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SÃO JOÃO

Apesar de necessário, cancelamento do São João afeta cadeia produtiva das quadrilhas

Publicado em: 20/06/2020 10:12 | Atualizado em: 20/06/2020 22:09


Figurinos e cenários ficaram por fazer, tecidos previamente comprados se acumularam e ensaios foram impedidos de acontecer.  (Foto: Samuel Calado/DP)
Figurinos e cenários ficaram por fazer, tecidos previamente comprados se acumularam e ensaios foram impedidos de acontecer. (Foto: Samuel Calado/DP)

O ciclo é ininterrupto. Após as apresentações energéticas e milimetricamente ensaiadas ocuparem quadras e salões em Pernambuco ao longo do mês de junho, as quadrilhas juninas rapidamente retornam aos seus galpões e sedes para projetar a edição do ano seguinte. As reuniões com os projetistas de cada grupo acontecem em meados de julho e agosto. É de lá que saem os temas que vão guiar a produção dos figurinos, enredos e coreografias. Os primeiros ensaios já começam em outubro, lotando espaços fechados com a troca de passos e suor. E é no fim de maio que começam as primeiras estreias de um ciclo intenso de apresentações que animam durante mais de um mês as cidades pernambucanas, simbolizando a cultura nordestina. Diante do isolamento social recomendado para evitar o avanço do novo coronavírus no estado, o ciclo precisou ser interrompido.

Figurinos e cenários ficaram por fazer, tecidos previamente comprados se acumularam e ensaios foram impedidos de acontecer. Da senhora que recebia dinheiro por vender lanches na porta das quadras às lojas de aviamentos que vendiam produtos em larga escala, todos foram afetados. Em Pernambuco, são 109 quadrilhas prejudicadas. No início, não se imaginava que a pandemia cancelaria os festejos de São João, mas aqui estamos. Por decreto estadual, neste ano não haverá espetáculos juninos. A situação se torna ainda mais atípica sem a autorização para acender fogueiras e soltar fogos de artifício.

O impacto no ciclo junino acontece em três dimensões: econômica, simbólica e social. "Há uma indústria envolvida na produção. As quadrilhas mobilizam uma cadeia produtiva muito grande no estado, são costureiras, bordadeiras, motoristas, marceneiro, maquiadores, aderecistas, entre outros profissionais que se dedicam ao ciclo junino e este ano não terão essa garantia", explica o antropólogo e pesquisador em cultura junina Hugo Menezes Neto.

O convívio social também foi afetado com a interrupção do ciclo junino. Formadas, em sua maioria, por jovens de periferia, as quadrilhas juninas realizam encontros semanais e se convertem em espaços de convivência e trocas de experiências entre os componentes. "Além do grande espaço de interação social, as juninas têm um papel importante de acolhimento à diversidade, porque há uma forte presença da comunidade LGBT+ nas quadrilhas e, muitas vezes, os grupos se transformam nos únicos espaços de afeto para quem é submetido a uma série de preconceitos", explica Hugo.

Para o pesquisador, a suspensão das atividades das quadrilhas juninas reflete simbolicamente na cultura pernambucana. "A quadrilha é o maior espetáculo público do estado, agregando teatro, dança, encenação e cenografia. É uma possibilidade de ofertar arte para uma comunidade", destaca. As apresentações costumam ocorrer em polos descentralizados no Grande Recife e nos municípios do interior do estado, com acesso gratuito. A festa também traz para a cidade, para o espaço urbano, os arquétipos do interior. "A festa reúne referências do interior do estado, a cultura nordestina, e, a partir dela, faz releituras modernas e adaptadas."

 (Foto: Samuel Calado/DP)
Foto: Samuel Calado/DP


Concurso
Esta será a primeira vez em 35 anos que não haverá o Concurso de Quadrilhas Juninas promovido pela Prefeitura do Recife. O São João do Recife, para compensar, lançou um edital de emergência para contemplar artistas e brincantes com apresentações virtuais, o que permite a inscrição das quadrilhas. Já o Governo do Estado não anunciou ações de incentivo à prática junina neste ano.

"O Governo dá apoio às festividades juninas, mas não havendo garantia de segurança à população para a realização dos eventos, não há como promover uma ação como a do São João. Somado a isso, atendemos recomendação do MPPE para priorizar as despesas governamentais em atividades relacionadas ao combate à pandemia, como ações de saúde, segurança, assistência social. Para completar, Pernambuco e todo o país enfrentam uma série de limitações financeiras impostas pela queda de arrecadação por conta da crise econômica de proporções globais em razão da Covid-19", diz o comunicado enviado à imprensa.

Saídas para amenizar o prejuízo
Para o produtor cultural de Gama Empreendimentos, Roberto Carlos, representante das quadrilhas juninas, o prejuízo das companhias foi enorme. "Tinha quadrilha que já estava com figurino e repertório prontos e de repente precisaram parar os ensaios, interromper a produção. Agora, nem a apresentação poderão fazer. E todo o dinheiro investido foi perdido, muitas pessoas acumularam dívidas que não serão pagas, estouraram limites no cartão, além da perda cultural, que é enorme. A quadrilha faz parte da rotina de cada componente, eles trabalham o ano inteiro para os espetáculos", destaca.

