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Em Translation, Black Eyed Peas atualiza a 'farofa' com sucesso

Publicado em: 15/07/2020 18:48 | Atualizado em: 15/07/2020 23:24

Taboo, will.i.am e apl.de.ap (Foto: Nabil Elderkin/Divulgação)
Taboo, will.i.am e apl.de.ap (Foto: Nabil Elderkin/Divulgação)


O hino do eurodance The rhythm of the night, eternizado pela brasileira Olga de Souza no grupo italiano Corona, dá as boas-vindas no Translation, oitavo álbum de estúdio do grupo estadunidense Black Eyed Peas. Intercalando esse sample, surge o vocal do colombiano J Balvin, um fenômeno do reggaeton, o flow do vocalista e produtor will.i.am e a voz de um andróide, que emerge como um decreto para dançar. A breve descrição da canção Ritmo (Bad boys for life), permeada de multiculturalismo (justificando o título Tradução), soa justamente como deve ser uma canção dançante do Black Eyed Peas na década de 2010.

O single de êxito nas plataformas de streaming também serve como bússola para entender os rumos do Translation, um projeto de 15 faixas nitidamente idealizado como um propulsor para alçar o grupo, popular na década de 2000, de volta ao topo das paradas musicais dominadas por reggaeton, trap e dance. São esses os gêneros que permeiam o álbum, que ainda conta com parcerias de Maluma, Shakira, Becky G, Nicky Jam e Tyga. Para a produção, will.i.am teve reforço do israelense Johnny Goldstein, o francês DJ Snake e até do brasileiro Papatinho, conhecido pela produção de rap e funk.


O Black Eyed Peas estreou como um trio (will.i.am, apl.de.ap e Taboo) em 1998, com o álbum Behind the Front. O Elephunk (2003), primeiro álbum com Fergie, transformou o grupo em um fenômeno global. Os integrantes masculinos eram responsáveis por rimas rápidas, de apelo popular e muitas vezes satíricas, enquanto a voz feminina era dona de refrões viciantes - e de uma imagética caucasiana que, em análise em retrospecto, impulsionou a popularização do projeto.

A fórmula foi repetida no também exitoso Monkey business (2006), de onde saíram Pump it, Don't lie (com clipe inspirado no Rio de Janeiro) e My humps. Em seguida, a banda centrou fogo na criação de um R&B futurístico e eletrônico em The E.N.D (2009), com singles como Bom bom pow e I got e feeling. Todas essas faixas fizeram um sucesso estrondoso no Brasil, tanto que grupo chegou a realizar uma extensa turnê no país que passou pelo Recife em outubro de 2010, com um show marcante no Jockey Club.

Black Eyed Peas, ainda com Fergie, durante show no Jockey Club, no Recife (Foto: Cecilia de Sa Pereira/DP/D.A Press)
Black Eyed Peas, ainda com Fergie, durante show no Jockey Club, no Recife (Foto: Cecilia de Sa Pereira/DP/D.A Press)


Em 2016, Fergie decidiu saiu do projeto para investir em sua carreira solo. Enquanto will.i.am também lançava álbuns solos e atuava como produtor para diversos artistas, o rumo do "BEP" soava cada vez mais incerto e o grupo acabou ganhando um aspecto nostálgico. Encerrando o hiato, eles decidiram retornar com a formação original em Maters of the sun vol. 1 (2018), um álbum político e que marcou um retorno ao boom bap.
 
A baixa repercussão comercial acabou resultando no fim do contratro com a Interscorpe e um recomeço na Epic Records, onde o Translation vai tomar forma. A cantora J. Rey Soul, embora não creditada oficialmente como quarto membro oficial, assumiu o vocal feminino. Na mesma linha de Ritmo (Bad boys for life), o álbum segue com faixa Feel the beat, parceria com Maluma que conta com um viciante sample de Can you feel the beat, de Lisa Lisa & Cult Jam, sucesso dos anos 1980. Mamacita, com Ozuna and J. Rey Soul, revista o hit La isla bonita de Madonna. Vida loca, com Nicky Jam e Tyga, relembra U can't touch this, de MC Hammer, e faz citação ao hino latino de Ricky Martin.



Um dos principais destaques é Girl like me, parceria com Shakira. A voz da colombiana aparece sob um efeito que relembra suas canções de 2009 (She wolf), reforçando o teor nostálgico do álbum. Em uma live realizada para divulgar o Translation, will.i.am admitiu que teve que ser mais flexível para lidar com a cantora, conhecida pelo metodismo no processo de produção. “Eu produzo, eu escrevo, eu chego com ideias então você tem que ir devagar. [...] Essa foi a primeira vez que colaborei com tanta gente, essa quantidade de vocalistas, eu tinha que ser flexível”, disse o cantor.
 
Um outro ápice é Tonta love, em que J Rey Soul nitidamente encara um desafio de interpretar uma canção que seria de Fergie. A semelhança na voz e na forma de cantar, inclusive, chega a espantar. Faixas como Celebrate e Tudo bueno também conseguem resgatar uma energia do BEP da segunda metade dos anos 2000. No mananã explora a veia mais eletrônica, com batidas de dance music que parecem ter sido resgatadas das coletâneas Summer eletrohits. eXplosion, faixa com Anitta, não chegou a figurar no repertório, mas a brasileira é citada em Girl like me.
 
A sequência final é descartável, exceto por News today, que encerra o álbum com política e serve como uma resposta às declarações do presidente Donald Trump sobre a pandemia do coronavírus: “Você assistiu as notícias hoje? / Você ouviu o que eles disseram?  Eles dizem que não se preocupe pessoal, é tudo uma farsa / A notícia é falsa e é tudo uma piada / O número de mortos está aumentando com esperanças quebradas”.

Trio em animação, na capa do Translation (Foto: Epic Records/Divulgação)
Trio em animação, na capa do Translation (Foto: Epic Records/Divulgação)
 
Os vários clássicos sampleados, tendo o reggaeton como força motriz, aparecem como fórmulas instantâneas para conquistar o ouvinte na primeira audição. São faixas projetadas com batidas familiares e refrões pegajosos. É o que os fóruns brasileiros de música pop convencionaram a chamar de "farofa", um acompanhamento que irá tornar o prato delicioso, independente de sua qualidade.

Apesar do risco de soar genérico ou até mesmo oportunista, o novo álbum consegue contextualizar o grupo nos moldes do mainstream da nova década, ressaltando um multiculturalismo que sempre existiu no projeto. O BEP, aliás, nunca se importou muito com as críticas -  basta lembrar que My humps foi eleita a pior música do século pelo site NME.
 
Translation não chega a ser comparável aos álbuns do ápice, mas ter o grupo lançando boas músicas dançantes é reconfortante, trazendo lembranças de tempos de maior estabilidade no sentimento coletivo do continente americano. Por essas e outras, o Black Eyed Peas é bem-vindo na música pop.
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