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CINEMA

Sequência de O Iluminado, Doutor Sono busca equilíbrio entre adaptação e continuação

Publicado em: 07/11/2019 13:33

 (Ewan mcgregor interpreta danny torrance na árdua missão de Mike Flanagan em %u201Csuceder%u201D Stanley Kubrick. Foto: Warner Bros./Divulgação.)
Ewan mcgregor interpreta danny torrance na árdua missão de Mike Flanagan em %u201Csuceder%u201D Stanley Kubrick. Foto: Warner Bros./Divulgação.
Com o desafio duplo de adaptar Stephen King e, ao mesmo tempo, criar uma sequência espiritual para O iluminado (1980), de Stanley Kubrick, o longa Doutor Sono estreia hoje nos cinemas. É com um trabalho dessa magnitude que Mike Flanagan, diretor de filmes como Hush: A morte ouve (2016) e Ouija: Origem do mal (2016), teve que lidar. Em Doutor Sono, vemos o jovem Danny Torrance já como adulto problemático (interpretado por Ewan McGregor), ainda tendo que lidar com os traumas do que viveu com seu pai e sua mãe no Hotel Overlook.

Baseado no livro homônimo de 2013, o filme não se parece em nada com O iluminado. Nem em densidade, tensão ou na personalidade misteriosa. Mas seria no mínimo injusto esperar uma emulação do modelo e dos gestos cinematográficos de um diretor incomparável como Stanley. Nesse sentido, distanciar-se do fazer cinema proposto no filme de 1980 é um acerto da sequência, que aposta em um equilíbrio entre terror e aventura, focado em contar aquela história, não dando sobrevida às dúvidas postas como faz o primeiro filme. Apesar de não chegar perto de qualquer impacto visual e sensorial do seu precursor, o filme prefere não arriscar e se mantém dentro de uma coerência narrativa e limpidez. Mesmo se distanciando em forma, o filme soa como uma sequência, que expande com outros interesses o universo das “iluminações” e assombrações do clássico.

Na sequência, somos apresentados a um grupo de pessoas que, assim como Danny, são dotadas de “iluminações”. O núcleo de vilões liderados por Rose Cartola (Rebecca Ferguson), que buscam coletar o “vapor” através do sofrimento e dor de outros com essas capacidades, é marcado por tons oitentistas e não é capaz de gerar medo na trama, mas consegue encenar uma perseguição pautada nos acenos sobrenaturais, muito típicos da obra de Stephen King. A relação do grupo com Danny traz muito mais tons de thriller ao longa, do que exatamente terror, o que em alguns momentos pesa nas 2h31 de duração do filme, cheias de idas e vindas das perseguições.

O garoto que antes vagava pelos corredores do hotel em seu triciclo, agora tem que sobreviver aos reencontros com memória e antigas assombrações, junto de uma jovem dotada de poderes chamada Abra (Kyliegh Curran). Justamente por trocar o núcleo e o drama familiar pelo culto e uma certa universalização do assombro, o filme perde a grande força “do horror da vida privada”, como bem fez O iluminado e como também bem fez Hereditário (2018) e A bruxa (2015), dois dos melhores filmes de terror da década. Nesse movimento de sair do micro para o macro, algumas coisas são perdidas, ao mesmo tempo que o filme evita alcançar o que foi feito por Kubrick, optando ir por outro lugar em sua forma de fazer cinema e em sua trama.

Como parte de uma exploração do universo proposto por King, o longa faz homenagens, mas se propõe a construir outras relações com a trama e os personagens. Por fim, de volta ao Hotel Overlook, Danny é “tensionado” a reencontrar os antigos corredores, elevadores e o bar, por onde suas antigas visões um dia o marcaram. É como se, dentro de Doutor Sono, o clássico que o antecede fosse seu próprio fantasma final. Ao estilo narrativo de King, as relações entre os medos, traumas de infância, as memórias e sua força nas nossas relações pessoais são, mais uma vez, as verdadeiras maldições que insistem em se perpetuar e nos conectam como humanos.
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