
O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, advertiu, nesta segunda-feira, que a crise financeira mundial está acertando um duro golpe nos países pobres de regiões como a África Subsaariana e convocou a comunidade internacional a atuar com urgência e generosidade a fim de evitar os efeitos possivelmente devastadores nos países mais vulneráveis.
- Após sacudir primeiro as economias avançadas e depois as emergentes, uma terceira onda desencadeada pela crise financeira mundial está golpeando os países mais pobres e vulneráveis do mundo - afirmou Strauss-Kahn durante a apresentação do novo estudo do FMI , ‘The Impact of the Financial Crisis on Low-Income Countries (O Impacto da Crise Financeira nos Países Pobres). - Por conta da crise, os principais resultados alcançados pelos países de baixa renda na última década - estímulo do crescimento, alívio da pobreza e consolidação da estabilidade política – correm perigo. Peço aos países que integram o Fundo que se coloquem a altura das circunstâncias e proporcionem o financiamento necessário para proteger o que tanto custou a alcançar e impeçam uma crise humanitária.
Segundo o estudo do FMI, mais de 20 países são especialmente vulneráveis a atual crise e, este ano, será necessário um mínimo de US$25 bilhões em financiamentos urgentes para os mais afetados, sendo que o montante pode ser muito maior em razão do risco de redução das perspectivas econômicas mundiais e a possibilidade de que outras economias se enfraqueçam à medida que se agrave a crise.
- Os doadores bilaterais devem assegurar que a ajuda aumente, não que diminua - assinalou Strauss-Kahn. - Em um momento em que as economias avançadas estão investindo centenas de bilhões de dólares em estímulo fiscal e na reestruturação do setor financeiro, devemos encontrar margem para ajudar os países pobres.
Strauss-Kahn advertiu ainda que a desaceleração do crescimento poderia ter repercussões graves para a pobreza e também para a estabilidade política. Ele assinalou que é necessário ampliar o gasto em programas de proteção social direcionados a estes países, ao mesmo tempo em que se mantêm os gastos em questões ligadas à saúde, ensino e infraestrutura básica.
Strauss-Kahn também reforçou seu objetivo de duplicar a capacidade de empréstimos do FMI, acrescentando que o Fundo também está buscando uma maneira de flexibilizar o crédito que libera aos países de baixa renda, tendo em conta sua crescente diversidade e sua maior exposição à volatilidade mundial.
- O FMI está organizando uma resposta extraordinária frente a uma crise extraordinária que enfrentam as economias mais pobres do mundo - declarou.
Principais Conclusões
O novo estudo revela que as perspectivas econômicas dos países de baixa renda se deterioraram drasticamente. Segundo as projeções mais recentes do FMI, o crescimento dos países de baixa renda em 2009 será de pouco mais de 4%, mais de dois pontos percentuais abaixo das projeções feitas há um ano, com forte risco de baixa. Isto significa que, no melhor dos casos, este ano as receitas de muitos dos países mais pobres do mundo ficarão estagnadas e que inclusive poderiam diminuir.
Segundo o estudo, a crise mundial está asfixiando as exportações dos países de baixa renda, e está restringindo as entradas de investimento estrangeiro direto e remessas, que em anos recentes haviam se convertido em importantes fontes de financiamento. Assim, muitos países registrarão receitas fiscais menores, e é possível que alguns também vejam pressionadas suas reservas monetárias.
No estudo, o FMI aponta 22 países de baixa renda que sofrerão mais fortemente a escassez de financiamento. Para manter suas reservas externas em níveis prudentes (o equivalente a aproximadamente três a quatro meses de importações) serão necessários pelo menos US$ 25 bilhões adicionais em financiamentos em 2009. Isto equivale a 80% da ajuda anual que receberam todos os países de baixa renda nos últimos anos. Se houver uma piora no quadro de crescimento mundial e das condições de financiamento, o número de países vulneráveis poderia praticamente duplicar, e as novas necessidades de financiamento poderiam chegar a US$ 140 bilhões.
Respostas do FMI
O FMI reforçou significativamente a assistência financeira que presta aos países de baixa renda. Em resposta aos choques dos preços dos alimentos e dos combustíveis no ano passado, os novos acordos de financiamento com estes países passaram de cinco em 2007 para 23 em 2008, e aumentaram os recursos disponíveis no marco de 12 acordos em vigência. Os empréstimos do FMI duplicaram e chegaram a quase US$ 1,5 bilhão em 2008, com um componente adicional de US$ 4 bilhões proporcionados a países de baixa renda em condições não concessionárias. O FMI está disposto a dar assistência aos países de baixa renda com mais financiamentos este ano para ajudar a solucionar as sequelas da crise.
Em consulta com os países de baixa renda, o FMI também está definindo medidas para enfrentar a crise, e está reforçando a assistência técnica a fim de elaborar novas políticas nos países em desenvolvimento. O FMI também está procurando tornar mais relevantes a função e a participação dos países em desenvolvimento no debate sobre políticas que se está celebrando em fóruns multilaterais.
Além disso, o governo da Tanzânia e o FMI estão organizando uma conferência internacional em Dar es Salaam, nos dias 10 e 11 de março. A conferência ontará com 300 participantes — governos, setor privado e a sociedade civil da África e outras partes do mundo — para troca de experiências positivas e analisarão a melhor maneira de fazer frente aos desafios da região.
Da Agência O Globo