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ARTES VISUAIS

Recifense Gabriel Furmiga expande horizontes em exposição: 'Quero falar, inclusive, sobre o não falar'

Publicado em: 29/09/2021 12:25 | Atualizado em: 29/09/2021 16:05

Gabriel Furmiga (esquerda) e obra voo opaco (direita) (Foto: Divulgação)
Gabriel Furmiga (esquerda) e obra voo opaco (direita) (Foto: Divulgação)

O artista visual recifense Gabriel Furmiga, que inicialmente despertou atenção nas redes sociais por obras que exploram o afrofuturismo, reforça uma expansão dos seus horizontes artísticos com novas temáticas e técnicas na exposição Aprendendo a ler sonhos, em cartaz no Studio Mu, localizado no Poço da Panela, Zona Norte do Recife, até o dia 22 de outubro. O afrofuturismo já trazia imaginários que transcendem o nosso mundo, mas a nova mostra é como um convite à subjetividade que busca quebrar rótulos que circundam artistas negros e/ou LGBTQIA+, como é o caso dele.

Em Aprendendo a ler sonhos, Furmiga vai além das telas, exibindo desenhos em papel, fanzines, gravuras, serigrafias e cianotipias. Nas temáticas, suas investigações agregam elementos da natureza, espaços, movimentos e a relação com um mar antagônico, que representa simultaneamente a violência da colonização e a emancipação que emana do azul. O artista fez a curadoria do projeto, que nasceu de forma independente junto ao espaço para reunir uma linha temporal mais recente do conjunto de sua obra. As peças estão à venda.

A arte sempre foi uma forma de expressão de Gabriel de Souza Silva, morador da Mustardinha, Zona Oeste do Recife, que começou a produzir profissionalmente há seis anos. "Na minha série de desenhos afrofuturista, estava pesquisando sobre essa relação do meu corpo com o movimento afrofuturista. Surgiram algumas questões a partir dessas pesquisas, um certo dilema sobre representação e limitações que o meu trabalho apresentava quando entrava em contato com as pessoas”, explica Furmiga.

"Era como se o que eu estivesse fazendo só fosse lido pela via racial, de sexualidade e de gênero. Eu achava um debate fundamental, mas me limitava a certos tópicos que às vezes eu queria explorar. Eu tinha questões minhas, que eu sentia que precisava explorar mais, a partir de certo lugar que não necessariamente precisaria revelar tudo. Eu não precisaria falar de forma tão explícita no processo."

Cianotipia A3 em papel canson (esquerda) e mídia mista sobre telas (direita) (Foto: Divulgação)
Cianotipia A3 em papel canson (esquerda) e mídia mista sobre telas (direita) (Foto: Divulgação)

A atual exposição começou a ganhar corpo no começo de 2020, após o início da pandemia. "Busquei percorrer por caminhos de fuga, tentando transpor a minha relação com o exterior. Enquanto estava na rua, fui anotando imagens e criei um movimento de entender a minha relação com o espaço, focalizando com conversas internas", diz. "As obras permanecem essenciais nas questões das ancestralidades negras e indígenas, mas também começam a pensar em novos voos, indo muito nessa sugestão de um corpo em constante movimento. Não de forma isolada, mas sim coletiva.”

O desejo de Furmiga em pluralizar os discursos possíveis com sua arte vai ao encontro com toda uma geração que ascendeu nas artes com discursos mais políticos, mas que entendem que não são apenas políticos - e nem devem se basear apenas por movimentos pautados pelas redes e imprensa. A artista transmídia biarritzzz, que figurou como personagem ao lado de Furmiga e do artista visual Mario Bros numa reportagem sobre o afrofuturismo no Diario, em 2019, logo rebateu o conceito em seu primeiro álbum, Eu não sou afrofuturista (2020).

Furmiga, por sua vez, cita a cantora e atriz paulista Linn da Quebrada para falar sobre esses processos de rotulação. "Vez ou outra conversamos pelo Instagram. A gente sempre fala muito desse 'lugar de captura'. Ao mesmo tempo em que a nossa representação na mídia tem sido fundamental para um movimento futuro, para engatar novas narrativas e normalizar certos corpos, existe esse local da captura", explica.

"Existe a nossa necessidade de falar sobre uma ferida colonial ou sobre um orgulho que é muito literal, mas eu prego a ideia de que pessoas racializadas e negras, que estão em locais de marginalidade, se deem o direito de não precisar falar de forma tão transparente. Eu falo de gênero, de sexualidade de e todas essas coisas me atravessam. Mas eu quero falar, inclusive, sobre o não falar. Retratar esse outro entendimento e não entender tudo o que estou fazendo. Isso parte do impulso, do movimento, do desejo de querer riscar a mente. Assim vou entendendo os diferentes movimentos da minha vida", finaliza.
 
SERVIÇO
Exposição Aprendendo a ler sonhos, de Gabriel Furmiga
Onde: Studio Mu (Rua Luiz Guimarães, 361, Poço da Panela)
Visitação: das quartas às sextas, das 12h às 20h, e nos sábados e domingos, das 9h às 20h
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