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CINEMA

Confusa relação entre realidade e ficção dá a tônica à Partida, de Caco Ciocler

Publicado em: 18/06/2020 09:00 | Atualizado em: 18/06/2020 09:02

No filme, grupo de 12 pessoas embarca em uma viagem de ônibus ao Uruguai com o desejo de conhecer o ex-presidente Pepe Mujica (Foto: Divulgação)
No filme, grupo de 12 pessoas embarca em uma viagem de ônibus ao Uruguai com o desejo de conhecer o ex-presidente Pepe Mujica (Foto: Divulgação)

Com narrativa contínua, diálogos não roteirizados e poucos equipamentos, o documentário Partida, dirigido por Caco Ciocler, embarca em uma viagem de ônibus ao Uruguai feita por um grupo de 12 pessoas com o desejo de conhecer o ex-presidente Pepe Mujica. O filme, que será disponibilizado nesta quinta-feira (18) em plataformas de vídeo sob demanda, explora a sensação de terra arrasada absorvida por muitos após a eleição de 2018 no Brasil, e une os sonhos da atriz Georgette Fadel em ser presidente do país com o de Ciocler em conhecer Mujica. A ambição desaguou em uma jornada de seis dias em busca da cidade rural uruguaia onde vive o político para, juntos, passarem a virada de ano.

Com imagens de apenas duas câmeras e sons captados por dois microfones de lapela, a por vezes confusa relação entre realidade e ficção dá a tônica do longa. Além de Georgette e Caco, o filme conta com Léo Steinbruch, Paula Cesari, Vasco Pimentel, Sarah Lessa, Jefferson dos Reis, Julia Zakia, Beto Amaral, Manoela Rabinovitch, Ivan Drukier Waintrob e Luiza Zakia no elenco.

É no veículo que as irreconciliáveis brigas entre a esquerda e a direita, que polarizaram ainda mais o país em 2018, são recriadas por Georgette e pelo empresário Steinbruch, a partir de suas convicções. Os efeitos dos diálogos brincam com narrativa ficcional e realidade documental. Apesar de o documentário colocar os próprios artistas em cena, sem interpretar personagens e explorando suas posturas individuais, ele é enquadrado pelo diretor como uma ficção.

Polarização entre esquerda e a direita fica evidente nas discussões Georgette e o empresário Steinbruch (Foto: Divulgação)
Polarização entre esquerda e a direita fica evidente nas discussões Georgette e o empresário Steinbruch (Foto: Divulgação)

"Não é um reality show", diz Ciocler, ao Viver. “As cenas são ficcionais porque somos atores. Reforçamos alguns traços para manter a ficção, sabemos o momento de colocar câmera, o que deveria ser dito olhando para elas, mas não existia texto. Todos os diálogos estavam em cima do repertório pessoal de cada um. E posso dizer que conduzi, o tempo todo, a narrativa de forma 'invisível'", completa o diretor, que atua, ao longo do documentário, como um mediador de conflitos.

A utopia que guia a narrativa é resultado de sonhos pessoais de Caco de Georgette. “Um ano antes de Partida, eu estava conversando com um casal de amigos, decidindo onde passar o Réveillon e sugeri essa ideia inusitada de virar o ano ao lado de Mujica. Eu já tinha ouvido falar que ele era uma pessoa reclusa, que vive emuma cidade pequena e aceita encontrar pessoas que chegam para visitá-lo. A minha proposta não foi bem aceita, óbvio, mas de alguma forma a mantive guardada comigo”, explica o diretor.

Nove meses depois, Caco ouviu Georgette dizer, em um ensaio, que estava assustada com o cenário político brasileiro e desejava se candidatar à presidência. “Imediatamente pensei que Georgette seria uma boa parceira para essa viagem. Na ideia inicial, iríamos só eu e ela. Uma câmera e uma atriz contando a história de sua candidatura. Depois, fomos sentindo necessidade de ampliar nossas possibilidades de câmera e som e ampliamos a equipe”, conta.

O diretor Caco Ciocler atua, ao longo do documentário, como um mediador de conflitos. (Foto: Divulgação)
O diretor Caco Ciocler atua, ao longo do documentário, como um mediador de conflitos. (Foto: Divulgação)

“Para gravarmos no Réveillon, sabíamos que as pessoas precisavam passar pelo menos o Natal em casa. Então embarcamos de São Paulo logo em seguida para chegar até Mujica no dia 31. Escolhemos uma das três rotas possíveis do mapa, calculamos as horas, as paradas e reservamos hospedagens”, lembra o ator, sobre o seu segundo documentário da carreira. Uma das paradas da viagem é no acampamento de apoio ao ex- -presidente Lula, então preso em Curitiba, diante da unidade da polícia federal da cidade paranaense.

