Especial Filhos de Dandalunda: beleza e riqueza da Nação Angola em Pernambuco

Por: Samuel Calado - Redes Sociais e Site

Publicado em: 12/07/2019 23:35 Atualizado em:

Dandalunda é a divindade patrona do Afoxé. Foto: Samuel Calado/DP
Dandalunda é a divindade patrona do Afoxé. Foto: Samuel Calado/DP


A Entidade Cultural Afoxé Filhos de Dandalunda foi fundada no ano de 2000. O grupo leva para as ruas do Recife o encanto e a beleza do orixá Oxum, divindade africana ligada ao rio, a fertilidade e ao amor. A sede está localizada no bairro da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife, onde também funciona o Abassá Omim Asè de Dandalunda, de tradição religiosa Bantu. Tanto o grupo quanto a casa religiosa são zelados pelo sacerdote Pai Moacir de Angola, que traz em sua história a ancestralidade e o legado da Nação Angola. 

 

Pai Moacir de Angola. Foto: Samuel Calado/DP
Pai Moacir de Angola. Foto: Samuel Calado/DP
 

 

Segundo o líder espiritual, o grupo foi criado através de uma promessa feita à Nossa Senhora do Carmo durante as festividades do mês de julho. No sincretismo, a santa católica é representada no candomblé pelo Orixá Oxum. A história remete ao período da escravidão no Brasil, quando os negros escravizados eram proibidos de cultuar os seus deuses, logo, como uma forma de resistência, passaram a vincular as imagens das santidades da Igreja Católica aos deuses de matriz africana. Após alcançada a promessa, Pai Moacir decidiu consultar os orixás e teve a autorização para iniciar as atividades da entidade. Atualmente, por questão de resistência, os religiosos defendem uma procissão dedicada ao orixá, que acontece no mesmo dia em que se cultua a santa católica. 

 

 

No primeiro ano de fundação, os Filhos de Dandalunda desfilaram no carnaval com aproximadamente 120 pessoas. O pai de santo relata que o objetivo deles, quanto coletivo negro foi de mostrar para o público o encanto, a riqueza e a ancestralidade através do culto aos orixás. “O povo Bantu foi o primeiro a chegar ao Brasil. Deles, temos uma série de influências culturais, especialmente na linguagem. Palavras como quitanda, marimbondo, Fubá e minhoca são algumas que representam esse vasto dicionário”, explica.

 

Seguindo esta tradição, Pai Moacir conta os nomes dos Orixás em nações popularizadas no Brasil como a Nagô, o Ketu e o Jeje ganham outras pronúncias no fundamento de Angola. Por exemplo Xangô (divindade da justiça) recebe o nome de N’Zazi e Oxum (deusa das cachoeiras, da transformação, da fertilidade e do ouro) é chamada por Dandalunda, a patrona do afoxé. “A essência é a mesma. Cada orixá predomina em uma força elementar na natureza. Nós que somos de descendência banto acreditamos que o orixá é a força viva da natureza, o povo jeje e o povo ketu acreditam que os orixás passaram pela terra e tiveram forma humana”, explica.   

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 O afoxé, sob a perspectiva do candomblé na rua possibilita aos brincantes a oportunidade de não somente vestir a camisa da religião como também mostrar toda a questão cultural que envolve a manifestação. Os turbantes, as roupas litúrgicas e os colares de conta dão vida a estética de coletivo. O religioso ressalta que é importante conhecer o que cada elemento representa para que não haja uma apropriação cultural, quando fazem o uso da estética sem saber o que representam. “Hoje está na moda ser do candomblé, a gente observa que muitas pessoas vestem turbantes brilhosos, colocam fios de conta, pulseiras da religiosidade, mas movidas apenas pelo que consideram bonito. É importante saber o valor e compreender que esses objetos são importantes instrumentos de luta e representatividade negra”, pontua.

 

Através da ligação com o terreiro, os integrantes da entidade cultural desenvolvem durante o ano várias atividades sociais. A mais importante dela é a premiação Abebé de Prata, considerada o Oscar da sociedade candomblecista. “O evento reconhece as pessoas que trabalham diretamente com a divulgação da cultura negra e combate aos preconceitos, sejam eles ligados ao gênero, a raça ou sexualidade”, relata Pai Moacir.

 

Os Filhos de Dandalunda são conhecidos no universo dos afoxés como o grupo que traz em sua síntese a riqueza do continente africano. “A gente mostra que na região não existe apenas pano da costa, mas brilho, pedras, dourado e sofisticação. Somos descendentes dos primeiros habitantes do mundo, logo, temos a tecnologia e a ancestralidade ao nosso favor”, explica. 

