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ENTREVISTA

'Me assumir lésbica custou a cegueira de um olho e metade da audição', diz Angela Ro Ro

Publicado em: 17/07/2020 10:55 | Atualizado em: 17/07/2020 11:21

Em nova live, Angela promete os sucessos dos 40 anos de carreira. 'São 40 anos de muita doidera, muito escândalo, muita alegria', lembra (Foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Em nova live, Angela promete os sucessos dos 40 anos de carreira. 'São 40 anos de muita doidera, muito escândalo, muita alegria', lembra (Foto: Bob Wolfenson/Divulgação)


"Sou carnaval. Minha alma é suada de carnaval", diz Angela Ro Ro, ao Diario, para se definir diante do desafio de se adequar à impessoalidade das telas de celular nas lives. "Não consigo ser tecnológica. Não sou da geração internet, não sei mexer muito bem. O público dessa vez não está perto carnalmente, não trocamos as gargalhadas, as emoções, o calor. Eu fico tensa, canto, falo, ofereço meu humor e amor. Posso prometer também meu pianinho mediano e minhas músicas que considero bonitas. É uma sensação muito diferente, mas estou muito feliz", admite a cantora e compositora, entre risadas em uma longa conversa por telefone marcada pela característica voz rouca e sotaque carioca que a fez "Ro Ro", anos atrás.

Angela se apresenta nesta sexta-feira (17), às 19h, no Em Casa com Sesc, transmitido no Instagram (@sescaovivo) e Youtube (/sescsp). A programação do festival segue neste fim de semana com shows de Elba Ramalho, acompanhada de Marcos Arcanjo e Rafael Meninão, no sábado, e Leci Brandão, ao lado de Marcus Boldrini, no domingo. A iniciativa acontece desde 19 de abril com apresentações diárias de importantes nomes da música brasileira, diretamente da casa dos artistas.

"A live tem tudo a ver com o início da minha carreira. Continuarei a celebrar os 40 anos desde o meu primeiro disco solo. São 40 anos de muita doidera, muito escândalo, muita alegria", afirma. O primeiro disco, lançado em 1979, exclusivamente com composições próprias e intitulado simplesmente Angela Ro Ro, tornou-se um clássico da MPB.

No repertório desta sexta, marcado pelo encontro da bossa nova com o rock, a cantora promete os clássicos como Amor, meu grande amor e Gota de sangue, além de Só nos resta viver, Fogueira e outros sucessos compostos por ela que ficaram eternizados nas vozes de Maria Bethânia, sua madrinha na música, Cazuza, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Ana Carolina, Barão Vermelho e As Frenéticas.

"Estou sempre Angela Maria. Angela Ro Ro é a artista. Eu vou apresentar um passeio pela minha carreira artística, que também coincide com meu caminho humano, pessoal. Nem tudo na minha obra é autobiográfico, mas é emocional", conta a artista, aos 70 anos. Como ponto positivo dos shows on-line, a cantora cita o fato de mais pessoas conhecerem o trabalho.

"Não sou nenhum Roberto Carlos ou Maria Bethânia. Eu tenho um público médio, porém sensível e emocional. E agora é uma sensação diferente. As lives também contam com um público que se arrisca também. É agregador né? Não precisa sair de casa, não precisa pagar…", ressalta. Mas confessa: "Eu nem vejo como fico na tela. Só olho para câmera e canto, não consigo ficar fazendo pose. Se me olhar, vou ficar preocupada com a careca e tenho que prestar atenção para as coisas que estou fazendo."



DIFICULDADES
Essa é a segunda apresentação virtual da cantora durante a pandemia. A primeira, na semana passada, surgiu depois de um post que fez no dia 19 de junho, no Instagram, relatando não estar recebendo convites para lives. Na ocasião, a artista também fez um relato comovente e bastante compartilhado: "Estou passando dificuldade financeira. Quem puder depositar apenas R$ 10, agradeço! Saúde a todos", escreveu, junto com os dados bancários.

A mensagem, segundo Ro Ro, foi publicada com franqueza. "Sem shows, estou vivendo com minhas economias. Tinha salário de dois funcionários que cuidam da casa, que estão cumprindo o isolamento em suas casas, para pagar. Então fiz o post sem drama, sem cara de choro ou desespero. Quero trabalhar, não viver de doações", frisa. Sem revelar o valor arrecadado, Angela diz que a situação revelou o poder da internet. "A internet tem humanidade, a tecnologia é humana. As pessoas vieram com muito carinho, me desejaram as melhores coisas. Compartilharam uma vibração maravilhosa, e é isso que quero passar nos meus shows virtuais, como uma retribuição", explica. Após a entrevista, Angela voltou a publicar o pedido nas redes sociais: 

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AINDA ESTOU PRECISANDO DA AJUDA DE VOCÊS...MEUS QUERIDOS! A TODOS!

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Através da sanfona de brinquedo que ganhou dos pais, das viagens nas boleias pelo Nordeste brasileiro e da experiência de trabalho em Londres, Angela foi construindo sua trajetória musical desde a infância. "Mamãe tinha talento para cantar, mas era muito pobre e foi deixada no orfanato, sem poder praticar. Aos 5 anos, ela me deu uma sanfoninha. Toquei acordeon até os oito, quando ganhei do patrão do meu pai um piano. Eu pertenço à música desde o início", fala, enquanto pede licença para higienizar os produtos que chegaram do serviço de entrega. Angela fala de si usando o termo "sagiotária", num trocadilho com sagitário. "Me identifico plenamente com meu signo, sou otimista, franca, palhaça, amiga e brinco que sou otária."