UTOPIA

"Partida" é a resposta firme dada por Georgette quando perguntada sobre o partido político feminista que deseja numa eventual candidatura ao mais alto cargo do executivo. Para Caco Ciocler, o filme representa um microcosmo da sociedade brasileira naquele momento. “O ônibus representa uma fatia da população brasileira. Tentei trazer ali as divergências presentes na sociedade, por isso coloquei pessoas com posicionamentos tão opostos juntas. Queria ver como isso ia se esgotar. O filme também é sobre utopia, Georgette segue atrás do sonho de encontrar Mujica, o sonho da sociedade ideal. E é lindo. Nos dá esperança e nos impulsiona a ir atrás da luz, independente do quão distante seja, o que importa é o caminho”, reflete.

Segundo o diretor, o período que antecedeu a pro ução do filme foi de angústia e desilusão para a classe artística. “As pessoas próximas a mim estavam todas muito preocupadas, nunca tínhamos visto o Brasil desse jeito. Naquele período, Bolsonaro já falava coisas absurdas e nós temíamos o que poderia vir. Fomos às ruas fazer o ‘vira-voto’, nós acreditávamos que o melhor seria a vitória de Haddad, ao mesmo tempo que não sabíamos o que poderia acontecer se o Haddad ganhasse, as revoltas que poderiam surgir…”, afirma.

Para Caco, atualmente, com o acirramento político e a pandemia do novo coronavírus, há um sentimento misto de esperança e tristeza. “Fazemos parte de uma categoria que vai ser um dos últimos setores da indústria cultural a voltar a trabalhar normalmente. Mas estamos produzindo, criando e escrevendo, com o desejo de recarregar a energia para, quando isso tudo acabar, voltar com uma força inesgotável”, diz. “Durante a pandemia, as pessoas voltaram a ntrar em contato com as suas incertezas, e a arte é o espaço entre as certezas.”



ENTREVISTA - GEORGETTE FADEL

Quanto de Georgette pessoa tem na Georgette personagem?
Essa é a questão mais interessante do filme. Todas as convicções expostas ali são pessoais e verdadeiras. Defendemos o que acreditamos, mas sabemos que, com o microfone no seu peito, é possível criar narrativas mais factíveis. Somos atores, claro, mas todos nós que vivemos em sociedade somos. A gente veste máscaras, nós atuamos todos os dias. É uma leve ficção, sem inventar, mas com cores cinematográficas.

Temeu a exposição?
Acho que se expor é muito importante no momento atual. É um momento de corrigir vícios, é hora de crescer. Seres humanos não podem ser intocáveis. É importante expor fraquezas, erros... Esconder coisas tem nos colocado em uma berlinda muito séria. Em Partida, quisemos criar uma camada que traduza frustrações, levantar poeira e fazer o público pensar, de uma forma que instaure discussões mais complexas e amplas. Eu não podia ser a 'comunista com discurso perfeito', tinha que ter contradições. Sobreviver de arte é também se transformar em produto.

"Esconder coisas tem nos colocado em uma berlinda muito séria", afirma Georgette em entrevista ao Viver (Foto: Divulgação)
"Esconder coisas tem nos colocado em uma berlinda muito séria", afirma Georgette em entrevista ao Viver (Foto: Divulgação)

Ser presidente do Brasil é realmente um desejo seu?
Eu acho possível. Porque enquanto o mundo for dessa maneira, com poderes institucionalizados, estará nas mãos de quem tem sede de poder. É importante batalhar por frestas dentro dessa loucura toda. Acho que nós todos que ainda temos esperança e respeito uns pelo outros, vamos ter que se colocar na roda para iniciar uma transformação. Por que não?

O que te fez viajar ao encontro de Mujica?
Mujica é um símbolo de ser humano que assume as próprias convicções. Foi um convite aventureiro que Caco me fez e ao mesmo tempo um grito. Bolsonaro tinha acabado de assumir o poder e nós dois, desesperançosos e tristes, assistimos ao fascismo aparelhar o Brasil. Encontrar o Mujica depois daquela eleição seria como reavivar as esperanças. Ainda mais ter a oportunidade de documentar isso, é que nos cabe como artista. No veículo, as brigas entreaesquerdaea direita, que polarizaram ainda mais o Brasil em 2018, são recriadas

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