Antiguidade Coleção sacra de Zé Santeiro, com 3 mil raridades, ainda não encontrou museu em Pernambuco

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 28/09/2019 11:35 Atualizado em: 29/09/2019 12:12

Zé Santeiro com escultura de Nossa Senhora da Conceição do século 18. Foto: Bruna Costa/DP
Zé Santeiro com escultura de Nossa Senhora da Conceição do século 18. Foto: Bruna Costa/DP

Os transeuntes do bairro das Graças que veem a fachada simples da residência de José dos Santos, o Zé Santeiro, não conseguem ter noção da dimensão interna da construção. Tão ínfima é a compreensão de que aquela casa guarda um verdadeiro tesouro do patrimônio histórico e artístico de Pernambuco. São mais de três mil peças que datam dos séculos 17, 18 e 19, agregando santos, oratórios e uma infinidade de objetos sacros, além de ferramentas da produção açucareira pré-industrial, móveis, cristais e pratarias dos engenhos. Reunido durante 60 anos pelo “marchand” de antiguidades, o conjunto revela as raízes culturais, sociais e econômicas do estado.

Um dos maiores antiquários de arte sacra do país, José dos Santos completou 90 anos em julho sem ter encontrado um futuro sólido para o conjunto. Ele luta pela criação de um museu há duas décadas. No mês passado, viajou a São Paulo para recuperar algumas peças que se arrependeu da venda. Também conversou com outros antiquários sobre o destino da coleção. “Já recebi propostas de pessoas de fora, mas são apenas conversas”, revela o proprietário, quando recebeu o Diario em sua residência.

Coleção agrega santos, santas, oratórios e uma infinidade de objetos sacros. Foto: Bruna Costa/DP
Coleção agrega santos, santas, oratórios e uma infinidade de objetos sacros. Foto: Bruna Costa/DP
“Eu não venderia de qualquer jeito, pois quero que a coleção continue junta. Deu muito trabalho para reunir”, continua. “Mas se não ficar aqui, vai para Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro. A minha vontade é que vire um museu. Mas se a proposta não vem, você tem que ir atrás. Eu fui já até ao Oriente Médio com esse negócio.” Santeiro foi bastante solícito para a sessão de fotos, apontando suas peças favoritas para posar. “Esse aí adora ser artista”, brinca a esposa, Najda, 74.

Filho de agricultor que trabalhava em engenho de cana-de-açúcar em Flexeiras, área que hoje corresponde ao Cabo de Santo Agostinho, José dos Santos começou sua saga aos 17 anos, quando morou no Rio e engatou no ofício de restaurador. De volta ao Recife, montou oficina na Rua da Imperatriz, no Centro, e foi ganhando fama até abrir sua atual loja no número 331 da Rua Joaquim Nabuco. Nela, passou a comprar objetos de arte. De restaurador, virou antiquário, posteriormente colecionador. Os objetos foram sendo amontoados na casa das Graças, onde ele mora há 60 anos.

No jardim existe um grande alambique de cobre do século 18, com serpentina dupla. Foto: Bruna Costa/DP
No jardim existe um grande alambique de cobre do século 18, com serpentina dupla. Foto: Bruna Costa/DP
Logo na entrada, no jardim, existe um grande alambique de cobre do século 18, com serpentina dupla, atestando que o objeto fez parte de um engenho de grande produção. Peças feitas em madeira, barro ou pedra sabão convivem harmoniosamente com Zé e Nadja. A maior parte, no entanto, fica guardada em cômodos que antes tinham outras utilidades, como os quartos dos seis filhos, hoje adultos.

Quem também acompanha a visita é um dos filhos, José Hercílio Santos, 63, historiador e artista plástico que comenta sobre o contexto da criação das peças. Ele diz que a maioria data do século 18, logo após a expulsão dos holandeses, então era época de retomada do ciclo do açúcar pelos portugueses. Voltou a existir uma demanda por obras sacras para decoração, sobretudo de igrejas. Todo engenho tinha a casa grande, a senzala e a igreja, os alicerces da engrenagem social colonial. “Com o avanço tecnológico no século 19 e 20, surgiram as usinas a vapor, e o número de engenhos tradicionais caiu drasticamente. Meu pai coletou essas peças desde a metade do século 20, então era uma consequência de famílias que começavam a falir. Os problemas financeiros levavam as pessoas a venderem as peças”, explica Hercílio.

MUSEU BARROCO
Zé Santeiro sonha em ver as peças em um museu. Foto: Bruna Costa/DP
Zé Santeiro sonha em ver as peças em um museu. Foto: Bruna Costa/DP
Ao relembrar sobre a tentativa de criação de um museu, Zé Santeiro diz que essa “é uma história complicada”. Os esforços começaram quando o prefeito do Recife ainda era Roberto Magalhães, que sugeriu que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional verificasse se a coleção era valiosa. O Iphan fez um levantamento geral, catalogou e atestou a preciosidade. A discussão foi para o âmbito estadual. Um projeto que utilizaria a antiga Fábrica Tacaruna, em Olinda, começou a ser cogitado. A Tacaruna chegou a ser reformada pela Fiat para um centro de pesquisa, que também não foi adiante. A ideia para o museu esteve no radar da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco até um pouco depois da morte de Eduardo Campos, em 2014.

Caso o museu fosse inaugurado, seria um ambiente para disseminar o barroco pernambucano. São várias esculturas de santos e oratórios que mostram a produção de uma escola barroca no estado, revelando até mesmo o mestre Meneses, que era de Nazaré da Mata. José dos Santos foi, por exemplo, o único brasileiro a participar da exposição Brésil de baroque, montada no Petit Palais de Paris, em 1999.

Raro oratório estilo D João V, com passagens da bíblia desenhadas nas portas. Foto: Bruna Costa/DP
Raro oratório estilo D João V, com passagens da bíblia desenhadas nas portas. Foto: Bruna Costa/DP
“No Brasil, a arte barroca é dividida em três estilos: o nacional português (1600-1700), o joanino (primeira metade do século 18) e o rococó (segunda metade do século 18). A coleção de Zé Santeiro apanha essas três fases, por isso tem uma importância fundamental”, diz Fernando Guerra, chefe do departamento de arqueologia da UFPE. “Não podemos perder essa coleção. Tem que existir uma iniciativa de empresários, governo do estado e federal, para que ela fique em Pernambuco e em um espaço adequado. Em termos de barroco e arte sacra, essa coleção é uma das mais importantes do país”.

“A coleção de Santeiro não pode ter o mesmo fim que a coleção do pernambucano Abelardo Rodrigues, que hoje está em um casarão de três andares Bahia, ou as esculturas de Abelardo da Hora, que estão em um museu oferecido pela Universidade Federal da Paraíba”, diz Reinaldo Carneiro Leão, secretário perpétuo do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco. “Sua importância é fenomenal. Tem um Oratório Estilo D João V que qualquer museu do Brasil teria orgulho.”

Em nota, a Fundarpe afirma que reconhece a importância da coleção. “No momento, porém, não há qualquer previsão de aquisição de obras de arte por parte do Governo de Pernambuco. Sobre a Tacaruna, não há nenhum projeto da Secult-PE/Fundarpe para utilização do espaço”. Com a finalização da reportagem na casa das Graças, José dos Santos avisou que iria ao antiquário na Rua Joaquim Nabuco. Ele ainda abre o espaço todos os dias: “Agora vou trabalhar”. Aos 90 anos, cercado de incertezas e promessas, Zé Santeiro ainda mantém a fé.

Foto: Bruna Costa/DP
Foto: Bruna Costa/DP


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