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CINEMA

'Ela disse' adentra na investigação que expôs denúncias de abuso sexual contra o produtor Harvey Weinstein

Publicado em: 09/12/2022 11:55

 (Universal/Divulgação.)
Universal/Divulgação.
Vencedoras do prêmio Pulitzer por uma das reportagens mais revolucionárias da sociedade norte-americana contemporânea, as jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do New York Times, começaram a remover de baixo do tapete e expuseram ao mundo chocantes acusações de violência sexual cometidas em Hollywood, que levaram à condenação anos depois, em fevereiro de 2020, do então poderoso produtor de cinema Harvey Weinstein. Iniciada em 2017, a série de investigações da dupla de repórteres, que teve origem com uma grave denúncia de assédio contra a atriz Rose McGowan, desdobrou-se em numerosos casos de abuso envolvendo outras mulheres, cujas histórias eram sistematicamente abafadas pela imprensa ou coagidas pelo próprio abusador a se manterem em silêncio por meio de acordos financeiros.

Co-fundada por Harvey Weinstein e seu irmão Bob em 1993, a empresa de entretenimento Miramax (atualmente vendida para uma divisão da Paramount) foi durante décadas palco de vários tipos de violência sexual cometidas pelo produtor, que notoriamente usou de sua influência e poder para desacreditar as declarações feitas contra ele, mas acabou por ser condenado a 23 anos de reclusão pelos crimes de assédio e estupro. A repercussão do caso levou mais de 80 mulheres a se pronunciarem com denúncias e, desde então, ganhou força em fóruns de discussão e em redes sociais, impulsionando cada vez mais a produção audiovisual com comando e protagonismo feminino.

Tendo como base o livro homônimo de não ficção escrito pelas próprias repórteres, o drama Ela disse, com Zoe Kazan no papel de Jodi e Carey Mulligan como Megan, funciona não só como um resumo burocrático do processo investigativo mas, sobretudo, como lembrança de que essa matéria e as denúncias por ela levadas à luz foram responsáveis por esse novo momento de conscientização dentro da indústria cinematográfica - conhecido como movimento “Me Too”, que gerou organizações de celebridades como a Time’s Up, dedicada ao apoio de mulheres vítimas de abuso sexual. A direção de Maria Schrader (O homem ideal) entende bem esse peso histórico do assunto, mas reconhece o estado ainda em evolução de muitos dos acontecimentos narrados no filme, concentrando o arco principal na fase investigativa contida no livro.

Hábil ao expor a admirável coragem de Jodi e Megan para desenrolar o novelo de histórias escabrosas, falar frente a frente com as vítimas e enfrentar a enxurrada de intimidações por parte da defesa de Weinstein – além de lidar com seus próprios conflitos emocionais por estarem na linha de frente dessa publicação –, Ela disse nega o caminho fácil do melodrama e não faz excessivas correlações entre os fatos essenciais e as vidas particulares das protagonistas. O público conhece apropriadamente pouco de sua intimidade e sente de modo sutil e gradual como o trabalho delas insidiosamente contamina seu o dia a dia, seja com telefonemas na madrugada ou com uma breve chamada de vídeo.

A diretora quase nunca estetiza os ambientes e, de modo semelhante ao primo temático menos envolvente Spotlight: Segredos revelados, utiliza uma montagem objetiva e planos com iluminação chapada, o que confere a Ela disse uma impessoalidade que só não se transforma numa limitação graças às interpretações sinceras e assertivas de Zoe Kazan e Carey Mulligan - a última, após protagonizar As sufragistas e Bela vingança, vem se tornando símbolo feminista no cinema e chega novamente cotada para uma indicação ao Oscar, num filme que deve abocanhar outros prêmios na temporada.
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