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Notícia de Divirta-se

ARTE

"Ciência não é o único conhecimento válido", diz Boaventura de Sousa Santos

Publicado em: 03/11/2019 16:40

Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press
Como sociólogo, o professor português Boaventura de Sousa Santos afirma que “fala palavras sem música”. Logo ele que, cidadão do mundo, inclusive cidadão honorário de Brasília, discorre sobre questões históricas e contemporâneas do mundo com a riqueza teórica dos clássicos fadistas e com a inconformidade da denúncia social exposta nas canções de rap. Tudo isso vestido com uma camisa estampada por cores e formas geométricas que resgatam a cultura africana.

Em Brasília, para participar de conferências e aulas na Universidade de Brasília (UnB) e também para lançar as mais recentes publicações — O fim do império cognitivo e Esquerdas do mundo, uni-vos! — Santos recebeu o Correio para uma entrevista num hotel à beira do Lago Paranoá. O sociólogo comenta que a paisagem lhe faz pensar, por alguns minutos, que está diante do paraíso, quando na verdade, avalia que o Brasil corre risco de entrar em colapso. Crítico do neoliberalismo, Santos comenta sobre o papel da esquerda, a importância do conhecimento da periferia, da arte e a relação com Brasília.

PONTO A PONTO / Boaventura de Souza Santos

Ensino universitário
Em meu livro O fim do império cognitivo destaco que o conhecimento que a gente produz e ensina nas nossas universidades é um conhecimento que não nos permite identificar verdadeiramente os males e o mal-estar de grande parte da população do mundo. A ideia que eu tenho é de que há algo de errado com esse modelo do conhecimento que, desde o século 17, é pautado no conhecimento dos vencedores da história. Os vencidos nunca aparecem, nunca são parte da história, ficam invisibilizados. E isso tem consequências extraordinárias para a sociedade. Durante muito tempo, por exemplo, o triunfalismo da ciência moderna deixou de lado os conhecimentos indígenas, os conhecimentos da ecologia, da natureza. Parece que esses conhecimentos não têm importância alguma, são irrelevantes, não se devem levar em conta.

Precisamos levá-los em consideração e, para isso, é preciso uma ruptura epistemológica. É pensarmos que a ciência não é o único conhecimento válido, há muitos conhecimentos que devem interagir. Esses conhecimentos vêm, muitas vezes, das lutas sociais, das periferias, das populações quilombolas, ribeirinhas indígenas. É uma forma de descolonizar o próprio conhecimento.

Neoliberalismo
Portugal tem o único governo de esquerda da Europa e estamos bem com ele. É um governo moderado, pragmático, que baixou o desemprego, a taxa de criminalidade, o nível de vida melhorou, ele reabilitou os serviços públicos e está fazendo tudo ao contrário da receita do neoliberalismo, que foi aplicada no Chile, na Argentina e sabemos o que está acontecendo; que vai ser aplicada no Brasil e, provavelmente, saberemos o que vai acontecer. De modo que os portugueses resolveram mostrar que o neoliberalismo é uma mentira, é apenas um grande instrumento de transferência da riqueza dos pobres e das classes médias para os ricos. Ele não facilita a economia, não diminui o desemprego e, portanto, o que eu tenho para mostrar é que a democracia liberal, que nós conhecemos e que precisamos muito, tem uma grande limitação: é que não sabe se defender dos antidemocráticos.

Novos conceitos
É preciso confiar nas forças de esquerda, mas, para isso, elas têm que deixar de ser sectárias, deixar de ser dogmáticas, deixar de estar fechadas, cada uma no seu gueto, e tem que saber falar com as periferias. Quem fala com as periferias hoje não são os movimentos dos partidos de esquerda.

Ligação com o rap
É uma história muito bonita que começou com o então reitor da Universidade de Brasília (UnB), José Geraldo de Sousa Junior. O Conselho Universitário decidiu me outorgar o grau de doutor honoris causa. Quando se outorga um grau, normalmente, há uma peça de música clássica. Mas, como ele sabia que eu gosto muito de rap, ele entendeu que era melhor convidar o Gog e ele fez a parte musical da cerimônia. O Gog é um homem extraordinário com uma grande capacidade científica, técnica. A gente precisa de vários conhecimentos. Para ir à Lua, por exemplo, eu preciso do conhecimento científico, mas para conhecer a biodiversidade das plantas da Amazônia, eu preciso do conhecimento indígena. Então, para conhecer as quebradas, aquilo que eu chamo da linha abissal da invisibilidade, da exclusão, da sub-humanidade a que são sujeitos, eu preciso das vozes que conhecem bem, das vozes e da literatura que saem das quebradas.

Periferia
Nós criamos um preconceito de que na periferia é tudo bandido. Ao fazer meu doutorado na favela, aprendi sobre trabalhos comunitários extraordinários, aprendi de sabedoria de vida, quais são as injustiças do país, o que era a ditadura, qual era a brutalidade policial. Então, eu aprendi muito da minha sabedoria de vida com eles. Se nós olharmos bem para o conceito de natureza dos povos indígenas, temos o problema ecológico do Brasil resolvido. E o país está em uma situação apocalíptica, que me afeta muito, com desastres brutais que mostram o descontrole ecológico total: Brumadinho, os incêndios na Amazônia e agora a poluição de óleo no Nordeste.


Arte como mudança
Em um mundo desprovido de alternativas, a arte é a grande alternativa, ou uma das grandes alternativas. Por que me dedico ao rap? O rap faz o protesto social. O discurso no Congresso não tem a força de convencimento, de inconformidade. As artes, para mim, não estão na indústria do entretenimento, mas em artistas que não vendem a alma e continuam a trazer imagens desestabilizadoras... Dizem mais do que eu posso dizer. Esses artistas são grandes instrumentos de esperança.

Brasília
Minha ideia de Brasília vem muito do Nicolas Behr. Embora tenha uma admiração extraordinária por Oscar Niemeyer e pelo urbanista Lucio Costa, sei que venho de um país que tem 10 milhões de habitantes e 500 quilômetros de norte a sul, é tudo muito comprimido. Aqui, fico assustado com o espaço, é preciso muita gente para aquela Esplanada dos Ministérios poder ter alma. Por outro lado, quem construiu Brasília está a 40km de distância (os moradores da periferia descendentes dos candangos). Essa segregação foi para criar realmente uma divisão entre os que são humanos e os que são sub-humanos e está aqui retratada nesta cidade. Portanto, por um lado, sou um fascinado pela arquitetura da cidade, por outro, ela tem essa ideia de segregação numa lógica do poder. Uma cidade que funciona de terça a quinta de um jeito e, depois, funciona com outra lógica. Acho que foi um grande trabalho de Juscelino. Criamos uma cidade monumental, extraordinária, tenho uma grande admiração pelo projeto. Como sociólogo, percebo que o poder deve estar mais próximo do povo, aqui ele se distanciou. Há muitas mazelas, ao mesmo tempo, há muita beleza.

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