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LONGA-METRAGEM

Estrelada por atriz pernambucana, comédia sobre adolescente trans estreia após colecionar prêmios em festivais

Publicado em: 10/09/2020 21:57 | Atualizado em: 10/09/2020 22:20

A protagonista do filme, Anne Celestino Mota, é uma atriz trans  (Foto Divulgação/Alice Junior)
A protagonista do filme, Anne Celestino Mota, é uma atriz trans (Foto Divulgação/Alice Junior)

"Alice Júnior" poderia ser só mais uma comédia adolescente nacional, das que Larissa Manoela costuma estrelar, por exemplo. Marcando a estreia da atriz pernambucana Anne Celestino Mota, o longa tem estética jovem, com intervenções animadas nas cenas e fala sobre o primeiro beijo. Mas sua trajetória por festivais nacionais e internacionais mostra que há algo de diferente sobre o filme.

Um verdadeiro abraço na diversidade, algo raro na maioria dos filmes que miram o público infantojuvenil, "Alice Júnior" tem como protagonista uma menina trans, que é obrigada a se mudar de Recife para uma cidadezinha no sul do Brasil por causa do emprego do pai. Lá, ela precisa se adaptar à vida em uma escola religiosa, povoada por alunos preconceituosos, enquanto produz conteúdo para um canal no YouTube e tenta dar o seu primeiro beijo.

Dirigido por Gil Baroni, o longa encontrou sua Alice após uma série de testes. Originalmente, a produção queria uma atriz de Curitiba, mas acabou se deparando com a recifense Anne Celestino Mota, que também é trans, e fez diversos ajustes à sua história para receber a jovem.

A decisão parece ter sido acertada: Mota foi elogiada pelo trabalho nas mostras por onde o filme passou e venceu, no ano passado, o Candango de melhor atriz no Festival de Brasília, se tornando a primeira atriz trans a levar o prêmio. "A gente está tendo uma trajetória por festivais bem grande, que eu nem esperava. Nós fomos ao Festival de Berlim, mas já passamos por vários outros", diz Mota. "E eu acho que 'Alice Júnior' tem que ser visto por todo mundo, não só pelos brasileiros, porque ele mostra para as pessoas trans que nossos corpos e nossas experiências devem ser naturalizados."

Além de Berlim e de Brasília –onde também levou os troféus de atriz coadjuvante, montagem e trilha sonora–, "Alice Júnior" passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pelo Festival do Rio e pelo Mix Brasil –nos dois últimos, também saiu carregando troféus.

Para Mota, a boa recepção do longa nesses eventos mostra que o filme não fica restrito ao público jovem, e que deve ser visto por gente de todas as idades devido à temática importante que aborda.

"É uma história muito atual e que trata uma causa séria, que precisa ser falada, ainda mais no país que mais mata pessoas trans. Mas o filme aborda essa questão de maneira delicada, educativa, trazendo outros personagens do mundo LGBT e falando do cotidiano de uma adolescente" diz.

"É um filme para todo mundo, bem Sessão da Tarde", brinca. "É claro que tem questões específicas do universo trans nele, mas há muitas outras questões universais, pelas quais todo jovem passa, como o bullying, os amigos, as festas."

Na trama, Alice Júnior tem um pai que lida muito bem com a transexualidade da filha, a defendendo em diversas situações. É uma trajetória que Mota diz ser parecida com a sua própria, mas que ela sabe, infelizmente, não refletir a maiorias das experiências de garotas trans Brasil afora.

"Eu e a Alice temos diversas coisas em comum, mas somos diferentes ao mesmo tempo. A Alice teve aceitação familiar, eu também tive; ela é youtuber, eu também sou; ela frequentou o ensino médio sendo trans, eu também. Eu sempre tive uma aceitação familiar, algo que foi até bem rápido, então comparativamente foi algo fácil para mim. Ainda bem, mas essa infelizmente não é a realidade da maioria das pessoas trans."

Ela espera, agora, que com "Alice Júnior" possa mostrar a importância da luta trans a diversas pessoas. Até porque, diz ela, muito do roteiro foi mudado para incorporar a sua própria história de vida.

"É um filme necessário, justamente por ser para toda a família. Eu já vi casos de pessoas com mentes mais, digamos, atrasadas ou fechadas, que assistiram e passaram a ter um outro tipo de olhar perante a vida de uma pessoa trans", afirma. "Há familiares do próprio elenco que votaram no Bolsonaro, por exemplo, e quando assistiram gostaram muito da história, falaram bem. A gente vive em um Brasil altamente transfóbico, então é legal ter esse feedback positivo, afinal, o filme fala sobre amor."

ALICE JÚNIOR

Onde: estreia nesta sexta (11) nas plataformas Vivo Play, Oi Play, Google Play, iTunes, Now, Youtube Play e Looke

Elenco: Anne Celestino Mota, Emmanuel Rosset e Surya Amitrano

Produção: Brasil, 2019 Direção: Gil Baroni

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