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DIA NACIONAL DO FREVO

Da tradição à modernidade, Bia Villa-Chan aposta nos instrumentos de corda do frevo

Publicado em: 14/09/2021 11:39 | Atualizado em: 14/09/2021 11:42

Bia Villa-Chan toca bandolim desde os 6 anos e vem fazendo releituras de frevos consagrados com o instrumento (Foto: Verner Brenan/Divulgação)
Bia Villa-Chan toca bandolim desde os 6 anos e vem fazendo releituras de frevos consagrados com o instrumento (Foto: Verner Brenan/Divulgação)

O frevo, que tem o seu Dia Nacional comemorado neste 14 de setembro, nasceu como um ritmo genuinamente instrumental. Embora os instrumentos de sopro sejam mais lembrados pela popularidade dos blocos de rua, as cordas também ocupam um espaço tradicional no gênero por conta dos frevos de bloco, seus blocos líricos e bandas de pau e corda. Também existem as cordas mais "disruptivas": as da guitarra elétrica, instrumento inserido no frevo durante o carnaval de Salvador (BA) por figuras como Armandinho Macêdo e Moraes Moreira. A cantora e multi-instrumentista Bia Villa-Chan tem trabalhado com essas duas facetas das cordas: com o bandolim, presente nos frevos de bloco, e com a autêntica guitarra baiana.

Um exemplo das suas experimentações com o bandolim é a releitura de Lágrimas de Folião (1950), de Levino Ferreira, feita inteiramente com o instrumento. "Lágrimas de Folião é um frevo de rua, com composição pensada para instrumentos de sopro, como o sax, e não para as cordas. Eu o adaptei ao bandolim, que é um instrumento tradicional do frevo de bloco, vertente que tem uma ligação muito grande com o fado português, como uma substituição da guitarra portuguesa. Os frevos de bloco têm um lado mais lírico, romântico e melódico, trazendo ainda flautas transversas e violões", explica Bia.


A influência do bandolim na vida da artista vem de família. Ela é neta de Heitor Villa-Chan, bandolinista e compositor que fundou o antigo bloco Pirilampos de Tejipió. "Ele tocava frevos de bloco e escutava música instrumental de nomes como Jacob do Bandolim, Lupércio Miranda, Levino Ferreira, Capiba, entre outros. O bandolim foi o meu primeiro instrumento. Mais tarde, fui uma das convidadas por Alceu Valença para fundar o Bloco Lírico Carnavalesco Pirata José. Ele também me chamou para tocar bandolim em shows e gravações", diz a instrumentista, que regravou Pirata José em parceria com Alceu.

"As pessoas lembram mais do sopro por conta das orquestras do frevo de rua. Até porque os blocos líricos estão desaparecendo", alerta Bia. "Hoje, são poucos os que estão aí, como os blocos das Flores, da Saudades e das Ilusões, que é uma dissidência do Galo da Madrugada. Algo interessante, além dos bandolins, violões e flautas, é que o frevo de bloco sempre foi cantado por mulheres, o que trouxe uma representatividade importante. Eu acredito que trago essa representatividade para o lado instrumental".

O FREVO COM GUITARRA BAIANA
Se a tradição dos blocos líricos vem se tornando uma resistência em Pernambuco, a presença da guitarra baiana é como um rompimento de barreiras, podendo até ser mal vista em meios mais conservadores do frevo. Nascida em Salvador, a guitarra baiana tem uma antiga relação com o principal ritmo da folia recifense. Assim como o trio elétrico, o instrumento teve a sua gênese através de Dodô e Osmar. Nos primórdios do trio, eles tocavam cavaquinhos em alto falantes de baixa potência que produziam sons distorcidos. O uso da guitarra foi consolidado por Armandinho, filho de Osmar, que conheceu a obra do norte-americano Jimmy Hendrix.

"A guitarra baiana é um instrumento muito versátil. A possibilidade de tocá-la com distorção cria um certo poder", diz Bia, que gravou versões de Lágrimas de Folião, de Levino Ferreira, e Duda no Frevo (1973), de Senô, com o instrumento. “Acredito que a guitarra baiana, quando tocada por uma mulher, tem esse encantamento redobrado. A guitarra ainda é um instrumento muito ligado a um imaginário de masculinidade, então essas interpretações carregam esse empoderamento.”


"Armandinho, neto de pernambucano e precocemente contaminado pelo micróbio do frevo, levou essa guitarra distorcida para o frevo, dando um certo charme. Existia um mito de que o frevo só poderia ser tocado em grandes orquestras. Ele tira o frevo dessa redoma, colocando-o em cima de um trio. Ele torna o frevo pop", continua Villa-Chan, que já colaborou com Armandinho no single Vida Boa e se apresentou no trio do músico no circuito Barra-Ondina.

Bia e Armandinho, inclusive, estão gravando um álbum de frevo juntos. "A gente quer desenvolver um disco com poucas releituras e muitos frevos novos. Pretendemos lançar até janeiro do ano que vem, com o título Daqui pra Frente. Como será o frevo no futuro? Como vai ficar? Queremos fazer essa mistura de influências e identidades, o frevo daqui com o frevo feito lá na Bahia, que, como diria Moraes Moreira, tem um "sotaque baiano'", finaliza.

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