Literatura Livro mostra que cobertura da Guerra de Canudos foi repleta de fake news

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 10/07/2019 13:16 Atualizado em: 10/07/2019 13:18

Walnice Nogueira Galvão é a maior especialista em Euclides da Cunha. Fotos: Fábio Seixo e Domínio Público/Divulgação
Walnice Nogueira Galvão é a maior especialista em Euclides da Cunha. Fotos: Fábio Seixo e Domínio Público/Divulgação
As fake news invadiram o debate global em 2016, durante a corrida eleitoral norte-amercicana. No Brasil, ganhou evidência com a ascensão de Jair Bolsonaro. Mas não foram a alt-right ou Steve Bannon que inventaram as notícias falsas - o mérito desses contemporâneos foi usá-las com fins políticos nas redes sociais. Em outro contexto histórico, as fake news foram disseminadas na imprensa brasileira durante a ditadura militar, como consequência de censura e manipulação. As inverdades incomodavam a crítica literária paulista Walnice Nogueira Galvão a ponto de lhe estimular a escrever uma tese sobre o tema.

No fim da década de 1960, quando o estudo foi feito, os militares que estavam no poder jamais poderiam ser alvos. Walnice, então, retornou aops anos 1890 para analisar a forma como a Guerra de Canudos foi coberta pela mídia, incluindo os textos de Euclides da Cunha, que, juntos, foram a base de Os sertões (1902), uma das obras canônicas da literatura brasileira. O trabalho de Walnice se tornou o livro No calor da hora - A guerra de Canudos nos jornais (1974). “Não imaginei nem percebi que se tratava da primeira tese universitária focalizando Euclides da Cunha e Canudos”, escreveu a autora no prefácio do relançamento da obra pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) em 2019, sob o selo Suplemento Pernambuco.

Nesta quarta-feira (10), Walnice abre a 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada no litoral do estado do Rio de Janeiro até domingo, sob curadoria de Fernanda Diamant. Na conferência, será percorrerida uma linha histórica dos estudos sobre Euclides, autor homenageado da edição. Sua relação com o jornalista e engenheiro fluminense não se limita ao livro de 1974. Ela lançou mais 12 obras sobre o autor. Em 2019, com a ascensão das fake news no debate político, No calor da hora se torna urgente. O lançamento da nova edição pela Cepe será na sexta-feira (12).

Capa do livro no Calor da Hora. Foto: Cepe/Divulgação
Capa do livro no Calor da Hora. Foto: Cepe/Divulgação
“Fui a São Paulo em 2018, fazer um perfil da Walnice. Durante a conversa ela falou sobre a ditadura militar no Brasil. Ela me disse que foi amiga de vários guerrilheiros assassinados e, toda vez que as mortes saíam nos jornais, noticiavam que as pessoas haviam se matado ou sofrido acidentes. Quando percebeu isso, pensou em fazer esse trabalho que denunciava as fake news na imprensa no fim do século 19”, conta Schneider Carpeggiani, editor da Suplemento Pernambuco, ao explicar a ideia do relançamento.

Ao longo de mais de 500 páginas, Walnice mostra como os principais jornais de Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia cobriram as batalhas no arraial de Canudos na quarta expedição do massacre, entre os anos de 1896 e 1897. Através de reportagens, editoriais e até poesias, quase todos eles aderiram cegamente à tese do governo federal e dos militares da época: o grupo comandado por Antônio Conselheiro integrava uma conspiração monarquista que ameaçava a República logo após a sua fundação através de um golpe de estado. Assim, mostra certa contemporaneidade na necessidade de criar um inimigo comum - que recentemente tem sido uma “ameaça comunista”.

Para além dos atuais espectros políticos cada vez mais polarizados, a cobertura da imprensa durante o massacre mostra nuances sobre a própria formação do Brasil. O fato é que o confronto com Antônio Conselheiro mostra um estado autoritário e opressor com pobres e pouco preocupado em compreender desigualdade regionais. A obra de Euclides, que narra a Guerra de Canudos com tom épico e esbanja preconceitos raciais, denuncia uma barbárie que reverbera até hoje.

Walnice Nogueira Galvão. Foto: Divulgação/Divulgação
Walnice Nogueira Galvão. Foto: Divulgação/Divulgação
“É interessante ler Os sertões porque ele fala do Brasil de agora, que é esse Brasil da periferia, em que a polícia mata jovens negros, em que favelas do Rio são militarizadas e onde tem coisas como Brumadinho. É uma generalizada guerra aos pobres na sua forma moderna”, aponta Walnice, em entrevista recente ao Correio Braziliense. “Esse não é um livro sobre revisão do episódio de Canudos, pois isso já havia sido feito por historiadores”, acrescenta Schneider. “Ele pensa muito mais sobre a imprensa, porque ela também foi responsável por aquele extermínio. Com mentiras, ajudou a construir uma ‘comunidade’ que estava traindo a pátria. Isso legitimou o ataque”, finaliza.


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