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Personagens do Recife assistem
ao fim da boemia no bairro
Por Pollyanna
Diniz
Do Pernambuco.com |
Rosália era uma morena bonita. Chamava atenção
quando entrava no salão: vestido longo e acinturado,
luvas. “Eu só não usava salto alto
porque não aprendi a andar de jeito nenhum”,
revela a senhora que hoje tem 67 anos e muitas histórias
para contar de um tempo em que o Recife Antigo era ponto
de chegada para marinheiros que atracavam os navios
no Porto do Recife e vinham em busca de diversão
e, principalmente, de mulheres. E encontravam. Elas
estavam nos bordéis e pensões das ruas
estreitas do bairro. “Fui dona de sete bordéis.
Mas naquela época o Recife Antigo era outro.
As mulheres eram lindas. Hoje elas sumiram. E sem o
porto aqui, os marinheiros também foram embora.
Mas eles tinham muito dinheiro”, relembra Maria
Rosália Simeão de Oliveira.
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Rosália Simeão vivenciou a época
em que o local era entretenimento para os marinheiros
que chegavam ao porto |
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Alguns anos mais tarde, já na década de
90, a revitalização da Rua do Bom Jesus
modificou o caráter do bairro do Recife. Restaurantes,
bares e boates atraíam turistas de vários
países; e os pernambucanos sabiam que aquele
era lugar de lazer e cultura garantidos. Quem vivenciou
as várias “fases” pelas quais passou
o bairro, se entristece ao observar a Rua do Bom Jesus
numa noite de quinta-feira. “Você precisava
ver essa rua lotada. A gente passava com dificuldade.
Estou nesse bairro desde a década de 60. Nunca
pensei que fosse chegar até esse estado de abandono.
É triste, minha filha”, conta o garçom
da lanchonete As Galerias, Albérico José
de Santana, de 63 anos, olhando para a rua vazia.
Naquela noite, apenas a lanchonete em que trabalha seu
Albérico e o bar do comerciante Rildo Dias, de
64 anos, ainda sobreviventes à crise que provocou
o fechamento dos outros estabelecimentos, estavam funcionando
na Rua do Bom Jesus. Por trás do balcão
onde são servidas as bebidas, o senhor baixo,
de cabelos grisalhos, óculos e fala mansa dá
explicações sobre o que teria acontecido
com o bairro. “É questão política.
Falta vontade, falta interesse. O público que
vinha aqui queria se divertir, gostava de novidade.
Mas, de repente, tudo acabou. A gente fazia muito “negócio”
aqui”, diz Rildo, que já empregou seis
funcionários e hoje trabalha sozinho. “Não
tem como pagar ninguém. Quem vai trabalhar sem
receber? Eu vendia comidas. Hoje só vendo bebidas,
porque não tenho cozinheira”, fala o comerciante.
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Rildo Dias, 64 anos, trabalha no bairro desde
a década de 60 e ainda resiste ao abandono
do local trabalhando sozinho no seu bar |
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- Mas o senhor pensa em deixar o bairro, seu Rildo?
“Claro minha filha. É mudar de ramo, mas
não de rumo na vida. Só que não
vou ser tão feliz. Esse bairro é um dos
mais lindos do Recife. Minha vida foi toda aqui”,
responde. O comerciante não é o único.
A lanchonete As Galerias, que está no bairro
do Recife há 79 anos, com o seu tradicional maltado,
deve deixar a rua. “Esse é um bairro turístico.
Não é residencial. As pessoas não
vão sair de Boa Viagem, Espinheiro, Casa Forte
para vir aqui se não tiver nenhuma atração
a mais”, explica o proprietário Jorge Henrique
Gomes.
De acordo com o comerciante, os donos dos estabelecimentos
tentaram promover atividades culturais. “Era uma
dificuldade. A gente queria conseguir liberação
para colocar um palco na rua e era tudo negado”,
diz. A lanchonete, que chegou a empregar 38 funcionários,
e ficava aberta durante 24 horas, hoje possui apenas
seis. “Todo mundo aqui gerava empregos, gerava
renda, ajudava a movimentar a economia”, completa.