Isolada desde 18 de fevereiro, sozinha na casa que morou na infância com os pais, em Saquarema, no Rio de Janeiro, Ro Ro diz estar aproveitando a quarentena. "Tenho um jardim com uma mangueira e um cajueiro velhos que insistem em dar frutos, meu tecladinho que me dá uma alegria muito grande", comenta. "Só estou preocupada com essas pessoas que não levam a sério. Não é uma gripezinha. Se isolem a despeito de qualquer decreto governamental. O que vão querer a médio prazo, cadáveres?", questiona.

ENTREVISTA
Angela Ro Ro, cantora e compositora

 (Foto: Alexandre Moreira/Divulgação)
Foto: Alexandre Moreira/Divulgação


Ainda nos seus tempos de hippie, no fim dos anos 1960, você viajou pelo interior nordestino de carona, cantarolando blues e rock pelas estradas. Qual foi a repercussão da experiência na sua musicalidade?
Fui da Bahia, terra do meu pai, até a ponta do Agreste pernambucano andando a pé e na boleia dos caminhões. Éramos seis amigos e nos dividíamos em duplas para conseguir caronas. Nesse tempo, aprendi a me comportar como um forasteiro, posso dizer assim. Aprendi a chegar em um lugar e respeitar, a saber pedir com educação. Foi meu vestibular pro mundo, motivo de muito orgulho, me emociono só de falar.

Levei a experiência para dentro da minha alma musical. Um ano depois, estava em Londres. Se não tivesse passado por essa experiência, não saberia como seria lá. Na Europa, por mais branca e dona de um olho verde que eu seja, eu sou brasileira, que eles veem como cidadão inferior. Não fui maltratada, mas vim do terceiro mundo, somos latinoamericanos.

Na década de 1970, no auge do regime militar brasileiro, você se mudou para Londres. Lá, atuou como faxineira em hospital, garçonete e lavou de pratos em restaurantes. Como foi esse período?
Deixei o Brasil durante o período duro da ditadura, mas não foi necessariamente por conta disso, eu não era conhecida na época, também não era militante, ainda estava terminando o colegial, embora fosse consciente da situação que enfrentávamos. Em casa, eu vivia estudando acordeon e piano, não fui criada para ser dona de casa, então Londres foi um momento de muito trabalho, acordava muito cedo e passava o dia ocupada.

Quando podia, me apresentava em pubs, alguns lugares que não pagavam, mas recolhia as moedas que davam. Um dia, cansada das moedas, soltei uma gracinha com meu inglês carioca e disse 'estou cansada de ouvir o tilintar das moedas, quero ouvir os farfalhar das cédulas'. As pessoas acharam graça. No geral, foi uma experiência muito boa, eu tive uma chance maravilhosa. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, Gal Costa estavam todos por lá. Tive até a oportunidade de tocar a gaitinha de blues no disco Transa, de Caetano.

Muitos desses artistas que estavam exilados em Londres, na década de 1970, se queixam das dificuldades de fazer música atualmente no Brasil. Para você, há alguma semelhança da ditadura militar com o Brasil democrático de hoje?
Hoje infelizmente eu vejo o Brasil nas mãos de hackers e milicianos, que são criminosos. Estava mais fácil na época da ditadura do que agora. A ditadura foi instaurada em 1964 com um golpe, eu assisti tudo da Baía de Guanabara, ainda menina. Mas eu fico mais triste com a situação atual. Eu não votei nesse sistema. Não votaria em nada parecido com violência, deboche, armamento e com o total descaso com a vida humana que vemos agora em plena pandemia. Foi eleito, não foi ditadura. A democracia que vivemos hoje é pior que a ditadura declarada de anos atrás.

Lésbica assumida, você carrega algumas marcas na pele sofridas por atos de homofobia. Como enxerga a nova geração e o crescente movimento em prol da liberdade de gênero e sexualidade?
Me assumir lésbica me custou a cegueira de um olho e meio e metade da audição. Fui espancada quatro vezes pela Polícia Militar e uma pela Polícia Civil. Sofri agressões físicas em 1981, 1983, dois episódios em 1984 e em 1990 por soco inglês, barras de ferro e cacetete. Era ditadura, mas acho que não tem ligação direta. Você não vê quantas crianças são mortas hoje em dia por bala perdida no Rio? Na época, também sofri muitos ataques homofóbicos de outras formas e cheguei a ser estuprada. Me orgulho de ter sido pioneira, fui a primeira artista a se dizer lésbica no Brasil.

Sem dúvidas alguma, sou a lésbica diamante. Sou a que deu a sua própria vida, visão e audição em prol da liberdade sexual, contra qualquer tipo de preconceito. Fiz e sofri tudo isso somente vivendo e sendo eu. Claro que a surdez atrapalha um pouco a execução do meu ofício, mas convivo muito bem com as sequelas, que se tornaram deficiências. Não tropeço na rua, não dependo de ajudantes. E acho ótimo ver os jovens hoje em dia se sentindo cada vez mais livres para serem o que são, conquistando seus direitos. Abri os caminhos. Eles (homofóbicos) batem, matam, mas quando a coisa tem que ser libertária acaba sendo, sem dúvidas alguma.
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