RAP Batalha da Escadaria: Improviso e resistência do rap no Centro do Recife

Por: André Santa Rosa - Diario de Pernambuco

Publicado em: 03/08/2019 14:51 Atualizado em: 03/08/2019 15:22

Cultura hip hop ocupa os espaços públicos do centro do Recife. Foto: Fernando Gomes/Divulgação
Cultura hip hop ocupa os espaços públicos do centro do Recife. Foto: Fernando Gomes/Divulgação
 
A cultura hip hop é fruto de manifestações artísticas e políticas dos guetos latinos e afro-americanos da década de 1970, em Nova York. DJ Kool Herc, Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash, considerados por muitos os fundadores do movimento, convencionaram a arte em quatro expressões: graffiti, DJ, breakdance e rap. Hoje, o rap possui inúmeras vertentes, sendo uma delas o freestyle, versos livres recitados a partir de uma batida, algo como o improviso e a vertigem do jazz aliados à rapidez, criatividade e o lirismo dos repentistas. 
 
No encontro da Rua do Hospício com a Avenida Conde da Boa Vista, toda sexta-feira é realizada a Batalha da Escadaria. A batalha surgiu em 2008, no Centro do Recife, geralmente com a calçada lotada e o público formando um círculo em torno dos competidores. Ao fim de cada, a roda decide qual MC saiu vitorioso. Assim como outras manifestações culturais periféricas, as batalhas são feitas em uma paisagem e atmosfera urbanas, ocupando espaços públicos, como forma de exercício da cidadania e de se mostrar ao mundo. 
 
Neste sábado, às 20h, será decidida a última vaga, que fecha a pré-seleção de um total de 16 participantes para o Duelo de MCs, a maior batalha de rimas do país. A etapa nacional começou há 12 anos e Pernambuco, por meio da Batalha da Escadaria, teve a oportunidade de estar presente desde o começo. Do final deste mês até o começo de setembro, será decidido quem representará Pernambuco na etapa nacional, realizada em Belo Horizonte, nos dias 14 e 15 de dezembro. Em 2006, o rapper Emicida foi o vencedor nacional da competição, o que deu muita força e uma nova vitalidade ao freestyle no Brasil. 
 
O criador da Batalha da Escadaria, o produtor e arte-educador Luiz Carlos Ferrer, 37 anos, conta que seu contato com a música surgiu a partir do skate. “Conheci a cena do rap quando fiquei amigo da galera do Crew Conspiração PE. Também fiquei amigo do DJ Charles e formamos a banda Inquilinos, até 2008.”, remonta. “Sempre tive a pretensão que, depois que o grupo acabasse, eu pudesse criar algo que desse visibilidade ao meu estado. E a Batalha da Escadaria surgiu junto com outras nacionais, inclusive na mesma época que o Duelo de MCs, o maior torneio nacional.” 
 
Passados doze anos de sua criação, a Batalha da Escadaria é, hoje, a maior do estado. A equipe é formada pelo videomaker Rostand, o assessor Wilson Maranhão e o designer Charles Guedes. Além dos eventos, a organização já se apresentou como grupo em show e festivais como No Ar Coquetel Molotov 2017 e abrindo shows para nomes como Devotos e Criolo. Em 2015, lançaram a mixtape Batalha da Escadaria - Volume 1. O sucesso é tamanho que o grupo pretende lançar o projeto em vinil, além de já estarem preparando o Volume 2, com todas as batidas produzidas pelo beatmaker Sativo. 
 
Para Luiz, a batalha é porta de entrada não só para o rap, mas para outras expressões dentro da cultura hip hop. E a rua é fundamental para dar visibilidade do evento. Diomedes Chinaski, Tai MC, Speed Souza e Rimocrata são alguns dos nomes da cena que tiveram passagem ou iniciaram suas carreiras na Batalha. 
 
Na Batalha da Escadaria não são toleradas rimas racistas, machistas ou homofóbicas. Foto: Fernando Gomes/Divulgação
Na Batalha da Escadaria não são toleradas rimas racistas, machistas ou homofóbicas. Foto: Fernando Gomes/Divulgação
 
O pesquisador de rap Mário Rolim, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, explica a potência política de encontros como o da escadaria. “São muito importantes e muito potentes politicamente, principalmente porque conseguem oferecer aos jovens (majoritariamente negros e/ou de baixa renda) que participam dela uma chance de intervir no espaço público, se expressar, confraternizar, criar arte, assim como conscientizar uns aos outros sobre a voz e a potência política de cada um. Isso vai contra estruturas e instituições presentes na sociedade que frequentemente tratam esses jovens com silenciamento, desvalorização e até violência”, explica.
 
Também é ressaltado tanto pelo pesquisador, como pelo criador do evento, que na Batalha da Escadaria não são toleradas rimas racistas, machistas ou homofóbicas. Mário explica que o rap é um gênero de maioria masculina. Sendo assim, intervenções diante de formas de preconceito como essas são bem-vindas dentro do gênero. Principalmente se pensarmos que as MCs mulheres, tempos atrás, encontravam certa dificuldade de participar desses espaços por se tornarem alvos de xingamentos e julgamentos enviesados. Assim, essas intervenções tornam o ambiente das batalhas mais inclusivo e democrático.
 
São manifestações como essas que mantêm a cultura hip hop viva, e em seu habitat natural: a rua. Em tempos em que os muros são construídos e os espaços públicos são sucateados, a arte vai encontrando formas de reviver o espírito “old school” e democrático que lhe deu origem. A esquina da Rua do Hospício com a Av. Conde da Boa Vista segue como terreno fértil para os jovens MCs gritarem para o mundo ouvir, porque o grito quando vem das ruas não se abafa.


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