Cinema No Coração do Mundo: Periferia de Minas Gerais é palco de dramas cotidianos e ação

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 01/08/2019 12:31 Atualizado em: 01/08/2019 13:22

O curta-metragem Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides (2011) inspirou cenas do longa. Foto: Filmes de Plástico/Divulgação
O curta-metragem Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides (2011) inspirou cenas do longa. Foto: Filmes de Plástico/Divulgação

Pessoas, casas e ruas da periferia de Contagem, terceiro município mais populoso de Minas Gerais, são protagonistas das obras dos diretores Gabriel Martins e Maurílio Martins, que cresceram em diferentes bairros dessa cidade. Eles integram, ao lado do cineasta André Novais Oliveira e do produtor Thiago Macêdo Correia, a Filmes de Plástico, produtora mineira criada em 2009, conhecida em festivais nacionais com curtas-metragens que trazem o cotidiano de Contagem sem filtros, com um tom naturalista que permeia interpretações, diálogos e temáticas.

No coração do mundo, o primeiro longa assinado pela dupla, surgiu com missão de reafirmar que essa cidade, conurbada com Belo Horizonte, pode ser palco de histórias universais, despertando identificação de outras comunidades brasileiras e latino-americanas. O drama com pitadas de “filme de assalto” teve sua première mundial no Festival de Roterdã, na Holanda, em janeiro deste ano. Nesta quinta-feira (1º), estreia em 20 salas de cinema do Brasil com distribuição da Embaúba Filmes. No Recife, está em cartaz nos dois cinemas da Fundação Joaquim Nabuco.

O lançamento nasceu da aglutinação de dois curtas já existentes: Contagem (2010), também da dupla, e Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides (2011), assinado apenas por Gabriel Martins. O enredo faz uma imersão no cotidiano de vários personagens, com enfoque em Marcos (Leo Pyrata), um desempregado que vive de bicos, sua namorada Ana (Kelly Crifer), uma cobradora de ônibus, e Selma (Grace Passô), uma antiga conhecida de Marcos que tenta iniciar um novo negócio. Durante o longa, o peso do dia a dia vai fazendo com o que os três desviem da legalidade e sejam cúmplices em um plano que pode mudar suas vidas. Entre os personagens secundários, está uma moradora interpretada pela funkeira MC Carol de Niterói.

Marcos (Leo Pyrata) Ana (Kelly Crifer) são os personagens que protagonizam o longa. Foto: Filmes de Plástico/Divulgação
Marcos (Leo Pyrata) Ana (Kelly Crifer) são os personagens que protagonizam o longa. Foto: Filmes de Plástico/Divulgação
"A proposta naturalista, que é quase uma marca registrada da produtora, continua nesse filme com diálogos, modos de expressão e maquiagens quase inexistentes", diz Maurílio. "Mas agora abrangemos mais estilos, misturamos elementos de drama, filme de assalto e alguns toques de comédia. Também tem uma linguagem cinematográfica mais complexa, com mise-en-scène, encenações e movimentos de câmera mais elaborados." 

Isso tudo é exibido em cena se apropriando de pessoas e cenários comuns daquele espaço, caminho percorrido desde os primeiros curtas. "É mais fácil filmar a rua da sua casa, no seu bairro, na cidade que cresceu. Facilita a produção e dá mais sensibilidade para a direção", diz Gabriel. "Mas jamais queremos que esse seja um fator limitador ou de comodidade. Levamos todas as propostas que nos movem. Em Roterdã, No coração do mundo teve cinco sessões lotadas e percebemos o interesse coletivo de entender mais sobre a nossa história, dentro do contexto político que vivemos. Ficou clara essa comunicação dos personagens com pessoas de outros países, em outras situações".

Mesmo tendo sido filmado em 2016, o filme consegue conversar com os tempos de hoje. A crescente terceirização do trabalho e a falta de oportunidades de emprego são alguns dos temas que fazem essa ponte. Mas, talvez, a maior potência política da película seja sua execução e circulação. "Somos dois diretores oriundos da periferia, um negro e outro pardo, e conseguimos lançar esse filme em um circuito razoável", diz Maurílio. "Somos frutos da política pública. É filmado, interpretado e produzido pelas pessoas da periferia de Contagem. E isso por si só é um gesto muito forte."

Assista ao trailer de No Coração do Mundo:



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