É o caso do diretor de articulação da Origem Nordestina, Eurico Souza, conhecido como Nando, que fez compras de material para os figurinos, acumulou débitos e não terá o ressarcimento nem tão cedo. "Eu já tinha comprado alguns tecidos, quando o estado decretou o isolamento. Tivemos que parar tudo, mas não dava para devolver o que compramos. Agora, estou cheio de conta para pagar. É difícil, mas ser quadrilheiro é paixão", confessa.

As quadrilhas costumam ser autogerenciadas, poucas possuem patrocínios. Os próprios componentes pagam os figurinos e arcam com as inscrições. As juninas realizam bingos e festas para garantir a realização da performance. A Prefeitura do Recife concede anualmente, desde 2018, um aporte de R$ 16 mil para as adultas e R$ 12 mil para as mirins. Mesmo com a crise, a PCR afirma que manterá o pagamento da quantia na tentativa de minimizar os danos.

De acordo com Roberto Carlos, o montante correspondente a 10% do valor necessário para cobrir os gastos de uma quadrilha de grande porte - ou seja, que tenha entre 60 a 80 pares. Segundo o produtor cultural, diante da pandemia, as quadrilhas precisaram abrir mão dos projetos e temas que estavam sendo desenvolvidos para o ciclo junino deste ano e retomarão com a mesma estrutura na edição de 2021, por isso fazem segredo e não revelam detalhes do enredo.

A exceção é a junina Dona Matuta, pentacampeã do Festival de Quadrilhas da Rede Globo Nordeste, que não aproveitará o tema escolhido para 2020 e fará no ano seguinte uma edição comemorativa de 15 anos do grupo. "Aproveitamos que ainda não tínhamos todos os figurinos prontos, então o prejuízo será menor, e vamos começar a desenvolver um novo projeto. Mesmo com os danos provocados pela pandemia, não podemos deixar de comemorar os 15 anos que saímos nas ruas", explica o presidente George Araújo.

 (Foto: Samuel Calado/DP)
Foto: Samuel Calado/DP


Ações virtuais
Para não perder o que já foi feito para 2020, a Dona Matuta tem usado as redes sociais para apresentar, de forma virtual, o que seria o espetáculo deste ano. "É uma oportunidade de apresentar a quadrilha para o público de modo diferente. Estamos divulgando tema, os textos, os figurinos, as coreografias e as músicas, tudo através do YouTube. A experiência tem sido muito boa", destaca.

A Federação de Quadrilhas e Similares do Estado de Pernambuco (Fequajupe), entidade estadual que representa o movimento quadrilheiro, tem buscado saídas para driblar esse período de restrições através de iniciativas digitais e ocupar simbolicamente o espaço para divulgação da cultura junina. Entre as ações desenvolvidas no Instagram da federação (@fequajupe), está o desafio de pares. A ideia é incentivar o público, quadrilheiro ou não, a entrar no ritmo da festividade e produzir vídeos recriando os passos ensinados por coreógrafos de quadrilha. A escolha do casal finalista será por votação popular.


As 21 quadrilhas que pertencem à Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Recife (Liquajur), sendo 13 adultas e oito mirins, também têm buscado adaptar as apresentações para continuar promovendo o São João na cidade, mesmo à distância. "As juninas têm buscado fazer lives nas redes sociais, sempre respeitando o distanciamento social entre os componentes", esclarece a presidente da Liga, Naftaly Renata Martins. Para explorar o formato audiovisual, os grupos precisaram recorrer a equipamentos que permitem a captação da melhor forma.

O desafio foi maior para as quadrilhas menores, uma vez que Tradição, Origem Nordestina, Junina Traque e Lumiar, que estão entre as maiores quadrilhas do Recife, já costumam produzir vídeos de suas atividades. Seguindo a tendência das lives e o leque de possibilidades virtuais que se revelaram na pandemia, será através das telas e com poucos pares interpretando coreografias que assistiremos o espetáculo junino deste ano.

Futuro
Para o pesquisador Hugo Menezes, é inquietante pensar no pós-pandemia. "As quadrilhas exigem confinamento em uma quadra para longos períodos de ensaio. As danças são em pares, o contato é extremo. E os componentes circulam por muitos bairros e municípios para realizar apresentações. Há muita vontade de voltar à ativa, para nós que acompanhamos os espetáculos e principalmente para os quadrilheiros, mas não ainda não sabemos como estará a situação daqui pra frente", afirma.

Os organizadores estão otimistas e entusiasmados para 2021, mas a dificuldade de articular uma brincadeira popular congrega muitos fatores. "Os ensaios costumam acontecer no fim do ano, tenho muito receio se isso será viável. Também me preocupa a economia, as pessoas vão sair empobrecidas desta crise, arcar com figurinos e unir os recursos será ainda mais complicado. Mas eu torço muito que dê certo, eu fico na inquietação entre o pessimismo e o otimismo", desabafa Hugo.

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