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CINEMA PERNAMBUCANO

'Rio Doce' investiga famílias a partir do vagar de jovem pai periférico

Publicado em: 11/10/2021 12:10

Okado do Canal vive Tiago em 'Rio Doce', primeiro longa de Fellipe Fernandes (Divulgação/Ponte Produtoras)
Okado do Canal vive Tiago em 'Rio Doce', primeiro longa de Fellipe Fernandes (Divulgação/Ponte Produtoras)
Desde a última quinta-feira, títulos pernambucanos vêm sendo exibidos dentro da plural e mostra Olhar de Cinema de Curitiba, seguindo até a próxima quinta (14). Dentre eles, está o primeiro longa de Fellipe Fernandes, realizador recifense criado em Olinda que já vem construindo um sólido cinema com seus dois curtas, agora estreando Rio Doce na programação do festival. Trata-se de um projeto maturado por Fernandes por meia década até começar a ser produzido de fato, passando por várias mudanças em sua estrutura, mas preservando uma ideia central: investigar a complexidade da ideia “família” a partir do elemento paternidade.

Rio Doce realiza essa investigação a partir do vagar de Tiago (Okado do Canal), um rapaz do bairro olindense que dá nome ao filme, lidando ao mesmo tempo com diversas fontes de angústias: uma dor nas costas, um apartamento sem energia, uma moto quebrada, um antigo relacionamento que parece mal resolvido e a vontade de estar sempre perto da filha. O universo interno do jovem periférico se desestabiliza ainda mais ao descobrir quem é o pai que nunca conheceu, agora falecido, e suas três filhas, moças de classe média que buscam se aproximar do irmão que não sabiam existir. 

“Queria partir da paternidade para falar da família e da sociedade como um todo. A paternidade se ampliou também para a questão da masculinidade e para uma ideia mais complexa de família. As ruínas de uma família tradicional e o que sustenta a existência dela”, afirma Fellipe, em entrevista ao Viver. Tiago então acaba por canalizar esse ensejo vivendo uma dupla perspectiva, como pai que luta contra demônios internos para resolver sua vida e viver bem com sua filha, mas também como filho abandonado (ao menos, parcialmente), encontrando uma família que, de alguma forma, se estrutura em cima do alicerce do abandono. E a presença de Tiago nesse lar é fonte de tensão, potencializada por marcadores de classe e raça, por mais que às vezes apareça uma possibilidade de afeto nesse encontro. (CONTINUA APÓS IMAGEM)
 
 (Divulgação/Ponte Produtoras)
Divulgação/Ponte Produtoras
 

Assim como nos seus dois curtas, O Delírio é a Redenção dos Aflitos e Tempestade, Fernandes retoma em Rio Doce uma encenação dessas angústias conduzidas pelo vagar de seus protagonistas por espaços, em uma busca contínua por um que possa plenamente chamar de seu. É raro ver Tiago parado em algum canto. Ele está sempre se deslocando e colocando esses lugares em embate com uma intensa melancolia interna, dos corredores da grande casa que foi de seu pai às ruas de uma vida noturna olindense.

“No meu processo criativo, minhas histórias sempre partem de dois lugares: as pessoas e os espaços. São personagens e espaços que estão dentro da minha vida, eu cresci em Rio Doce, Jardim Atlântico, venho de uma família proletária bem grande, morando quase toda na periferia de Olinda”, explica o diretor. “Sempre busquei entender como as pessoas que estão distante de um filme de Woody Allen ou da sala de um terapeuta lidam com essas angústias. Angústias existenciais geralmente estão ligadas a personagens da elite, da classe dominante, como se só eles sofressem desse mal. As pessoas de outras classes lidam com isso de diversas outras formas e essas formas me interessam muito, tanto enquanto imagem, como narrativa”, complementa. (CONTINUA APÓS FOTO)
 
 (Divulgação/Ponte Produtoras)
Divulgação/Ponte Produtoras
 
 
Em Rio Doce, a plenitude de se colocar essa angústia na tela é reforçada pelo fascinante trabalho de Okado do Canal, rapper, bboy, comunicador do projeto Favela News e uma das grandes revelações em atuação no cinema pernambucano. Em um filme onde a câmera praticamente não desgruda dele, Okado consegue conduzir o tom, a tensão e a temperatura do filme a partir do relevo de suas expressões faciais, do ritmo de sua fala e de sua presença corporal. Após ver o trabalho dele em Rosário, curta de Juliana Soares e Igor Travassos, Fernandes relata já ter o ator em mente nas etapas finais de criação do roteiro. A partir de um teste que era mais uma conversa, percebeu como o filme se conectava e movia aquele que daria vida ao seu protagonista. 

Em seu processo criativo, Fellipe apenas conclui o roteiro de fato após o elenco ser escolhido, para que cada personagem carregue muito de seus atores, algo que aconteceu plenamente entre Okado e Tiago. “Tem frases que entraram no filme que ele trouxe na primeira improvisação dele. Desde a primeira conversa durante o casting, a gente via como a história batia nele e como ele trazia coisas emocionantes para ela. Ele tem uma presença muito fascinante, que basta a câmera olhar para ele que as coisas acontecem”, relata.

Agora, o ator da Favela do Canal, Zona Norte do Recife, passa a ocupar os subúrbios de Olinda, que já vêm configurando os espaços do cinema de Fellipe. São locações escolhidas a partir de um desejo de anos de transpor as histórias que via na televisão, seu principal canal de formação audiovisual na infância e adolescência, com a realidade que via ao seu redor. “Quando comecei a criar meus projetos de filmes, eles estavam atrelados a esses espaços que eu vivi e conheço, que construíram meu imaginário narrativo. As histórias que eu penso, por enquanto, estão muito ligadas a esses espaços e as pessoas dele”, afirma o diretor. Esse lugar e essas pessoas poderão ser vistas a partir das 6h da próxima quarta (13), no site do festival (https://www.olhardecinema.com.br/).

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