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Em isolamento, estúdios caseiros e lo-fi mostram caminhos alternativos na música

Publicado em: 06/04/2020 15:02 | Atualizado em: 06/04/2020 15:04

 (Foto: Kamila Ataíde/Divulgação)
Foto: Kamila Ataíde/Divulgação
O isolamento social se tornou fator de profundas mudanças no dia a dia dos artistas. Shows adiados, distância do público e dos estúdios. Do dia para a noite, tudo parou. Muitos músicos se viram na necessidade de contornar a situação trabalhando de casa. Para outros, no entanto, já são rotina os processos criativos a partir de gravações caseiras e de baixa qualidade - comumente conhecidas como lo-fi (low fidelity, baixa fidelidade em português), que faz oposição a hi-fi (high fidelity, alta fidelidade). Todo um movimento crescente desde os anos 1970 mostra as possibilidades do fazer musical para além dos contratos com os grandes estúdios, com a filosofia “do it yourself” (“faça você mesmo”) e as variedades tecnológicas propiciadas pela internet, que também reconfiguram afetivamente a relação do artista com a sua própria arte.

Nos anos 1970, em meio ao boom das contraculturas, o movimento punk surgiu como uma bandeira existencial para vários artistas. “Punk sempre foi mais do que começar uma banda”, dizia Mike Watt, o baixista de formação da banda Minuteman. “Era sobre começar um selo, entrar em turnê, era sobre ter o controle. Era como compor, você simplesmente vai lá e faz.” A autogestão, gravação e composição trouxeram ideais de liberdade quase que anárquicos para a indústria cultural. No século passado, em uma era analógica, zines feitos em casa, shows produzidos em porões e garagens, k7s virgens para se gravar em cima e distribuir de graça para amigos e conhecidos eram técnicas de subversão dos que apelavam para a dinâmica do “faça você mesmo”.

O espírito niilista somado à falta de esperança no estado e no mercado - dos anos de Margaret Thatcher na Inglaterra - foi a conjuntura fundamental para se repensar o fazer arte. Daí, surgiu o “do it yourself” na música, já incorporado para afazeres domésticos no pós-guerra. Dessa vez, não só como prática produtiva ou jeito de se organizar, mas como filosofia e estilo de vida. A prática se popularizou muito tendo como um de seus pilares um senso de organização coletiva. Esse processo caseiro e lo-fi influenciou muitos artistas desde do norte-americano Daniel Johnston até a banda brasileira Fellini.

Mas vale ressaltar que essa ética só se tornou viável por meio do surgimento de tecnologias como a fita cassete e o PortaStudio, que facilitaram a gravação, reprodução e distribuição de materiais em mídia física. Desta forma, o processo era construído de forma mais orgânica e sob um controle mais forte dos criadores. O CD se popularizou no início dos anos 90, substituindo a fita e o vinil, e junto com ele foram aparecendo os primeiros PCs nos escritórios das casas. Os computadores foram melhorando sua qualidade e assim suas possibilidades de funcionar como home studio. Softwares de edição e gravação cada vez mais sofisticados possibilitaram muitos artistas terem seu estúdio caseiro

 (Foto: Kamila Ataíde/Divulgação)
Foto: Kamila Ataíde/Divulgação
Um dos artistas familiarizados com essas práticas é Zeca Viana. O músico recifense é produtor, mestre em sociologia da música pela UFPE, apresentador do programa Recife lo-fi na Frei Caneca FM e trabalha há mais de 15 anos com produção caseira, que vai desde gambiarras com sintetizadores até discos inteiramente produzidos a partir de programas em computadores. “Hoje em dia, as técnicas de gravações estão muito mais sofisticadas e baratas. Temos virtualizados amplificadores de guitarra, amplificadores de baixo, vários tipos de teclado, piano e sintetizadores. Com a virtualização dos instrumentos de produção da música, ficou muito mais fácil de reproduzir, com a tecnologia midi, com tipos de sonoridades diversas. Chegamos em um nível de produção muito bom, que dá pra trabalhar de casa com muita qualidade, até com equipamentos virtuais de compressores e equalizadores”, explica.

O músico está em fase de criação do seu novo disco, TRËMA. Além da gravação, Zeca faz uma espécie de “diário de bordo”, no qual narra o processo criativo de dentro do seu estúdio caseiro, o Home Studio Recife Lo-fi, que aos poucos foi se elaborando e crescendo dentro de sua casa. Para ele, o total controle da sua relação afetiva com a música e controle de seu direcionamento criativo assumem todo um caráter político. “Acho que dimensão política é extremamente importante, porque você detém os meios de produção. No home studio você tem todos os equipamentos que precisa para produzir o produto final sem nenhum intermédio. É uma dimensão política voltada para autonomia”, completa.

SUSTENTO
Gravar e produzir música direto de casa tem seus efeitos. Mas, assim como ressalta o músico, ainda se faz muito necessário para o sustento de diversos artistas neste momento, além da venda de mídias físicas e produtos, como camisas. “O artista agora em casa está sendo forçado a arrumar saídas, e a ideia do home studio é perfeita para isso. Tem muita gente agora começando a se aproximar da produção, da gravação, da mixagem, porque esse tipo de conhecimento agrega valor ao próprio artista. Eu já venho nesse processo em 15 anos, estudando sobre mixagem e isso impactou meu próprio processo musical”, afirma.

Ainda que não seja a garantia de continuidade ou de sustento para os músicos, lançar esse olhar para práticas tidas como à margem pode deixar um grande legado para os que se aventurarem pelos caminhos tortuosos do lo-fi e da produção caseira: “Depois que isso tudo passar, e vai passar, a gente podia levar como lição para aproveitar melhor esses equipamentos que a gente tem em casa e se jogar nesse processo”, finaliza Zeca Viana.

NO MAINSTREAM
No Recife da década de 1980, até o precursor do manguebeat se rendeu ao lo-fi e à produção caseira: Chico Science e H. D. Mabuse criaram a Bom Tom, uma rádio caseira com equipamentos de baixo custo. Inclusive, a partir dessa empreitada surgiu uma versão de A cidade, gravada de forma caseira, muito antes de a banda explodir com o clássico disco de estreia, Da lama ao caos (1994), no qual a música consta no repertório. A gravação está disponível na internet.

 (Foto: Reprodução/Internet)
Foto: Reprodução/Internet
Não só no underground, mas esse modo de fazer já alcançou o topo das paradas seja nacional ou internacional. Com o disco When we all fall asleep, where do we go?, a cantora norte-americana Billie Eilish, de apenas 18 anos, faturou seis estatuetas no Grammy deste ano, incluindo álbum, canção e gravação do ano (Bad guy), além do prêmio de produtor do ano para Finneas O’Connell, irmão de Eilish, pelo trabalho gravado no quarto onde dorme. O aspecto despretensioso e caseiro é um dos toques responsáveis pela aclamação.

Outro exemplo contemporâneo ocorreu com as pernambucanas MC Loma e As gêmeas. Elas explodiram com Envolvimento, hit do carnaval de 2018, cujo sucesso nasceu de um clipe extremamente caseiro e com uma canção baseada em beats de bancos gratuitos da internet.

BEDROOM POP
A onda de produções caseiras é tão grande que, de uns anos para cá, surgiram gêneros e tags musicais baseadas nesse modo de fazer, como o bedroom pop, que se sustenta em músicas feitas especialmente a partir de produções íntimas e caseiras
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