SERIES Bandidos na Tv, série retrata a vida de Wallace Souza, o apresentador acusado de encomendar crimes para elevar a audiência

Por: Mariana Peixoto - Estado de Minas

Por: Uai - Estado de Minas

Publicado em: 20/06/2019 15:52 Atualizado em:

Foto: Youtube/Reprodução
Foto: Youtube/Reprodução

Com sete episódios, Bandidos na TV, no ar há 20 dias, é a primeira série documental da plataforma de streaming em língua não inglesa. Acompanha uma história brasileiríssima, que neste país continental pode ter passado batido para quem não se interessa por narrativas policiais.

O mote é irresistível. Um apresentador de TV, ex-policial militar e eleito por três vezes (com recorde de votos) deputado estadual, encomendaria crimes para garantir a audiência de seu programa. É dessa maneira que Bandidos na TV nos apresenta o amazonense Wallace Souza (1958-2010).

Em 1996, quando Gil Gomes já era febre nacional com o programa Aqui, agora, Souza criou o Canal livre. Originalmente exibido na TV Rio Negro, afiliada da Band, a atração depois passou para a grade da TV em Tempo, afiliada do SBT, e batia a Globo em Manaus, como somos informados logo no início da série.

Wallace fazia de forma extremada o que outros programas fazem até hoje na TV aberta. Misturando sensacionalismo, humor e assistencialismo, ele se apresentava como um herói dos pobres. Seu convite era sedutor para uma plateia humilde, que sofria com o domínio do tráfico na periferia da capital amazonense. “Bandido merece bala”, “Manaus não pode virar uma terra sem dono” foram alguns dos bordões cunhados por ele.

Não havia tarja preta no programa. A equipe do Canal livre era sempre a primeira a chegar nos locais dos crimes (por vezes, antes mesmo da própria polícia, que sempre lhe passava informações privilegiadas).

APELAÇÃO
Em uma das cenas mais grotescas, que a série explora mais de uma vez, vemos um corpo carbonizado com o repórter comentando que ainda saía fumaça daquele churrasco. Em outro momento, assistimos a um homem ser metralhado – a vítima agoniza enquanto o repórter grava um depoimento, dizendo que havia uma hora que estava ali e o socorro não tinha chegado – os pais ficaram sabendo da morte do filho pela televisão.

Bandidos na TV acompanha a ascensão e glória de Wallace à maneira das séries de investigação sobre crimes verdadeiros, uma febre tanto na TV convencional quanto nas plataformas de streaming. Curiosamente, a produção não tem DNA brasileiro. A série foi produzida pela Quicksilver Media e pela Caravan, duas produtoras britânicas. Seu diretor, Daniel Bogado, é um britânico de origem paraguaia que já assinou documentários sobre o conflito no Sudão do Sul e o grupo terrorista Boko Haram.

O mundo de Wallace começa a ruir em 2008. Ex-policial militar, o traficante Moacir Jorge Pereira da Costa, mais conhecido como Moa, é preso. Na delegacia, denuncia o apresentador e seu primogênito, Raphael Souza, como mandantes de um esquadrão da morte.

De acordo com Moa, os assassinatos eram encomendados pelo apresentador para que seu programa tivesse assunto, ou seja, mais audiência. A partir da denúncia, é criada uma força-tarefa para o caso de Wallace, que passa a ser investigado pelos crimes de formação de quadrilha, tráfico de drogas, ameaça a testemunhas e porte ilegal de armas. Ele é cassado e preso.

Com problemas de saúde desde a infância – quando a investigação começa, Wallace já havia sofrido quatro tromboses, duas embolias pulmonares e um AVC – pouco fica atrás das grades, pois é internado – sofria de ascite, acumulação anormal de líquido no abdômen, popularmente conhecida como barriga d'água.

A série acompanha toda a história como uma novela da vida real. Cada episódio tem um tema e carrega o suspense – por vezes, a cronologia vai e volta no tempo ao sabor da narrativa, deixando o espectador um tanto perdido.

Com riquíssimo material de arquivo – já que, além do programa, a imprensa nacional e internacional cobriu à exaustão o caso Wallace –, há ainda depoimentos atuais (familiares, investigadores, jornalistas) e cenas de reconstituições. A produção parece reafirmar o tempo inteiro a sua busca por imparcialidade – os dois lados são sempre ouvidos. E a investigação traz tamanhas reviravoltas que a dúvida sobre o tamanho da culpa de Wallace fica até o final. Não há certezas. Mas também não há como dizer que há inocentes ali.

Confira o trailer oficial:



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