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LITERATURA

'É preciso ler Gilberto Freyre acima das ideologias', diz autor de livro sobre o sociólogo

Publicado em: 15/09/2020 15:24

 (Foto: Malu Didier/Fundaj e Cepe/Divulgação)
Foto: Malu Didier/Fundaj e Cepe/Divulgação

Gilberto Freyre é uma figura controversa. Apesar de ter incomodado um segmento conservador da sociedade brasileira na primeira metade do século 20 por exaltar a mestiçagem, o sociólogo criou uma ferida na sua relação com o espectro da esquerda ao apoiar ferrenhamente o golpe militar de 1964. Com a ascensão das redes sociais, as críticas sobre Freyre ganharam uma nova projeção para novas gerações que estão buscando a politização. Gostando ou não do autor, a verdade é que Freyre continua sendo lembrado e incitando debates. O livro O Brasil de Gilberto Freyre: Uma introdução à leitura de sua obra, do jornalista, escritor e antropólogo Mario Helio foi relançado naúltima semana pela Companhia Editora de Pernambuco com uma forma de celebrar os 120 anos do sociólogo.

A publicação tem a tarefa de oferecer uma visão ampla - mas não superficial - de Freyre e de sua bibliografia. A primeira versão foi originada de um longo ensaio publicado no Jornal da Tarde, de São Paulo, lançado pela editora Comunigraf como livro na comemoração do centenário, em 2000. Agora, a obra ganha uma reedição com breves revisões, ilustrações do artista José Cláudio e prefácio de Kathrin Rosenfield, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"Não fizemos grandes alterações porque o livro continua válido", explica Mario Helio. "O objetivo é que novas gerações se interessem por Gilberto Freyre, visto que nova geração tem um perfil similar com a anterior." O autor não acredita que exista uma "demanda" por novas edições de obras sobre Freyre num sentido comercial. "O que existe é uma necessidade, pois Freyre vai além da sociologia e passa por áreas que são fundamentais para compreender a sociedade brasileira e sua identidade. Há uma necessidade constante."

Sobre as críticas constantes que são feitas ao sociólogo, a exemplo da pregação de uma inexistente "democracia racial" em Casa grande e senzala (1933), Mario Helio comenta que existe uma visão artificial sobre a sua obra. "Esse é um debate muito antigo, e as redes sociais criaram uma caixa de ressonância muito maior. Freyre, na verdade, usou pouco o termo de democracia racial, ele falava mais de democracia étnica, porém o primeiro termo se tornou maior alvo de artigos. Em Ordem e progresso (1957), que é uma obra muito pouco lida, ele reforça que existe o preconceito racial. Costumam dizer que ele negava o preconceito, mas ele não nega", diz o escritor.

"O que concordo nessas críticas é a romantização da relação entre senhor com o escravo no sentido doméstico. Mas isso precisa ser bem explicado, pois não é generalizado. Ele não amenizou a escravidão. Ele falou das torturas, e na época foi o estudioso que mais apontou as deformações sociais causadas pela escravidão. Se observarmos as relações das pessoas que têm empregados domésticos hoje, ainda podemos ver uma relação aparentemente adocicada, que vêm das relações da escravidão, do senhor e do servo que se acomodam mutuamente. Mas eu não vejo como se ele colocasse isso como algo positivo, e sim algo mais complexo que o 'bem e o mal'", continua Mario.

Também comenta-se, em relação à romantização, que Freyre possuía uma visão saudosista de um passado escravista (ele nasceu doze anos depois da abolição, o que o fez viver em um Brasil profundamente desigual). Mário Hélio cita que, na verdade, o sociólogo trabalhava com um conceito de tempo tríbio, que em resumo tentava agregar presente, passado e futuro - tendo em vista que seus livros continuam atuais.

"É importante o relançamento de um livros introdutórios para que as pessoas de fato conheçam e não repitam as mesmas coisas. Freyre é um autor muito complexo, pois o Brasil é um país complexo. Ele tem leitores fervorosos, tanto a favor quanto contra. É preciso entender que essa não é uma questão de estar certo ou errado. É preciso ler Gilberto Freyre acima das ideologias. E essa obra é um convite à leitura."

SERVIÇO
O Brasil de Gilberto Freyre: Uma introdução à leitura de sua obra (Cepe, 244 páginas)
Valor: R$ 12 (e-book) e R$ 40 (impresso, que só será lançado com o retorno das gráficas da Cepe, paralisadas pela pandemia)
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