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MÚSICA

Banda recifense Rua do Absurdo investiga nosso tempo de catástrofes em novo disco

Publicado em: 05/08/2020 14:20 | Atualizado em: 05/08/2020 14:21

O terceiro disco da banda está disponível no Bandcamp. (Foto: Marcos Araújo/Divulgação)
O terceiro disco da banda está disponível no Bandcamp. (Foto: Marcos Araújo/Divulgação)
 
Como a intensificação dos desastres ambientais, sentidos nas primeiras duas décadas do século 21, irá impactar a arte? Ainda sem respostas fechadas, no disco Queda, a banda recifense Rua do Absurdo lança uma investigação estética sobre o nosso tempo de catástrofes. O terceiro álbum do grupo é resultado de um processo criativo de seis anos, que pensa os possíveis gestos artísticos diante do agravamento ecológico como resultado das ações humanas. O trabalho está disponível na plataforma Bandcamp, onde o público pode ouvir gratuitamente ou comprar o disco, que terá parte do valor revertido para as iniciativas Amazônia Contra a Covid-19 e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Com um processo de criação mais extenso, o disco sai seis anos após Limbo. "Em nenhum disco a gente parte de um pressuposto, as coisas vão se encaminhando. Só na pandemia, nesse momento mais maluco de todos, que tivemos essa reclusão forçada e contraditoriamente conseguimos nos conectar", explica o contrabaixista Yuri Pimentel. Rua do Absurdo foi formada em 2009 e conta ainda com Caio Lima (voz), Hugo Medeiros (bateria), Nelson Brederode (cavaco) e Bruno Giorgi (texturas). O trabalho tem participações de Alessandra Leão, Marcelo Campello, Thelmo Cristovam, Pedro Sanchez, Jean Elton e João Marcelo Ferraz.

Queda é um disco que, de sua sonoridade à sua poética, canta as alteridades do mundo atual. Em uma atmosfera densa, vacilante e em um contínuo desmoronar de subgraves, drones, delays e outros ruídos, somos apresentados a alegorias sonoras, representações dessas imagens antropogênicas. "Nestes seis anos todo mundo começou a ser provocado por essa realidade degradante. É uma década de provocação desse neoliberalismo, que está indo com unhas e dentes, aumentando a desigualdade e causando mais violências", pontua Yuri. Paira o sentido não só de uma perda na dimensão ecológica, mas também política, como as quedas de democracias e a força de uma necropolítica.

Já o vocalista, Caio Lima, enxerga uma dimensão de finitude que estende precarizações apresentadas no trabalho anterior da banda. "No disco Limbo, já existia uma dimensão trágica. Isso surge pela percepção de que a nossa subjetividade não dá conta do que está acontecendo. A catástrofe tanto vale para perda material do mundo, mas também para a catástrofe da subjetividade, do cancelamento desse futuro. Queda é uma forma de responder a isso, não para esgotar o tema, mas se colocar com esse problema e criar com esse problema", avalia Caio Lima. O vocalista também explica que é uma preocupação do disco deslocar o humano do centro da poética para tentar pensar uma diversidade de existências.

"O fim do mundo para esse disco não é a catástrofe única, mas considerar que esse paradigma precisa ser criticado para pensar a multiplicidade do real. O fim do mundo é esse esgotamento da subjetividade antropocêntrica", continua. O disco trabalha isso em uma leitura materialista, que redimensiona uma relação entre um voz humana, os objetos e grunhidos animais, por exemplo. A partir dessa crítica, o grupo encontrou no pensamento o pensamento ameríndio de Aílton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami inspiração para incursão.

Dentro do álbum, o ruído é esse agenciamento de conflitos: um acúmulo de vozes denso e uma sonoridade marcada por desestabilizações. "A sonoridade envolve dois aspectos, a polirritmia e o noise, e outro termo que descobrimos no processo, que é heterofonia. Nela, a gente compõe não a partir de uma linha principal, não tem um protagonismo de uma voz. São linhas mais independentes", comenta Yuri. Essa pluralidade e liberdade de movimentação das vozes fazem parte do cerne da banda, desde o disco Do Absurdo (2009), pensando na possibilidade de um minimalismo da repetição de padrões e variados instrumentos em métricas diferentes.

Essa pluralidade se sente também no aspecto multilinguístico da banda. O grupo sempre participou de trilhas sonoras de filmes e espetáculos de dança. Para o novo trabalho, foi elaborada uma série de teasers nas redes sociais do grupo, produzidos por Raphael Malta Clasen, Flora Pimentel e a Cia. Etc. Já a capa, existente antes mesmo das músicas, é uma foto do ensaio Derme, do fotógrafo sergipano Flávio Emanuel, uma imersão de 25 dias pelas ruas de Nova York para capturar, no universo da colagem, as imagens para as suas inquietações existenciais.
 
Ouça o disco Queda

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