A pesquisa resultou em duas compilações lançadas pela Nova Fronteira, mas ainda havia material disponível para o terceiro lançamento.

Enquanto realizava a análise dos textos, a equipe se deparou com a peculiaridade do trabalho de Nelson Rodrigues que, em muitas ocasiões, publicava suas obras sob títulos distintos. De acordo com Janaína Senna, uma das organizadoras do livro, foram descartadas as obras relançadas e modificadas. “Escolhemos as histórias efetivamente originais”, explica. A coluna literária se tornou um fenômeno e teve um impacto significativo no aumento das vendas dos jornais em que era veiculada. Além do formato impresso, as histórias foram divulgadas de diversas maneiras, incluindo a narração de Procópio Ferreira na Rádio Club e uma versão ilustrada em revista.

Questionada sobre a história predileta na coletânea, Janaina elegeu “Senhora Decente”, em que há uma conversa de elevador entre o protagonista e um jornalista. Ao longo do texto, um dos personagens menciona uma crítica do sociólogo Carlos Estevam à peça Boca de Ouro, de autoria do próprio Nelson, e afirma que “o ‘revolucionário burro’ vai enterrar, direitinho, o teatro brasileiro”. Na sequência, ele ironiza uma suposta hipocrisia do dramaturgo e revolucionário comunista Vianinha. “O Vianinha faz poemas para Cuba! E nunca escreve um verso para o nosso Nordeste!”.

“Só os profetas enxergam o óbvio” é uma das brilhantes frases do escritor, que não media as palavras e abordou temas considerados espinhosos até hoje. Apesar de míope, Nelson ironicamente profetizou vários temas debatidos atualmente em seus contos e crônicas. No prefácio, Paulo Werneck opina que o vocabulário rodriguiano se renovou. “Hoje continuamos falando sobre tudo aquilo que Nelson Rodrigues retrata aqui, ainda que com novos nomes (há histórias de “poliamor “,”trisal “,”casamento aberto “,”assédio “,”shippagem “ e o que mais possa ser inventado”.

A perícia em lidar com polêmicas foi transmitida de pai para filho, uma vez que Mário Rodrigues, também jornalista, se viu obrigado a trocar o Recife pelo Rio de Janeiro no início do século passado. Isso ocorreu para evitar as repercussões do que ele havia escrito contra a classe política pernambucana. Nelson tinha quatro anos e, apesar da pouca idade quando partiu, carregou parte do sotaque e gírias da terra natal. “Nunca deixou de pensar ou ter contato com Recife”, destaca Janaína. Embora as histórias sejam ambientadas no subúrbio carioca, o autor retrata os desejos e angústias do brasileiro em geral. “É um autor que parte do local para o universal”.
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