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Gibeon abre seu restaurante todas as noites e
fica fazendo palavras cruzadas por falta de clientes |
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Duas ruas adiante, na Rua da Guia, está Gibeon
Aquino, de 58 anos. São 19h30, mas o restaurante
dele está vazio; para passar o tempo, faz palavra-cruzada
e “joga conversa fora” com dona Rosália,
para quem alugou um quartinho. “Hoje vendi apenas
quatro almoços. Não dá nem pra
sobreviver. É muito difícil”. No
meio da conversa, ele diz que, até agora, “as
coisas só estão melhores lá para
os lados da Rua da Moeda, do Paço Alfândega,
do outro lado do bairro”, conclui. De fato, o
chamado Pólo Alfândega está sendo
revitalizado. A primeira etapa da obra, no trecho entre
as Ruas Madre de Deus e Mariz de Barros foi liberada
no mês de maio. O próximo passo do projeto,
que inclui também as Ruas Madre de Deus, da Alfândega,
Aluísio Periquito, Aluísio Magalhães
e trechos da Vigário Tenório e Alfredo
Lisboa, é a conclusão das obras entre
a Mariz de Barros e a Alfredo Lisboa, que deve acontecer
somente no mês de dezembro.
“Aquele área têm um público
bem específico. E é muito bom que esteja
sendo revitalizada. Mas e essa área daqui?”,
pergunta Gilberto Martins, de 22 anos, que estava numa
lanchonete na Rua da Guia com a namorada Carla Figueroa,
de 23 anos. “Isso aqui só vive outra realidade
na época de carnaval. Aí sim aparecem
incentivos. Porque é isso que falta: políticas
públicas com incentivos para o turismo e a cultura”,
completa o estudante.
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A Rua do Bom Jesus é testemunha do abandono
do bairro |
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Potencial empresarial - Para a Secretaria
de Turismo da Prefeitura do Recife, não há
falta de investimentos. “A área da Rua
do Bom Jesus, especificamente, passa por um fenômeno
natural de mercado, chamado "ciclo de vida do produto",
que fez alguns empresários da área de
entretenimento e gastronomia fecharem seus empreendimentos.
Ao mesmo tempo que os bares da área fecharam,
centenas foram abertos por todo o Recife. Tanto que
a cidade é o primeiro pólo gastronômico
do Nordeste pela quantidade de estabelecimentos e variedade
da cozinha.”, diz a nota enviada ao Pernambuco.com
pela assessoria de imprensa da Secretaria.
O texto diz ainda: “A passada efervescência
do Bairro do Recife, que priorizou a transformação
do local em pólo de bares e restaurantes, não
se sustentou nos moldes de sua implantação.
Nenhuma revitalização de área histórica
se sustenta baseada apenas em entretenimento. É
indispensável estimular o uso misto, com comércio,
habitação, lazer e serviços”.
Segundo o comerciante Jorge Gomes, o potencial empresarial
do bairro, que abriga diversos empreendimentos, inclusive
na área de tecnologia, não impede investimentos
na área cultural. “Temos eventos esporádicos,
algumas iniciativas isoladas, como a Feirinha que acontece
aos domingos, mas isso não é suficiente
”, rebate Jorge Henrique.
Para Dona Rosália, o tempo não volta atrás.
“Acho que não terei mais chance de ver
esse bairro como era antigamente”, diz. “Mas
minhas lembranças estão guardadas. Às
vezes um pouco embaralhadas, mais ainda aqui comigo”.
Comentários dos leitores
"Sou paulista, mas pelo menos uma vez ao ano visito
esta maravilha que é Recife!!! Por favor, não
deixem acabar.", Ricardo Marques, por e-mail
"Isto é um absurdo, esse bairro da Bohemia à noite é um
encanto e deveríamos deixar as manchas do passado
de lado e restaurá-lo para fazer um Bairro Gastronômico
toda noite. Obrigada!!!!!!", Danielle Assis, por e-mail