 

Oferenda ao orixá Dandalunda feita no rio. Foto: Samuel Calado/DP
Oferenda ao orixá Dandalunda feita no rio. Foto: Samuel Calado/DP

 

Em sua trajetória, o grupo enfrentou uma batalha judicial com vizinhos de base cristã. Ao lado do terreiro funciona um templo evangélico que realiza encontros durante a semana. No início havia uma certa cordialidade entre os horários das reuniões, contudo, com o passar do tempo, o grupo de matriz africana começou a receber provocações. Pai Moacir conta que em um momento crítico do conflito, a representante da instituição vizinha reuniu os fiéis para ‘combater o demônio’ da casa ao lado. Em uma manhã, quando o sacerdote saiu de sua casa, se deparou com várias pessoas fazendo orações e jogando um óleo que diziam ‘ser ungido’ em sua porta. “Isso me deixou bastante triste. Porque eu parto de uma perspectiva onde todos temos o direito de pisar o mesmo chão. Somos diferentes na forma de expressar nossa fé, mas o amor está sob todas as coisas”, desabafa.

 

Não aguentando a situação, o candomblecista foi até o Ministério Público e ajuizou uma ação contra a vizinha por Intolerância Religiosa. A partir daí, ficou estabelecido por lei os horários de encontros entre as duas casas para que não houvesse conflito. “Isso foi um santo remédio. Hoje, da mesma forma que escutamos os hinos cristãos cantados pelos fiéis, que por sinal são entoados com amor, ele também nos escutam. Isso se chama tolerância”. 

 

 

Com quase vinte anos de existência, o Afoxé Filhos de Dandalunda já formou vários profissionais. Atualmente, o grupo conta com aproximadamente 25 pessoas oficiais (aquelas que se apresentam no palco), mas durante o carnaval esse número triplica pois pessoas de outras cidades se juntam à entidade para divulgar a cultura negra nas avenidas. “Nós não cobramos por roupa. Graças a Deus e aos Orixás conseguimos arcar com os valores dos figurinos e presenteamos as pessoas que fazem parte da família Dandalunda. Pagamos um preço alto, tiramos daqui e dali, mas ver a realização e o trabalho acontecer não tem preço”, desabafa Pai Moacir.  Além do preparo musical, o coletivo oferece atividades profissionalizantes e sociais para os participantes. “Nosso principal objetivo é tirar os jovens da marginalidade e proporcionar educação e cidadania para eles. Partimos do princípio de que a cultura transforma e dignifica as pessoas”, afirma.

 

Na rua, quando se apresenta em cortejo o grupo é organizado da seguinte forma: primeiro vem o estandarte, uma criança segurando o Babalotin (um boneco talhado com a madeira extraída da árvore Iroko), os líderes espirituais do grupo, a corte real, os bailarinos, os desfilantes e por fim a percussão.   

 

Babalotins do Afoxé Filhos de Dandalunda. Foto: Samuel Calado/DP
Babalotins do Afoxé Filhos de Dandalunda. Foto: Samuel Calado/DP

 

Sobre a religiosidade, assim como todos os grupos, antes das festividades de momo há uma série de celebrações em homenagem aos orixás. Nesses cultos se faz o preparo espiritual do Babalotin, energizam-se os instrumentos e são preparados banhos feitos com ervas sagradas preparado pelas mãos dos próprios participantes. O Babalotin é a representatividade do orixá no afoxé. Também chamado pelos integrantes como Vodum. Sua forma remete à figura humana e antes de sair às ruas, esse boneco recebe oferenda com frutas e comidas secas dentro do Roncó.

 

 

A vocalista do grupo, Azali, relata que conheceu o Afoxé Filhos de Dandalunda por acaso e se apaixonou. Ao perceber que ela tinha o dom de cantar, o sacerdote da casa convidou a jovem para ser parte do afoxé, e posteriormente, uma das filhas de santo da casa. 

 


Observação:  A reportagem faz parte do especial "Afoxés de Pernambuco", produzido como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, sob orientação da Doutora em Comunicação Social, Nataly Queiroz. 

 

Veja também 

 

EP 01: Conheça a história dos Afoxés em Pernambuco

EP 02: Afoxé: força e resistência da religiosidade de matriz africana na rua 

EP 03: Afoxé: sinônimo de resistência e trabalho social

EP 04:  O sentido da dança nos Afoxés de Pernambuco 

EP 05: A essência da musicalidade nos afoxés de Pernambuco 

 



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