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Memória

Tia Lola incentivou gerações de escritores e jornalistas com suplemento infantil no Diario

Publicado em: 26/06/2020 11:55 | Atualizado em: 26/06/2020 12:04

Tia Lola em janela do antigo prédio do Diario, na Praça da Independência (Foto: Diógenes Montenegro/Acervo DP)
Tia Lola em janela do antigo prédio do Diario, na Praça da Independência (Foto: Diógenes Montenegro/Acervo DP)

Quem foi criança ou pré-adolescente entre as décadas de 1960 e 1990 e consumiu o Diario de Pernambuco com certeza lembra de Tia Lola, persona criada pela escritora Loyde Alves Marques dos Reis para interagir com o público no suplemento infantil Júnior (1967-1993), publicado aos sábados. Loyde foi inicialmente assistente de Fernando Spencer, até assumir a seção em 1977. No caderno, ela auxiliou na formação de novas gerações de leitores, escritores e jornalistas. Recebia cartas diariamente e respondia quase todas com carinhosas sugestões de melhora e estímulos para continuar na jornada das letras. Os destaques eram publicados junto com o editorial Cantinho da Lola, charadas e várias HQs de sucesso.

Loyde Alves faleceu na quarta-feira (24), aos 100 anos, de falência múltipla dos órgãos. O enterro ocorreu na quinta à tarde no cemitério Morada da Paz, em Paulista, apenas para familiares. A escritora passou a maior parte da vida no bairro da Torre, no Recife, e deixou os filhos Marco Antônio, Maria Amélia e Maria Adelaide. Foi casada com o dentista Amaro Marques dos Reis.

Loyde não era uma jornalista de formação. “Sou uma dona de casa. Cuido de tudo durante o dia e, de noitinha, enquanto todos dormem, escrevo minha palestrinha semanal para vocês, com a ajuda de minha Fadinha”, disse, em referência à máquina de escrever. “Tudo o que faço no meu lar é com amor e muita alegria. Não posso ter preferência pelo jornalismo porque não sou jornalista, apenas mantenho para vocês meu cantinho semanal. Enquanto Deus me der saúde e inspiração, estarei com vocês espiritualmente, todas as semanas”, completou, em entrevista em 1968, no aniversário de um ano do Júnior.

A história dos suplementos infantis do Diario é longa. De acordo com texto do jornalista Paulo Goethe, o jornal já tinha conteúdo desse tipo em 1907, com uma seção de crônica infantil de Silvio do Val (provável pseudônimo). Em 1935, com o periódico recém-integrado aos Diários Associados de Assis Chateaubriand, existiu o suplemento Gury, publicado às quartas-feiras, com edição de Luís de Andrade. Foi em novembro 1967 que surgiu o Júnior. No expediente, o jornalista e futuro cineasta Fernando Spencer (1927 - 2014) assinava como diretor, enquanto Loyde Alves era a secretária. Sosthenes de Miranda Jr, Clichés e Zuza faziam as ilustrações.

Páginas do Júnior na década de 1990 (Foto: Acervo DP)
Páginas do Júnior na década de 1990 (Foto: Acervo DP)

Talento para descobrir escritores mirins no estado
A escritora interagia com os leitores como se fosse alguém da família. Tinha um tato especial para encontrar talentos mirins, como no caso de Geneton Moraes Neto, futuro jornalista da TV Globo. De acordo com o livro Geneton - Viver de ver o verde mar (Cepe, 2019), de Ana Farache e Paulo Cunha, Lola encontrou o pré-adolescente no próprio bairro da Torre. Ela morava na Avenida Conde de Irajá, bem perto da Rua Dom Manoel da Costa, onde o garoto vivia com os pais e quatro irmãos.

Aos 12 anos, Geneton fez uma publicação escrita a mão sobre partidas de futebol de botão disputadas com a turma. Uma das mães desses amigos, Maria José de Andrade, era professora de português e fez o jornalzinho chegar até Lola. "O jovem colunista Geneton Moraes continua prestando sua colaboração à Titia Lola, batendo na sua minimáquina alguns trabalhinho", diz uma nota de 6 de fevereiro de 1971. Com o tempo, Moraes passou a circular como um garoto prodígio no Diario. Sob influência de Spencer, começou a produzir curtas-metragens no formato Super-8.

