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LITERATURA

Escritor português Gonçalo M. Tavares lança blog em parceria com Fundaj

Publicado em: 11/11/2020 10:18

 (Foto: Joana Caiano/Divulgação)
Foto: Joana Caiano/Divulgação

"2020, ano suspenso, nuvem. Nem cai nem sobe", escreveu, no último capítulo de seu Diário da peste, o escritor português Gonçalo M. Tavares. Desde junho, ele publica no Brasil outro: o Diário visual e gráfico, a convite da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), por meio da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca). Nele, inverte a utilização de planilhas e formas para tencionar verbo, poesia e reflexão. Após uma pausa em setembro, a instituição retomou as publicações nesta semana e lança hoje o blog diariovisualegrafico.fundaj.gov.br. "A feição humanista da prosa de Gonçalo M. Tavares é necessária como uma vacina no tempo um tanto quanto mórbido e incerto como o atual", justifica o diretor da Dimeca, Mario Helio.

Autor de dezenas de livros - dentre eles o premiado romance Jerusalém (Caminho, 2004), que lhe rendeu elogio de José Saramago -, Gonçalo confessa ter deixado a ficção de lado diante de uma realidade que há oito meses imprime novos protocolos às relações humanas. Não por acaso, comportamento e psique são elementos do seu Diário. O Diário da peste, publicado originalmente em Lisboa, já está na Argentina, Grécia e outros países, incluindo tradução para a língua inglesa. O Diário gráfico e visual, por sua vez, deverá resultar em livro no Brasil. No momento, o escritor se dedica a esta produção e à conclusão da novela O osso do meio, prevista para ser publicada neste mês em Portugal, pais que decretou, no último dia 9, o toque de recolher, decisão mais restritiva do governo local desde o início da pandemia.
 
ENTREVISTA - Gonçalo M. Tavares, escritor
 
Como este momento tem influenciado você?
A pandemia é um grande estímulo intelectual. Ou seja, para além da tragédia, é realmente um acontecimento fraturante, que divide o século em dois, e que é um momento sobretudo de grande reflexão. Um momento tão violento, quase uma guerra, que afeta globalmente todos nós. Um momento que nos paralisa. Tentei desde o início pensar a partir da peste. Os comportamentos humanos, o que mudou nas aproximações entre humanos, a questão do medo individual versus a explicação coletiva, questões psicológicas.

O que você repara em meio à pandemia?
Normalmente, não escrevo sobre a realidade. Mas, desta vez, suspendi a ficção. Aliás, não conseguia nem ler ficção quando apareceu a pandemia, em março. Olhei de frente para o que estava a acontecer, para o exterior, e comecei a escrever. Este Diário é também um pouco isso. Claro que é uma mistura de literatura, ficção, mas também da realidade. Nunca tinha escrito sobre o que estava a acontecer. Este é um ingresso numa forma literária, mas também uma forma de reflexão escrita pessoal. Um diário, algo que se pode cobrar quando um dia tomar bastante importância, como é nos dias atuais.

Embora estejam intrinsecamente ligadas à pandemia, suas produções não tratam propriamente da tragédia. O que você pretende?
Publiquei entre março e junho o Diário da peste, quando acompanhei esse primeiro embate da pandemia na Europa. Diariamente, escrevia para o principal jornal online, em Portugal: o semanário Expresso. O que pretendo não tem a ver com um comentário direto à pandemia, mas mostrar como os gráficos podem ser utilizadas de forma criativa. No entanto, ele depende muito das realidades. Apesar de estar falando de milhares de outras coisas, porque o mundo não para. Não deixamos de falar, de pensar outras coisas, de tentar ir à Lua. O mundo continua e, portanto, este diário é feito no momento da pandemia, mas não é exclusivamente sobre ela.

Como surgiu a ideia de adequar observações ao elementos estatísticos e organizacionais?
Foi a primeira vez que comecei a usar os gráficos como potência para a literatura. Isso resultou, realmente, de ver na televisão gráficos e gráficos e gráficos sobre mortos, infectados etc. Percebo que estávamos, de alguma maneira, a colocar o gráfico como se fosse apenas um instrumento da média, da ordem, do normal, da quantidade. Quando uma imagem pode ser virada do avesso e ser tratada de forma criativa e artística. Também uma tentativa de contribuir para uma evolução dos gráficos, ao mostrar essa espécie de revolta por uma utilização meramente quantitativa e objetiva. Tentei utilizá-los de forma mais subjetiva e pessoal.

O Diário visual e gráfico alcançou a marca de 100 capítulos, no Brasil. Em dias nos provoca de forma bem humorada, noutras também cruas, quase pessimistas. Ora os gráficos estão melhor aplicados, noutros momentos você nos faz quebrar a cabeça.
Sim, os gráficos são muito diferentes. As próprias imagens são pequenos inventos. Às vezes pequenas imagens, outras vezes gráficos mais circulares, noutras tabelas, às vezes pequenas setas. Basicamente, não há regra. Sempre com o princípio de uma mistura, por vezes sutil. Parto do princípio que há uma liberdade total e que cada dia tem de ser olhado de uma forma individual pelo leitor. Gosto dessa ideia de por vezes deixar os leitores em suspenso. No sentido de que não fica claro o que é dito. Porque não é para ser didático, é um fazer literário e, portanto, deve provocar reflexões e perplexidades nos leitores. 
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