Cinema 'Sonho em trabalhar com um diretor pernambucano', diz Drica Moraes, homenageada do 23° Cine PE

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/07/2019 08:33 Atualizado em: 15/07/2019 09:09

Com 50 anos, sendo 36 de carreira, a carioca tem presenças notáveis na TV, no teatro e no cinema. Foto: Drica Moraes/Divulgação.
Com 50 anos, sendo 36 de carreira, a carioca tem presenças notáveis na TV, no teatro e no cinema. Foto: Drica Moraes/Divulgação.
 
A 23ª edição do Cine PE- Festival do Audiovisual, de 29 de julho e 4 de agosto no Cinema São Luiz, divulgou programação que pode ser conferida no www.festivalcinepe.com.br. Também adiantou a personalidade homenageada: a atriz Drica Moraes. Com 50 anos, sendo 36 de carreira, a carioca tem presenças notáveis na TV, no teatro e no cinema. “É uma atriz visceral. Ela vai da comédia ao suspense com maestria, e o festival entende que essa força criativa que ela carrega ao longo da carreira deve ser exaltada”, disse Sandra Bertini, diretora do Cine PE. Drica receberá o troféu Calunga de Ouro em agosto.

Adriana Moraes Rego Reis apareceu numa produção audiovisual pela primeira vez no episódio O sequestro de Lauro Costa, da extinta série Tele tema (1986), na Globo. Desde então, foram inúmeros personagens marcantes, incluindo a vilã Violante Cabral, de Xica da Silva (1996), e Marcela de Almeida, em O cravo e a rosa (2000). No cinema, fez “bem menos trabalhos do que gostaria”, como revelou ao Viver. Os mais recentes, que tiveram apelo comercial, foram em Bruna Surfistinha (2011) e Getúlio (2014). Em 2018, compôs os elencos de O banquete (2018), da Daniela Thomas, e Rasga coração (2018), do Jorge Furtado, ambos de um circuito mais alternativo.

Drica está na telinha como a infectologista Vera Torres na série global Sob pressão, que está na terceira temporada. O enredo do projeto, inovador no Brasil por ser lançado primeiro no streaming e mostra o cotidiano de um hospital público em São Paulo. Em entrevista ao Viver, a atriz falou sobre sua relação com Pernambuco, sobre o cenário político e seus projetos atuais.
 
Entrevista - Drica Moraes, atriz 
Drica Moraes interpreta uma infectologista em "Sob Pressão". Foto: Divulgação / TV Globo
Drica Moraes interpreta uma infectologista em "Sob Pressão". Foto: Divulgação / TV Globo
 
 
Como se sente homenageada? 
Olha, eu estou muito feliz, em estado de êxtase. Primeiro porque amo cinema, mas também porque amo os diretores de Pernambuco e os artistas em geral. Para mim, é como se estivesse ganhando um Oscar.

Qual é a sua relação com Pernambuco? 
Tenho uma relação familiar, pois tenho uma tia pernambucana. Fui muito a Pernambuco quando criança. Considero Olinda uma das cidades mais lindas do mundo. E com trabalho, estive muito com o teatro. Devo muito a pernambucanos como Guel Arraes, Flávia Lacerda, João e Adriana Falcão. São pessoas que me ajudaram muito ao longo da minha vida, abrindo possibilidades.
 
Como enxerga o cinema feito no estado? 
Desde a retomada do cinema brasileiro, após o governo do Collor, surgiu uma geração incrível composta por Cláudio Assis e Marcelo Gomes. Desde aquela época, acho que existe um cinema totalmente diferente do que se fazia no resto do Brasil. São filmes que mudaram as perspectivas de como fazer cinema. E agora com esses mais novos, como Kleber Mendonça, Gabriel Mascaro e Renato Aragão, isso continua. Existe um cinema de autor, que absorve atualidades e vivências próprias, sem ser uma “sala de estar” para gringo. Eu sonho em trabalhar com esses diretores. Mas acho que sou “muito Sudeste” para as narrativas desses cineastas (risos).
 
