Música Documentário aborda histórico da estigmatização do corpo feminino no Brasil

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 09/09/2019 12:43 Atualizado em: 09/09/2019 13:21

Roberta Rodrigues e Renato Góes contracenando em cena ficcional. Foto: Kino Filmes/Divulgação
Roberta Rodrigues e Renato Góes contracenando em cena ficcional. Foto: Kino Filmes/Divulgação
A ascensão do movimento feminista na metade da década de 2010 colocou o debate sobre a estigmatização do corpo da mulher em evidência na esfera pública. Tornou-se um tema tão explorado que um projeto audiovisual sobre o assunto, ainda mais um documentário, poderia correr riscos de se tornar repetitivo. A cineasta carioca Theresa Jessouroun surpreende ao abordar a temática no documentário ficcional O corpo é nosso!, que consegue ser provocativo, interessante e didático. O longa-metragem estreou no circuito oficial na última quinta-feira (5), após vencer na categoria Melhor Edição de Som do Cine PE 2019. Também foi exibido na Mostra Competitiva do Festival Internacional Porto Femme, em Portugal, e do Durban Int’l Film Festival, na África do Sul.

O filme acompanha um jornalista, interpretado pelo ator pernambucano Renato Góes, designado a fazer uma reportagem sobre o feminismo - mesmo sendo homem. Ao mergulhar na pesquisa, acaba indo parar em um tradicional baile funk carioca. Lá, reencontra uma ex-amante que trabalhou como empregada na sua casa e, de quebra, descobre que a engravidou na juventude. O episódio se torna um acréscimo emocional em sua apuração jornalística, fazendo-o mergulhar no universo com mais sensibilidade.

Foto: Kino Filmes/Divulgação
Foto: Kino Filmes/Divulgação
É durante a apuração que ele acompanha a própria Theresa Jessouroun em entrevistas para um documentário. O longa aposta em um tom bastante didático, mas também traz debates interessantes até mesmo para quem é antenado nas pautas identitárias contemporâneas, sobretudo em torno da importância da cultura de massa. O leque de entrevistados agrega artistas, ativistas e especialistas em música, moda, história, sociologia e antropologia, enquanto o enredo ficcional adiciona alívios interessantes nesse conteúdo informacional.

Misturar cenas ficcionais com documentais já é a marca de Jessouroun. É um recurso usado no longa-metragem À queima roupa (2015) e no curta Clarita (2007), ambos para mostrar cenas que ilustravam a memória das narrativas. Neste, ela monta um exercício de metalinguagem: como este documentário poderia fazer um homem refletir sobre seu próprio comportamento e de sua família, plenos de preconceito de classe e raça?


Entrevista - Theresa Jessouroun, cineasta
Theresa Jessouroun ganhando premio no CINE PE, em 2019. Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação
Theresa Jessouroun ganhando premio no CINE PE, em 2019. Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação


Como surgiu a ideia para fazer O corpo é nosso!?
Surgiu da minha curiosidade sobre a diferença da liberação do corpo da mulher no Brasil e no resto do mundo. Morei dois anos na Espanha, viajei pela Europa e pude ver de perto como a postura da mulher brasileira é muito diferente, mas assumida com seus corpos e com a sensualidade. As brasileiras foram, e são até hoje, estigmatizadas no mundo como mulheres liberadas, fáceis e sexualizadas. Optei então por mostrar como tinha sido a trajetória da liberação do corpo da mulher branca, e da negra, totalmente diferentes, a partir do século 19.

A temática feminista tem sido bastante abordada na atualidade. Não teve medo de cair no clichê?
Ótimo você me dizer isso, pois minha maior preocupação era fugir das abordagens atuais sobre a mulher, necessárias, mas repetitivas, e tentar mostr ar um viés ainda não abordado. Resolvi pesquisar como as mulheres brancas, todas cobertas com roupas europeias, donas de casa, enfrentaram preconceitos da sociedade e passaram a exibir seus corpos e dançar sensualmente. E as mulheres negras, por sua vez, escravizadas, assediadas pelos senhores de escravos, primeiras a ocuparem as ruas como quituteiras, vendedoras, trabalhadoras das indústrias ou até prostitutas, tem uma trajetória tão diferente, expuseram mais livremente seus corpos, são hoje ainda as maiores vítimas da violência masculina.

Por que convidou o Renato?
Foi o Ernesto Piccolo, diretor de teatro, que fez o casting e a preparação do elenco que sugeriu. Trabalhamos juntos nos outros dois filmes que mencionei. Ele já tinha trabalhado com o Renato. Quando fomos ensaiar, nos surpreendemos, pois ele havia incorporado o personagem tão perfeitamente que nem precisamos alterar nada. Neco diz que personagens têm donos. Só podia ser o Renato mesmo, um excelente ator.

Como tem sentido o impacto do público?
Nas poucas exibições que tivemos até agora, a resposta do público tem me surpreendido bastante. Fizemos debates e mulheres me dizem que aprenderam com o filme questões que elas nunca haviam pensado, ou se questionaram e refletiram sobre padrões incutidos nelas. E o que me deixou muito feliz, tanto no festival do Recife, quanto na exibição para o Clube dos Professores no Espaço Itaú no Rio de Janeiro, foram mulheres negras me dizerem que se sentiram representadas no filme.

A Ancine tem sido alvo de comentários alarmantes por parte das autoridades. Seu filme tem um cunho social que poderia ser alvo de críticas caso esse caminho seja realmente seguido. O que tem a dizer sobre a conjuntura?
Estamos vivendo uma conjuntura tenebrosa, que está fazendo o Brasil regredir em todos os aspectos, perdendo todas as suas conquistas, por atitudes de um presidente desinformado, retrógrado, preconceituoso. Todas as conquistas do cinema brasileiro, que hoje apresenta os resultados de anos de construção, estão sendo ameaçadas de serem derrubadas irresponsavelmente, pondo em risco a vida de milhares de profissionais que, em todas as áreas, trabalham duro para fazer filmes, séries, documentários.


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