Henrique Pires Prêmio a Chico Buarque alimentou conflito entre governo e ex-secretário de Cultura

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 22/08/2019 16:20 Atualizado em:

Foto: Divulgação
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Além do cancelamento de um edital de projetos para a TV, o ex-secretário especial de Cultura diz que enfrentou outros conflitos com Osmar Terra, ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro, por motivos políticos e ideológicos. Os casos incluem uma premiação ao músico Chico Buarque e uma obra com personagens transexuais na Bienal de Veneza.
 
Henrique Pires, que deixou o cargo na quarta-feira (21), afirma à Folha que correu o risco de ser demitido em maio, quando Chico Buarque foi anunciado como vencedor do Prêmio Camões, o principal troféu literário da língua portuguesa.
 
"Ele [Terra] ficou furioso, porque eu tinha escolhido os representantes brasileiros do júri", diz, em referência aos escritores Antonio Cícero e Antônio Hohlfeldt. "O candidato deles não era o Chico, mas os outros quatro jurados chegaram com o nome dele, e eles seriam derrotados.
 
O músico é um crítico de Bolsonaro e apoiou a campanha do petista Fernando Haddad na eleição de 2018. Segundo Pires, o ministro só se convenceu de que não havia motivação política na escolha depois de conversar diretamente com Hohlfeldt, seu amigo.
 
Terra, de acordo com o ex-secretário, também cancelou uma visita ao pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza. O país é representado pela obra "Swinguerra", que inclui um curta-metragem e fotografias de dançarinos da cena brega e funk do Recife.
 
Pires afirma que o ministro não quis participar do evento porque o vídeo é protagonizado por uma dançarina transexual. O então secretário esteve no local, em maio.
 
A saída de Pires do cargo ocorreu após a suspensão de um edital de projetos para a TV que incluía uma categoria para séries com temática LGBT. Ele anunciou que deixaria o governo o cargo por não admitir a imposição de "filtros" na cultura.
 
No último dia 15, Bolsonaro criticou quatro projetos aprovados para a última fase do concurso e anunciou o cancelamento da proposta. "Aquela lista que o presidente divulgou foi o Osmar que foi lá levar. Eu disse que ele não precisava botar gasolina no fogo", diz Pires.
 
A Folha enviou perguntas ao Ministério da Cidadania sobre as declarações dadas pelo ex-secretário. Não houve resposta até a publicação do texto.
 
O ex-secretário também critica o comportamento do governo em relação ao filme "Bruna Surfistinha". Ele afirma ser um erro o ataque ao financiamento de uma série baseada no filme de 2011.
 
"Estamos falando de uma série que está chegando à quarta temporada e que é um sucesso. Mas o presidente fala do filme e ele [Terra] concorda. Ele concorda sempre", diz. "Falta conversar e explicar, sem ter medo do presidente."
 
Pires afirma que entende o estilo de Bolsonaro. "É o jeito dele [presidente]. Não estou fazendo crítica a ele", diz. Mas diz estar "surpreso" com o comportamento de seu antigo chefe. "O Osmar [Terra] sempre teve uma postura de esquerda. Ele foi militante no PC do B", declara


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