Você também é bastante conhecida por trabalhos na televisão e no teatro. Mas esse é um prêmio de cinema. Qual o diferencial dessa linguagem?
Como é um trabalho com narrativas curtas, precisa ser uma pérola extraída de um material bruto e precioso. Existe uma natureza própria, com recursos próprios. Você consegue construir personagens com delicadezas peculiares. É algo que você não tem acesso em outras linguagens. Em novelas, por exemplo, é necessário encher muita linguiça por ser uma história longa. O personagem vai mudando de acordo com o que o público quer, por ser uma obra aberta. Os sets da TV são amontoados de gente, com muitos setores. Já o cinema é uma arte muito delicada, sensível e sutil. Você consegue fazer uma imersão em diversos aspectos. É um prazer muito grande trabalhar com isso e ser reconhecida pelo prêmio.

Durante a carreira como atriz, existe algum filme que te marcou mais? 
Eu fiz pouco cinema, bem menos do que gostaria. Esse ano, junto com a premiação, faço 50 a nos de idade e peço que escrevam para atrizes da minha idade. Tem um monte de histórias maravilhosas para mulheres de 50. Nos últimos anos, fiz três filmes que me marcaram muito. O banquete (2018), da Daniela Thomas, que foi pouco visto, mas muito bonito, montado em seis planos sequências. É uma ação dramática que se desenrola ao longo de uma noite, com seis personagens bebendo e vomitando verdades em uma mesa. Captura a essência da sociedade burguesa e intelectual paulista dos anos 1980. Outro filme que tenho muito orgulho é Rasga coração (2018), do Jorge Furtado. É uma adaptação da obra do Vitor Valda Filho, o inventor de A grande família. O longa fala sobre como as escolhas políticas e ideológicas dos pais entram em ruptura com as dos filhos. Rende boas reflexões sobre a sociedade de hoje.
 
Estamos vivendo mudanças nas políticas do governo federal para o cinema. Sobretudo na mudança do teto da Lei Rouanete suspensões em repasse de verbas para o audiovisual. Como tem enxergado? 
Acredito que houve um conchavo político que misteriosamente conseguiu fazer com que as artes ocupassem um lugar de vilania. A arte não é vilã, ela apoia a educação, é libertadora e tem a função de ampliar as possibilidades de evolução do indivíduo. Acho que o mau uso dessas políticas por algumas pessoas da classe teatral, prefiro não citar nomes, fez surgir essa demonização da classe. Mas as políticas culturais são necessárias. Vejo os atuais movimentos com muita tristeza, mas tenho esperança de que as pessoas vão acordar para isso em breve. Tem muita gente engajada trabalhando para que a arte volte a ter seu lugar de destaque e merecimento. E eu também luto, mesmo sem nenhum partido. Luto pela causa. E espero que as coisas melhorem.

Atualmente, você está na TV e no streaming com a série Sob pressão, que está tendo boa recepção de público e crítica. Como foi gravar esse projeto?
 Acredito que a série agradou por dar voz a muita gente que não tem como falar. Ela fala de um segmento muito desvalorizado pela sociedade e pelos governantes, que é a saúde pública. É um tema tristemente muito atual. Infelizmente, não vejo muita perspectiva de melhora, por falta de vontade política. Por isso, acho que a série não deveria acabar. Existe uma ideia de fim, mas ela está sendo muito bem comentada. As coisas mudam o tempo todo, mas torço para que a série volte.

Na série, você interpreta uma personagem muito forte... 
É uma coadjuvante, mas que tem uma força centrípeta por tocar em questões vitais da protagonista (Marjorie Estiano). Acho muito bonita a parceria, inclusive. Ela também mostra um tipo de profissional que abre a mão da vida em função ao seu trabalho. Esses médicos sofrem mazelas que a gente não imagina. É um alto grau de suicídio, autof lagelo.

Há alguns anos, você enfrentou um câncer e conseguiu superá-lo. Virou um exemplo para muita gente. Como lida com isso?
 Eu fui salva por um estranho, através da doação de medula óssea. Ele também não sabia que era eu. A doação é sigilosa, mas houve a compatibilidade. Já faz nove anos. Fez aniversário ontem, inclusive (dia 7 de junho, um dia antes da entrevista). Hoje, eu conheço o doador e somos grandes amigos. O chamo de irmão. Sou muito grata, porque tive sorte.
 


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