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Livro da Cepe revela história de espião cearense morto nas vésperas do golpe militar

Publicado em: 23/07/2020 15:34

Capa de Um Espião Silenciado (Foto: Cepe/Divulgação)
Capa de Um Espião Silenciado (Foto: Cepe/Divulgação)

A escassez de informações sobre minúcias do regime militar no Brasil deixou alguns pontos sem nós em episódios da historiografia nacional, tornando o período um arcabouço de fatos que merecem ser revelados. No livro Um espião silenciado (Cepe Editora), o historiador carioca Raphael Alberti, que atualmente mora em Caruaru, revela a existência do espião José Nogueira, que atuava simultaneamente como agente secreto para militares e informante para deputados e jornalistas na atmosfera de tensão de 1963, nas vésperas do golpe. Em reportagem, Nogueira chegou a denunciar a existência de uma espécie de Klu Klux Klan brasileira, a Ordem Suprema dos Mantos Negros. Ele morreu ao cair da sacada de seu apartamento no Rio de Janeiro, mas a causa da queda segue um mistério.

Um espião silenciado terá lançamento virtual nesta quinta-feira (23), às 17h30, com um bate-papo entre Raphael Alberti e o editor da Cepe, Diogo Guedes, no canal da editora no YouTube. Por enquanto, o livro está disponível em e-book - a versão física será lançada, mas ainda não há previsão de data. O autor descobriu a existência de José Nogueira enquanto concluía um trabalho de conclusão na UFRJ sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes), acusados de crime eleitoral nas eleições de 1962.

“Eu fiquei fascinado pelo tema e quis ler toda a ata da CPI. Cheguei em um parágrafo específico e notei que existia um furo, pois na biblioteca do Ibad só se falava de corrupção, não menciona nenhum assassinato. Fiquei muito curioso sobre essa história”, conta  Alberti, que é mestre em história, política e bens culturais pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente é professor de história em Caruaru, no Agreste de Pernambuco. “Fiz dessa descoberta a minha dissertação de mestrado. O livro é uma adaptação dessa pesquisa, além de trazer novas informações que coletei com familiares do personagem, que moram em Mundaú, no Ceará.”

José Nogueira foi agente secreto do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e principal informante do deputado Eloy Dutra na CPI do Ibad-Ipes e dos jornalistas Zuenir Carlos Ventura, do Tribuna da Imprensa, e Pedro Müller, do Jornal do Brasil, entre outras funções. No livro, Raphael retoma os acontecimentos de um período entre 2 de março de 1963 até alguns dias após a morte do jornalista, ocorrida em 13 de março do mesmo ano. Em seguida, o autor analisa três possíveis motivos para a queda do espião da sacada de seu apartamento no Rio. Por último, ele faz um apontamento das principais pessoas denunciadas por Nogueira, que poderiam ter ordenado ou até mesmo cometido o crime.

Ao realizar a pesquisa para o mestrado, Raphael enfrentou inúmeros entraves para ter acesso a documentos sobre o caso. “A maior dificuldade foi obter o laudo cadavérico. A polícia do Rio afirmou inicialmente que eu não poderia ter acesso por não ser familiar. No entanto, a pesquisa tinha um interesse científico nacional. Entrei na Justiça e venci nas duas instâncias. A polícia afirmou, então, que só tinha laudos de 1966 em diante. No entanto, eu tinha em mãos o boletim de ocorrência do caso, de 1963. Como isso era possível? No final das contas, eles disseram que não tinham esses laudos de 1963, apenas do ano anterior”, conta Alberti.

O autor também entrou com um mandado de segurança contra a Polícia Civil, em 1º de setembro de 2017, pelo que considerou ter sido abuso de autoridade. “O quão difícil é encontrar documentação de um agente secreto? E de um agente secreto do órgão de inteligência mais reservado em um país onde os torturadores da ditadura civil-militar não foram punidos e todos os presidentes da redemocratização fizeram acordos com militares para ocultação de documentos?”, questiona Raphael, em determinado trecho do livro.

A dificuldade para obtenção de informações também é citada no prefácio, assinado pelo jornalista e escritor Eumano Silva, vencedor do Prêmio Jabuti 2006 por Operação Araguaia: Os arquivos secretos da guerrilha: “Raphael sofreu com a resistência de órgãos civis e militares em liberar documentos de interesse público, apesar da Lei de Acesso à Informação (LAI), de 2012.”
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