O culto à tradição e a energia do São João da Macuca Festa junina no sítio localizado na cidade de Correntes, no Agreste pernambucano, completou 30 anos e mantém as raízes e a valorização da cultura popular

Por: Rodolfo Bourbon

Publicado em: 25/06/2019 22:31 Atualizado em: 25/06/2019 23:43

Uma longa imersão cultural com ares de bloco de carnaval. Crédito: Máquina 3/Divulgação
Uma longa imersão cultural com ares de bloco de carnaval. Crédito: Máquina 3/Divulgação

Uma fazenda no meio do nada no Distrito de Poço Comprido, zona rural do município de Correntes, no Agreste pernambucano, vira a sede, por três dias, de uma das festas juninas mais “raízes” da região. Onde Anitta e Alok não têm vez. Lá, quem assume protagonismo é Walmiro do Acordeon e outros artistas locais. No salão do Sítio Macuca, o forró dita o ritmo. Convidados mais conhecidos do público geral, como Otto e Karina Buhr, precisam adaptar suas canções ao estilo. A Ciranda de maluco, por exemplo, é executada em versão “arraial”. Sanfona, zabumba e triângulo guiam os passos de centenas de pessoas. Algumas estreantes, como o repórter que vos escreve. Outras presentes desde a primeira edição do festejo, em 1989, que só há poucos anos deixou de ser um encontro de amigos para ganhar status de evento.

O São João da Macuca cresceu. Se há dois anos, duas ou três vans saíam da vizinha Garanhuns até o sítio, nesta edição eram dez ou mais aguardando a lotação de 15 passageiros para seguir caminho. Sem falar da quase totalidade de casas alugadas nos municípios próximos e das incontáveis barracas de camping instaladas pertinho do salão - que também aumentou. São muitos os acampados. E o clima é de coletividade e “brodagem”. Aqui, acolá, alguém perdia algo. Prontamente, o locutor anunciava no palco, e o dono ia buscar. Sem sinal de celular, a interação é olho no olho. Uma festa de mais papo e menos WhatsApp, mais dança e menos selfie.

Na edição de 30 anos, realizada da última sexta-feira até o domingo, além de Walmiro do Acordeon, Forró na Caixa, Forró Orquestrado do Maestro Oséas, Coco Raízes de Arcoverde, Forrólindense, Cláudio José e Cláudio Rabeca foram as principais atrações musicais. Mas talvez o maior destaque do evento seja o cortejo e a energia que o envolve.

Cortejo do boi segue pelo Povoado Baixa Grande. Crédito: Máquina 3/Divulgação
Cortejo do boi segue pelo Povoado Baixa Grande. Crédito: Máquina 3/Divulgação

O BOI 
De que horas vai rolar o cortejo? Ninguém sabe. A concentração começa no domingo à tarde, no Povoado Baixa Grande, a poucos quilômetros do Sítio Macuca. Em frente a uma igrejinha, a orquestra do Maestro Oséas se apruma. Há bois de verdade e o Boi da Macuca, figura mítica e brincante, símbolo da festa, enfeitado com as cores azul, amarelo e vermelho. Eis que surge o geólogo José Oliveira Rocha com seu traje de capitão. O Capitão Zé da Macuca. E então, na hora que simplesmente é para acontecer... acontece. E lá se vai o bloco, com muitos estandartes. Desta vez, o forró dá passagem para o frevo.

 O caminho é longo, tortuoso e enlameado povoado adentro. Pela mata, há uma sensação de catarse coletiva. Tem folguedo e um quê de surrealismo. Uma velha mascarada surge com uma lata para arrecadar dinheiro. O boi passa em frente a pequenas casas e cumprimenta os moradores. Eles acenam, sorriem. Se não quiser urinar no mato, você pede licença para usar o banheiro de alguma humilde residência no caminho. Lá, conhece uma mulher forte que cuida sozinha de cinco filhos após a prisão do marido. É um choque de realidade. Mas logo o boi chega, e o semblante sério da conversa desaparece. Ao lado, tem um aboiador, entoando um canto.

O sol some e a luz é só de algumas lanternas. Se você for apressado ou lento demais, pode até se perder, mas logo, logo se acha. Ou acha um grupo de amigos com um triângulo e começa a cantar músicas de Raul Seixas - em ritmo de forró, claro. Pode até batizar o conjunto - esse virou o Macuca Beleza. O cortejo é uma imersão cultural, um culto à tradição. Uma experiência diferente para quem quer fugir de multidões e de atrações com pouco ou zero ligação com os costumes nordestinos.

Horas depois, no palco do sítio, para uma plateia ainda em transe, o Capitão Zé da Macuca não conseguia encontrar palavras para descrever a sensação. “É um momento que emociona”, declarou. É surreal.

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