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F otos: Alexandre Gondim/DP
Personagens do Recife assistem ao fim da boemia no bairro

Por Pollyanna Diniz
Do Pernambuco.com

Rosália era uma morena bonita. Chamava atenção quando entrava no salão: vestido longo e acinturado, luvas. “Eu só não usava salto alto porque não aprendi a andar de jeito nenhum”, revela a senhora que hoje tem 67 anos e muitas histórias para contar de um tempo em que o Recife Antigo era ponto de chegada para marinheiros que atracavam os navios no Porto do Recife e vinham em busca de diversão e, principalmente, de mulheres. E encontravam. Elas estavam nos bordéis e pensões das ruas estreitas do bairro. “Fui dona de sete bordéis. Mas naquela época o Recife Antigo era outro. As mulheres eram lindas. Hoje elas sumiram. E sem o porto aqui, os marinheiros também foram embora. Mas eles tinham muito dinheiro”, relembra Maria Rosália Simeão de Oliveira.


Rosália Simeão vivenciou a época em que o local era entretenimento para os marinheiros que chegavam ao porto
Alguns anos mais tarde, já na década de 90, a revitalização da Rua do Bom Jesus modificou o caráter do bairro do Recife. Restaurantes, bares e boates atraíam turistas de vários países; e os pernambucanos sabiam que aquele era lugar de lazer e cultura garantidos. Quem vivenciou as várias “fases” pelas quais passou o bairro, se entristece ao observar a Rua do Bom Jesus numa noite de quinta-feira. “Você precisava ver essa rua lotada. A gente passava com dificuldade. Estou nesse bairro desde a década de 60. Nunca pensei que fosse chegar até esse estado de abandono. É triste, minha filha”, conta o garçom da lanchonete As Galerias, Albérico José de Santana, de 63 anos, olhando para a rua vazia.

Naquela noite, apenas a lanchonete em que trabalha seu Albérico e o bar do comerciante Rildo Dias, de 64 anos, ainda sobreviventes à crise que provocou o fechamento dos outros estabelecimentos, estavam funcionando na Rua do Bom Jesus. Por trás do balcão onde são servidas as bebidas, o senhor baixo, de cabelos grisalhos, óculos e fala mansa dá explicações sobre o que teria acontecido com o bairro. “É questão política. Falta vontade, falta interesse. O público que vinha aqui queria se divertir, gostava de novidade. Mas, de repente, tudo acabou. A gente fazia muito “negócio” aqui”, diz Rildo, que já empregou seis funcionários e hoje trabalha sozinho. “Não tem como pagar ninguém. Quem vai trabalhar sem receber? Eu vendia comidas. Hoje só vendo bebidas, porque não tenho cozinheira”, fala o comerciante.


Rildo Dias, 64 anos, trabalha no bairro desde a década de 60 e ainda resiste ao abandono do local trabalhando sozinho no seu bar
- Mas o senhor pensa em deixar o bairro, seu Rildo? “Claro minha filha. É mudar de ramo, mas não de rumo na vida. Só que não vou ser tão feliz. Esse bairro é um dos mais lindos do Recife. Minha vida foi toda aqui”, responde. O comerciante não é o único. A lanchonete As Galerias, que está no bairro do Recife há 79 anos, com o seu tradicional maltado, deve deixar a rua. “Esse é um bairro turístico. Não é residencial. As pessoas não vão sair de Boa Viagem, Espinheiro, Casa Forte para vir aqui se não tiver nenhuma atração a mais”, explica o proprietário Jorge Henrique Gomes.

De acordo com o comerciante, os donos dos estabelecimentos tentaram promover atividades culturais. “Era uma dificuldade. A gente queria conseguir liberação para colocar um palco na rua e era tudo negado”, diz. A lanchonete, que chegou a empregar 38 funcionários, e ficava aberta durante 24 horas, hoje possui apenas seis. “Todo mundo aqui gerava empregos, gerava renda, ajudava a movimentar a economia”, completa.


Gibeon abre seu restaurante todas as noites e fica fazendo palavras cruzadas por falta de clientes
Duas ruas adiante, na Rua da Guia, está Gibeon Aquino, de 58 anos. São 19h30, mas o restaurante dele está vazio; para passar o tempo, faz palavra-cruzada e “joga conversa fora” com dona Rosália, para quem alugou um quartinho. “Hoje vendi apenas quatro almoços. Não dá nem pra sobreviver. É muito difícil”. No meio da conversa, ele diz que, até agora, “as coisas só estão melhores lá para os lados da Rua da Moeda, do Paço Alfândega, do outro lado do bairro”, conclui. De fato, o chamado Pólo Alfândega está sendo revitalizado. A primeira etapa da obra, no trecho entre as Ruas Madre de Deus e Mariz de Barros foi liberada no mês de maio. O próximo passo do projeto, que inclui também as Ruas Madre de Deus, da Alfândega, Aluísio Periquito, Aluísio Magalhães e trechos da Vigário Tenório e Alfredo Lisboa, é a conclusão das obras entre a Mariz de Barros e a Alfredo Lisboa, que deve acontecer somente no mês de dezembro.

“Aquele área têm um público bem específico. E é muito bom que esteja sendo revitalizada. Mas e essa área daqui?”, pergunta Gilberto Martins, de 22 anos, que estava numa lanchonete na Rua da Guia com a namorada Carla Figueroa, de 23 anos. “Isso aqui só vive outra realidade na época de carnaval. Aí sim aparecem incentivos. Porque é isso que falta: políticas públicas com incentivos para o turismo e a cultura”, completa o estudante.


A Rua do Bom Jesus é testemunha do abandono do bairro
Potencial empresarial - Para a Secretaria de Turismo da Prefeitura do Recife, não há falta de investimentos. “A área da Rua do Bom Jesus, especificamente, passa por um fenômeno natural de mercado, chamado "ciclo de vida do produto", que fez alguns empresários da área de entretenimento e gastronomia fecharem seus empreendimentos. Ao mesmo tempo que os bares da área fecharam, centenas foram abertos por todo o Recife. Tanto que a cidade é o primeiro pólo gastronômico do Nordeste pela quantidade de estabelecimentos e variedade da cozinha.”, diz a nota enviada ao Pernambuco.com pela assessoria de imprensa da Secretaria.

O texto diz ainda: “A passada efervescência do Bairro do Recife, que priorizou a transformação do local em pólo de bares e restaurantes, não se sustentou nos moldes de sua implantação. Nenhuma revitalização de área histórica se sustenta baseada apenas em entretenimento. É indispensável estimular o uso misto, com comércio, habitação, lazer e serviços”. Segundo o comerciante Jorge Gomes, o potencial empresarial do bairro, que abriga diversos empreendimentos, inclusive na área de tecnologia, não impede investimentos na área cultural. “Temos eventos esporádicos, algumas iniciativas isoladas, como a Feirinha que acontece aos domingos, mas isso não é suficiente ”, rebate Jorge Henrique.

Para Dona Rosália, o tempo não volta atrás. “Acho que não terei mais chance de ver esse bairro como era antigamente”, diz. “Mas minhas lembranças estão guardadas. Às vezes um pouco embaralhadas, mais ainda aqui comigo”.


Comentários dos leitores

"Sou paulista, mas pelo menos uma vez ao ano visito esta maravilha que é Recife!!! Por favor, não deixem acabar.", Ricardo Marques, por e-mail

"Isto é um absurdo, esse bairro da Bohemia à noite é um encanto e deveríamos deixar as manchas do passado de lado e restaurá-lo para fazer um Bairro Gastronômico toda noite. Obrigada!!!!!!", Danielle Assis, por e-mail

   
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