Fernando Spencer, o “Tio Joca”, se despediu do Júnior em 26 de março 1977, após dez anos. “Os inúmeros afazeres impõem que o titio passe o comando a uma pessoa cuja dedicação a este jornalzinho é indiscutível. Essa pessoa é a Titia Lola, que durante todos esses anos sempre trabalhou ao meu lado para o sucesso do Júnior. Ela assume, a partir deste número, a direção do jornal mais legal”, escreveu. Loyde promoveu concursos de redação, artes plásticas, entre outros. Parte do legado está no livro Cantinho da Titia Lola - Lembranças que já vão longe (Novoestilo, 2011), com historinhas, recordações, depoimentos, fotos, cartas e capa desenhada por Cavani Rosas.

Capa do livro Cantinho da Tia Lola, de 2011 (Foto: Novoestilo/Divulgação)
Capa do livro Cantinho da Tia Lola, de 2011 (Foto: Novoestilo/Divulgação)

A jornalista e autora de 60 livros infantis Januária Alves, vencedora em duas edições do Prêmio Jabuti (2014 e 2015), foi outro talento descoberto por Lola. "Era 1977, eu tinha 11 anos e morava em Garanhuns quando minha mãe me ajudou a datilografar um texto sobre uma cachorrinha perdida na cidade. A Tia Lola publicou, e eu fiquei muito feliz. Foi algo que marcou a minha vida. Após isso, passei a ser uma espécie de correspondente da cidade, falando do São João, das feiras de livro, do frio, além de histórias, mostrando minha pré-disposição para ficção. Acredito que venci uns três concursos criados por ela", conta a escritora, que mora em São Paulo.

Através da mediação de Lola, Januária teve o privilégio de entrevistar Mauricio de Sousa, criador do império Turma da Mônica, quando tinha 16 anos. "Mauricio tinha um escritório dentro da Folha de S. Paulo e foi lá que nos encontramos. Falei que tinha a ideia de publicar um livro e ele quis dar uma olhada. Meses depois, ele me mandou um prefácio para anexar no envio às editoras. Quando ganhei meu primeiro Jabuti, dediquei o prêmio a ele. Sou muito grata à Tia Lola. Trocamos correspondências até 2005, mas depois fomos perdendo o contato.”

Mauricio de Sousa também tem parte da sua história ligada ao Diario. Na década de 1970, suas obras eram publicadas no Júnior. O cartunista e empresário enviou uma mensagem de homenagem do jornal: "A sempre simpática Tia Lola, editora do suplemento infantil Júnior do jornal Diario de Pernambuco, deixou marcas inesquecíveis em milhares de crianças que acompanharam sua trajetória. Ela foi a responsável por lançar nossas histórias da turminha em Pernambuco. Foram anos lindos de convívio à distância até que, em um dia, pude visitá-la e conhecê-la pessoalmente. E sobre ela, posso dizer que trabalhar com crianças é o maior privilégio que se pode ter na vida. Agora ela vive no coração de todas essas crianças que cresceram e nunca a esqueceram."

 (Foto: Acervo Pessoal)
Foto: Acervo Pessoal

A jornalista Hylda Cavalcanti, que trabalha no Jornal de Brasília, também falou da importância de Lola. “Eu mandava desenhos e cartinhas para ela, deixados no Correio pela minha mãe e pelo meu avô. Quando trabalhei no departamento de comunicação do Metrô do Recife, eu a encontrei uma vez. Ela integrava a comissão julgadora de um concurso de desenhos sobre os trens da CBTU, feitos por alunos da rede pública. A primeira coisa que perguntou quando me viu (era início dos anos 1990) foi: 'Você também foi uma das minhas crianças?'. Eu ri e confirmei. E saí do trabalho, naquele dia, feliz da vida por tê-la conhecido.”

A última edição do Júnior foi publicada em 6 de março de 1993. Por alguma razão, Loyde não escreveu o último editorial, e sim a interina Mary Lúcia Senna. O suplemento voltou repaginado como Diarinho em 2003, embora já aparecesse em algumas edições como coluna do Viver. Foi publicado nas edições de fim de semana o último dia 8 de fevereiro - após a reformulação editorial Rumo aos 200 anos, a ideia é que passe a circular em edições especiais. A última reportagem foi intitulada Batuques que vêm do berço, assinada pelo jornalista que vos escreve. Mesmo que indiretamente, era uma continuação do legado de Tia Lola, que agora fica eternizada na memória de seus leitores e no acervo do Diario.
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