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Notícia de Divirta-se

Livro resgata memória de padres perseguidos pela ditadura no Brasil

Publicado em: 16/07/2019 11:12

 A obra será lançada pela Companhia Editora de Pernambuco durante o 30º Simpósio Nacional de História. Foto: CEPE/Divulgação
 
A relação entre política e religião é uma intersecção sempre latente, mas, ao mesmo tempo, evitada. O livro Travessias - Padres europeus no Brasil (1959-1990) toca o dedo na ferida ao montar um importante registro da política de apaziguamento das tensões adotada pela Igreja Católica, depois da década de 1950, em toda a América Latina. O historiador e professor Antônio Torres Montenegro, autor do livro, estrutura sua obra a partir do relato de cinco padres europeus, que atuaram no Nordeste brasileiro nesse período. A obra será lançada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) hoje, às 18h, durante o 30º Simpósio Nacional de História, que acontece na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“São homens simples, que viveram situações extraordinárias. Por mais que isso seja contraditório”, explica o professor e pesquisador Antônio Montenegro, em entrevista ao Viver. São cinco os padres que dividem o livro: Jacobus Josephus de Boer (Padre Jaime, Holanda), Joseph Comblin (Bélgica), Joseph Servat (França), Lambertus Bogaard (Holanda) e de Dom Xavier Gilles de Maupeou d’ Ableiges (França). Os religiosos chegam ao Brasil vindo de diferentes partes da Europa, com desejos e expectativas pessoais. Missionários da Fidei Donum (O Dom da Fé), uma Carta Encíclica escrita em 1955, na qual o Papa Pio XII apela aos bispos de todo o mundo que estimulem os padres (europeus, canadenses e norte-americanos) ao trabalho missionário voluntário na África e, logo após, na América Latina. Esses padres vieram também com a intenção de combater uma “pregação materialista”.
 
Quando eles se deparam com a realidade brasileira, acabam se envolvendo intensamente na luta contra as desigualdades sociais. “Passaram a chamar a minha atenção os padres europeus que afirmaram ter emigrado para o Brasil por convocação da encíclica Fidei Donum, sobretudo porque, se um dos objetivos dessas missões era o combate ao comunismo, era surpreendente descobrir como muitos deles, após o golpe de 1964, começaram a ser taxados de comunistas e até detidos para interrogatórios. A lguns deles foram presos e mesmo expulsos do Brasil. Outros receberam ameaças de morte ou foram assassinados”, destaca o autor.

ANTICOMUNISMO
O professor também relaciona o discurso anticomunista desse tempo com a onda política dos dias de hoje. “No Brasil, criou-se um discurso antes e depois de 64, de que qualquer pessoa que se associa aos interesses populares é comunista. Então, você ficar indignado com certas questões sociais te torna automaticamente um”, explica. Nenhum dos padres tinha relação alguma com a ideologia marxista, segundo o autor, apenas adotavam “uma perspectiva de empatia e solidariedade do cristianismo”. Muitos deles, inclusive, relacionavam o comunismo às experiências autoritárias vividas no leste europeu e na União Soviética.
 
Travessias tem 441 páginas. O autor diz que a busca por uma linguagem mais acessível e objetiva foi uma das intenções do trabalho. Inclusive, enquanto buscava os padres que dariam suas memórias como parte da obra, um dos critérios utilizados pelo pesquisador foi a capacidade deles de relato da história. Isso tudo é sentido na leitura: sua narração bem estruturada, a capacidade de ambientação e transmissão de emoções de cada relato.

A obra é um dos desdobramentos de um projeto de pesquisa realizado por Antônio Torres Montenegro, no final da década de 1990, para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sobre as mobilizações dos trabalhadores rurais antes e depois do golpe militar de 1964. Professor do Departamento de História, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFPE, o autor é um dos criadores da Associação Brasileira de História Oral (ABHO). Em 1992 publicou sua tese, História oral e memória: A cultura popular revisitada, que surgiu da inquietação sobre a relação entre pessoas de baixa escolaridade do Recife e a história.
 
SERVIÇO
Lançamento do livro Travessias
Quando: hoje, às 18h
Onde: Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFPE (Avenida Professor Moraes Rêgo, 1235, Cidade Universitária) Quanto: R$ 60 (livro impresso) e R$ 18 (e-book) 
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