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TRADIÇÃO

Grande ialorixá de Pernambuco, Mãe Terezinha Bulhões completa 90 anos e ganha documentário

Publicado em: 07/10/2020 08:57 | Atualizado em: 07/10/2020 09:25

Mãe Terezinha Bulhões é uma das ialorixás e juremeiras mais antigas do estado (Foto: Angola Filmes/Divulgação)
Mãe Terezinha Bulhões é uma das ialorixás e juremeiras mais antigas do estado (Foto: Angola Filmes/Divulgação)

Fundada na década de 1940 para abrigar mulheres que até então lavavam roupas em rios e córregos, a Vila das Lavadeiras, em Areias, na Zona Oeste do Recife, segue como espaço de preservação da ancestralidade afroindígena em Pernambuco. É lá que mora Mãe Terezinha Bulhões, uma das ialorixás e juremeiras mais antigas do estado. Neste 7 de outubro de 2020, ela completa 90 anos e sete décadas de luta e dedicação pela tradição do candomblé e da jurema.

A data será marcada com apresentação de maracatu e coco na Praça das Lavadeiras (Rua Palmares, 56, Areias). A partir das 18h, um telão montado no local exibirá pela primeira vez o documentário Mãe Terezinha Bulhões - Um mar de amor no coração do Recife, um média-metragem dirigido e roteirizado por Alexandre L'Omi L'Odò. O filme é uma iniciativa do Quilombo Cultural Malunguinho em parceria com a Angola Filmes e marca a estreia do projeto Mourão Que Não Bambeia, que deseja registrar a memória cultural do povo de terreiro pernambucano.

Mãe Terezinha foi criada na Rua João de Barros, na Boa Vista, no Centro do Recife. Filha de uma mulher que se separou do marido na década de 1930, quando o divórcio era um forte tabu no Brasil, ela foi entregue a um casal de origem muito humilde. Criada por um relojoeiro e uma lavadeira, ia ao Rio Beberibe para acompanhar a mãe no árduo ofício. Católica, frequentava a Basílica do Sagrado Coração de Jesus quando, aos 20 e poucos anos, começou a sentir muito frio, mesmo vivendo sob as altas temperaturas do Recife.

"Foi uma mulher chamada Adalgisa que me indicou a ida a um terreiro em Água Fria", explica Mãe Terezinha, sentada em uma cadeira de balanço com vista para a Praça das Lavadeiras. "Eu resisti no começo, mas fui. ‘Terezinha, você não tem doença’, me disseram. Mas como? Eu precisava fazer uma iniciação no candomblé, pois se tratava de uma doença espiritual. ‘Você precisa se preparar’, também disseram. Por que? Descobri que era filha de Iemanjá, Xangô e Oxum", continua a anciã, que é casada com Hilton da Silva Bulhões.

Registro da Vila das Lavadeiras no começo da década de 1940 (Foto: Arquivo da Revista da Cidade)
Registro da Vila das Lavadeiras no começo da década de 1940 (Foto: Arquivo da Revista da Cidade)

Mais tarde, Tereza ingressou no Sítio de Pai Adão, o terreiro de candomblé nagô mais antigo de Pernambuco (fundado em 1932), onde se tornou filha de Zé Romão e Mãe Lídia Alves da Silva. “Eu agradeço muito a Deus e a Iemanjá por hoje estar bem. Eu passei muita necessidade quando jovem", diz. Ela se mudou para a Vila das Lavadeiras no começo da década de 1950. "Uma irmã de criação morava aqui, lavava e passava para Agamenon Magalhães (ex-governador), que fundou a Vila. Ele era uma criatura ótima, entrava nas nossas casas, conversava, tomava café e não tinha mistério", relembra Bulhões.

Foi na Zona Oeste do Recife, em Jardim São Paulo, que Mãe Terezinha fundou o terreiro Ilê Axé Iyemojá Sessú, onde consolidou a sua trajetória de grande ialorixá e recebeu centenas de filhos. O espaço migrou para uma casa próxima da Praça das Lavadeiras por conta da dificuldade de deslocamento diário da anciã. Nele, o braço direito de Terezinha é o Pai Paulinho da Luz.

No âmbito da jurema, quem perpetua o legado de Bulhões é Pai Vado de Pau Ferro. Os dois aparecem nos depoimentos do documentário. Quem também marca presença é Dona Nenzinha, amiga de infância de Terezinha e a principal responsável pelo Acorda Povo de Areias, um dos mais tradicionais do estado e do qual Terezinha é a juíza - quem hasteia a bandeira em todo o São João.

RESISTÊNCIA
Mãe Terezinha Bulhões e Alexandre L'Omi L'Odò, diretor do documentário (Foto: Angola Filmes/Divulgação)
Mãe Terezinha Bulhões e Alexandre L'Omi L'Odò, diretor do documentário (Foto: Angola Filmes/Divulgação)

Diretor do documentário, Alexandre L’Omi L’Odò explica que o projeto nasceu de uma percepção que muitos ícones das religiões afroindígenas não possuem registros audiovisuais. “Essa é uma história de resistência das ialorixás, a força da mulher nas religiões. Existe uma longa história do povo de terreiro a ser contada”, afirma. “Nós do terreiro somos atacados e apedrejados, mas contribuímos efetivamente com a sociedade, pois somos casas de amparo social. As pessoas necessitadas recebem auxílios espirituais, psicológicos e materiais. É no terreiro que elas recebem acolhimento, que vivem quando não têm nada.”

Para o L’Omi L’Odò, Terezinha representa justamente esse papel da figura acolhedora. “São mais de 70 anos de história de uma pessoa que abriu mão de sua vida para cuidar da vida de centenas. Que veio de uma condição pobre, miserável mas alimentou muita gente. Os 90 anos de Mãe Terezinha Bulhões e o filme são presentes para o povo do terreiro, para que consigamos nos ampliar enquanto classe. Por fim, também é um depoimento contra o racismo, pois é a história de quem superou o racismo estrutural da sociedade.”

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