MULHERES COM H
   

R$ 120 por programa mais o táxi
Foto: Edvaldo Rodrigues/DP
  Taty além dos classificados

TATY TRAVESTI corpo de modelo ex-Miss. Essas são as informações que todos têm antes de entrar em contato pela primeira vez. É desta maneira que ela se apresenta nos anúncios classificados dos jornais da cidade. Palavras que podem até mostrar os dotes físicos, mas que por motivos óbvios, escondem a história de uma jovem com muita coisa pra contar.

Filho caçula e único menino de uma família com três crianças, Taty descobriu muito cedo que queria ser como suas irmãs. “Nunca joguei bola e apanhava sempre porque ia brincar com as bonecas das meninas” (risos). Aos sete anos, disse à mãe, comerciante do ramo de móveis de Caruaru, que não queria namorar garotas. “Ela achou que era coisa de criança. Aos 14, voltei a tocar no assunto. Minha mãe, claro, aceitou. Meu pai (taxista), ficou dois anos sem falar comigo”, lembra.

Aos 16, aconteceu a primeira relação sexual com um homem. Nunca fez sexo com mulheres. Sem perceber, a prostituição também tinha início. “No começo tinha medo de transar, mas era muito bonita e os caras insistiam. Pra me convencer, ofereceriam dinheiro”. O ingresso na profissão foi simultâneo ao fim dos estudos, encerrados, segundo ela, por medo do preconceito. “Passei toda a época de colégio vestindo roupa de menino. Era colégio particular. Não me via mais me vestindo daquele jeito. Não ia fazer vestibular para passar cinco anos sendo humilhada e sendo motivo de chacota e piadas na universidade”.

O medo acabou com o sonho de estudar engenharia química. “Queria atuar no ramo da cosmética!”, fala, com entusiasmo. “Pra atuar no mercado eu nem ia ter que aparecer muito, mesmo. O pior era a faculdade”, reflete. Em Caruaru, conta, sofreu muito preconceito.”Uma vez, estava andando na rua e passei em frente a um bar. Um homem me xingou e atirou uma pedra na minha cabeça. “Eu não tinha feito nada com ele...”

Aos 22 anos, veio para o Recife. Hoje ganha de R$ 1.200 a R$ 1.500 por mês. Cobra R$ 120 por programa mais a tarifa do táxi que a leva até o motel. As regras são claras: “Sem mulheres e camisinha sempre. Não tem esse negócio de hora não. É o preço do programa. Prazer e pressa não combinam. Mas, dura em média duas horas. A maioria quer realizar a fantasia e depois do orgasmo vai embora”, garante.

Mas nem sempre foi assim. Antes de atender por anúncio nos classificados, Taty “fazia ponto” na Avenida Boa Viagem. “Na rua o programa sai por R$ 40, R$ 30, até R$ 15. Além disso, o risco é muito maior”.

Mesmo tendo uma vida confortável, ela avisa que a atual profissão está com os dias contados: “Até o final do ano vou deixar essa vida. Quero abrir uma loja de bijuterias, cosméticos. Quem quer se relacionar com uma pessoa que faz programa? Já perdi muitos namorados por causa disso”. Questionada se os planos incluíam reconquistar um amor do passado, ela sorri e responde: “Pode ser que sim. Quem sabe? Mas ele não quiser, quero ser feliz com outro”, anuncia, numa alta gargalhada.

E não se espantem se a nova versão de Taty venha a incluir uma cirurgia para mudança de sexo. “Você se arruma toda, se cuida, fica toda feminina e tem aquilo ali. Tenho medo de sentir dor. Três amigas minhas fizeram a cirurgia e os clientes querem ter a opção de serem passivos na relação. Mas, se tivesse um parceiro eu faria,” avisa.


Ela confessa que abusa do creme
Foto: Edvaldo Rodrigues/DP
Com tudo em cima - Ex-miss Transex, Taty conta que tem uma rotina dedicada à beleza. Um investimento de cerca de R$ 200 mensais. O resultado são 74 kg bem distribuídos em 1m79 de altura (sem salto). As medidas comprovam: 73 cm de cintura, 93 cm de busto (à base de prótese de silicone), 106 cm de quadril e 55 cm de coxa. “Durmo e acordo no creme. É creme para o rosto, para as mãos, cabelos, contra celulite. Porque a gente também tem celulite, viu? Os hormônios femininos que tomo desde os 15 anos também me deixam com a pele mais molinha como a das mulheres”, admite, cruzando as pernas, preocupada com o melhor ângulo para esconder os furinhos minúsculos. Que mulher nunca fez isso?


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