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Sensível sim, frágil nem tanto

Por Elian Balbino
Da Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR


Pense rápido: qual a primeira palavra que lhe vem à cabeça quando se pensa no que é necessário para conseguir a aprovação num concurso público? Determinação. Certamente foi este o seu pensamento. A qualidade, inerente a qualquer concurseiro, é um dos maiores desafios para a maioria das mulheres. Para conseguir a tão sonhada vaga de emprego no serviço público, as homenageadas da semana sabem que o caminho a ser percorrido exige mais renúncia e disciplina. Mas esta não é mais uma daquelas reportagens que levantam a bandeira do feminismo ou que mostram que elas são tão ou até mais capazes que eles. É o relato de mulheres simples, iguais a todas as outras, mas que carregam a certeza que nenhuma dificuldade é tão grande que não possa ser ultrapassada.
Foto: Alcione Ferreira/DP/D. A Press

Um destes exemplos é o da auditora do Tribunal de Contas do estado e professora, Elisabete Moreira. Ela saiu há 16 anos do Rio Grande do Sul para o Recife, por conta da tranferência do marido. Recém-formada, com 26 anos de idade e mãe de dois filhos, não encontrava portas abertas no setor privado. Os salários eram pequenos, a carga horária era grande, as oportunidades eram escassas.

Para tentar resolver a equação que não batia, decidiu estudar para concursos. Era primeiro de abril de 1994, “parece estória de mentiroso”, brinca, mas a força de vontade era verdadeira. Nesta data, Elisabete decidiu se matricular num cursinho preparatório para concursos. A rotina puxada começava às 5h. Começava a estudar logo cedo, até chegar a hora de levar os filhos (com 1 e 7 anos ) para a escola. Na volta, organizava as tarefas domésticas e mergulhava nos livros até as crianças retornarem, tempo suficiente para recebê-los e continuar o estudo até o início da noite, quando ia para a aula, inclusive aos sábados.

Além de todos os afazeres domésticos, ainda tinha que driblar as críticas do marido quanto à idoneidade dos certames. “Ele dizia que era um jogo com cartas marcadas, mas eu não me deixava abater. Aos poucos, ele foi vendo o meu comprometimento com os estudos e foi me apoiando, ficando à frente de tarefas que antes só eram feitas por mim, como fazer a feira, se dedicar ainda mais às crianças. Tudo para me dar mais tempo para estudar”, conta ao relembrar que diariamente estudava cerca de 16 horas por dia e dormia por cerca de quatro, cinco horas. E de onde vinha tanta determinação? “Pensava, quanto mais eu estudar, mais rápido mais passar essa fase. Era o que me fazia acordar cada vez mais cedo e dormir cada vez mais tarde”.

Os frutos, porém, foram logo colhidos. Em um ano, conseguiu a aprovação nos concursos da Susepe, Ipsep e Compesa, este último na terceira colocação. Mas a coroação veio mesmo em 15 de janeiro de 1995, quando prestou provas para o cargo de auditor do TCE. Dois meses depois estava sendo nomeada. “Hoje olho para trás e vejo que tudo valeu à pena. Me sinto realizada profissionalmente, tenho uma vida estável o que possibilita a completa dedicação aos meus filhos. Além disso, dou aulas em cursinhos preparatórios para mostrar a outras pessoas que o segredo da aprovação não é questão de inteligência e sim, de determinação e disciplina”.

Disciplina também foi a palavra de ordem da aposentada Maria Silva, hoje com 61 anos. A vida difícil que levava no comércio quando morava no agreste pernambucano foi o impulso que faltava para tentar a sorte na capital. Chegou ao Recife em 1969. Precisava se manter e aceitou um emprego num hotel do centro da cidade. “Trabalhava como recepcionista, administradora, uma espécie de faz-de-tudo-um-pouco. O salário era muito baixo e mal dava para pagar minhas contas. Tinha 20 anos e prestei vestibular para administração na Unicap”, relembra.

A decisão de se inscrever num concurso veio logo depois que concluiu o curso. “Na época não tinha dinheiro para pagar o diploma e me inscrevi no Dasp, um órgão centralizador que encaminhava os aprovados para órgãos federais que exigissem uma demanda maior de funcionários”. Na época, reservou as férias para exclusivamente estudar. “Foram 30 dias em casa, sem sair para nada. Estudava dez, 12 horas por dia, sem desviar minha atenção. Como não tinha recursos para comprar livros e apostilas, pedia emprestado de amigos e da biblioteca da Católica”. A aprovação veio logo depois.

Em novembro de 76 recebeu seu maior presente : a convocação, e um mês depois o primeiro salário que ainda sabe de cor : Cr$ 5.326. “Valeu cada esforço, noite mal dormida, cada não que falei para o que pudesse me tirar do foco. Depois de 20 anos de trabalho, olhar pra trás e ver que minha força interior superou todas as dificuldades é a maior recompensa, algo que nem a estabilidade financeira de um emprego público pode pagar”, conclui.

Quer ler sobre algum tema específico ? mande um e-mail pra gente (mailto: elianbalbino.pe@dabr.com.br)

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