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CINEMA

Destacamento Blood, de Spike Lee, traz a questão racial da guerra do Vietnã

Publicado em: 13/06/2020 14:13 | Atualizado em: 13/06/2020 14:55

 (Foto: Reprodução/Netflix)
Foto: Reprodução/Netflix
 
Enquanto soldados negros lutavam no Vietnã, os Estados Unidos pegavam fogo em meio à luta pelos direitos civis e repressão policial - com diversas questões que perduram até hoje. Mas qual é a cara da guerra? Qual é a cor da pele dos heróis que por gerações marcam o cinema? Spike Lee não necessariamente acredita nestes heróis arquetípicos, mas mostra algumas face e narrativas apagadas dos cânones e da própria cinematografia de guerra no seu novo longa, Destacamento Blood. O filme deveria ter sido lançado nos cinemas, mas por conta da pandemia ganhou um plano B, um lançamento pela Netflix na sexta-feira (12). 
 
O longa segue o grupo de veteranos de guerra negros que lutaram em 1971 no Vietnã. Clarke Peters interpreta Otis, o cara mais tranquilo do grupo que planejou a viagem, Isiah Whitlock Jr. é Melvin, Norm Lewis é Eddie e Delroy Lindo assume o papel de Paul, que é possivelmente o protagonista e tem a melhor atuação do filme. Os quatro retornam para o país, agora já velhos, para a missão de encontrar os restos mortais de um amigo do grupo que faleceu na batalha (Norman, vivido por Chadwick Boseman) e barras de ouro que esconderam mata adentro. O tesouro é também o reencontro com parte da memória que ficou em outro continente, em uma guerra que não era deles. Norman é a corporificação de uma lenda para eles, uma memória romântica, a ponto de o grupo se referir a ele como “nosso Malcolm e nosso Martin”.
 
Ao chegaram no país, há uma festa com telão que exibe o título de abertura de Apocalypse now (1979), clássico de Francis Ford Coppola, mostrando que é um Vietnã de outros tempos. Uma revisitação cinematográfica também, feita através de várias referências. A jornada adentro do país parece ser, também, uma própria jornada de Lee dentro deste território que é paisagem recorrente do gênero de guerra hollywoodiano. Como bem fez durante toda sua carreira - no musical, filme policial, cinebiografia - Lee faz um filme de gênero com todas as suas recorrências, para o bem e para o mal, mas articulando sempre com a sua assinatura e os recortes clássicos do seu trabalho.

Uma dessas tramas é a do dissenso, que nos é apresentado logo no início do filme, quando Paul, um dos veteranos, admite que votou no presidente Donald Trump. “Me fudi a vida toda, agora só quero pensar em mim”, ele diz. O calor da luta pela sobrevivência e do patriotismo sobrevivem, mas se configurando num boné do Make America Great Again. Mas qualquer tentativa do espectador em trazer uma visão maniqueísta ou colocar o personagem em uma gaveta é falha. Tem a cara dos grandes personagens de Lee, já estava lá desde Faça a coisa certa (1989), é uma presença gigante atravessada por muita culpa, raiva e tudo que um ser humano que passou pela história do personagem se permitiria sentir. São temas e tipos de personagens raros no cinema, mas que diretores como Spike Lee conseguem colocar em tela.
 
 (Foto: Reprodução/Netflix)
Foto: Reprodução/Netflix
 
 
O filme tem também seus vislumbres documentais. Imagens de arquivos, filmagens, o rosto de um soldado negro esquecido. Toda a sequência de abertura é documental - assim como o fim de seu último filme, Infiltrado na Klan (2018). Isso diz muito sobre o cerne do longa: a ficcionalização e as disputas pelo mito americano, de uma guerra que tinha negros na linha de frente, de um país construído através do trabalho da escravidão. Muitas vezes esses momentos se alongam, dão uma quebra no ritmo do filme e poderiam ser mais bem administrados. Mas o que parece é que Lee tenta abarcar camadas de contextos históricos reiteradas, de um momento absurdo da história em que soldados negros, cooptados por um governo imperialista, matavam vietnamitas pobres do outro lado do mundo. Infelizmente as questões nacionais norte-americanas aparecem sempre no foco, ao invés das questões coloniais, que parecem mais conciliáveis dentro da narrativa.
 
Na dualidade entre memória e vida, guerra e paz, passado e presente, Spike Lee consegue montar um filme que, com muito talento, passa da comédia ao drama, da ficção ao documental. Dessa guerra que os Estados Unidos perderam e, hoje, vemos um país em colapso social. Um país que, assim como Brasil, tem sua questão racial longe de ser resolvida. Por mais pedagógico que por vezes o filme seja, Destacamento Blood consegue estancar e abrir mais a ferida ao mesmo tempo.

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