MULHERES COM H
   

“Meu filho conseguiu
me mudar por amor”


Educadora do Projeto Oxumaré da ONG Gestos, a transexual Denise Jordão, 49, não precisa mais fechar os olhos para imaginar uma união estável e a maternidade. Ela viveu maritalmente com um homem por 17 anos, até que ele veio a falecer, há dois anos. As lembranças dessa relação são guardadas com muito carinho: ”Antes dele eu traía, mas quando fui viver com ele, mudei. Vi que era uma pessoa amiga. Não traí mais. Só fiz programas para sustentar a gente durante sete anos em que ele ficou desempregado e ele sabia de tudo. Depois, quando ele arrumou emprego, eu parei”.

Foi através do companheiro que Denise realizou também seu sonho de maternidade. “A gente vivia e trabalhava junto. Eu tinha conseguido um dinheiro grande com um trabalho com um gringo e comprei um ponto (de prostituição) no Bairro do Recife. Ele trabalhava comigo, botando som na casa. Ele tinha 17 anos e engravidou uma moça da mesma idade. Na época eu não liguei. Pra mim não tinha problema ele ter relações com mulheres, não podia era ser com uma travesti como eu. Um dia, uma amiga minha contou que a moça estava com uma infecção grave, com risco de perder a criança. Chamei ela, comprei os remédios e disse para ela ir para a casa de uma tia. Ela era moradora de rua. Seis meses depois, ela voltou com a criança nos braços. Disse que estava vindo direto da maternidade e que não tinha o que fazer com a criança e me entregou. Fiquei perdida. Deu muito medo. Eu perguntava: ‘como vou cuidar dessa criança?’ Pedi muita força a Deus”.

Denise conta que, na época, morava em uma casa de prostituição na Avenida Rio Branco e decidiu se mudar para dar mais conforto e uma vida digna ao filho: “Eu pensei: não posso ficar aqui com um bebê. À noite tem som alto e ele precisa dormir. Fui morar no subúrbio com ele e o pai e fiz o registro. Legalmente sou o pai dele, já que minha identidade é de homem. Minha prima é a mãe no papel”, fala com orgulho.

Na atitude, a prova da preocupação de todo pai e mãe de verdade tem, em oferecer ao herdeiro uma vida diferente da sua. Vivendo da prostituição desde os 13 anos, ela sabe muito bem o que é passar as noites em um prostíbulo: Eu trabalhava na boate “Night and Day”, no Bairro do Recife. Não tive infância. Às 20h eu já estava com sono, mas a cafetina dizia: tem que ficar até 3h da manhã. Eu fingia que ia fazer um programa em cima, nos quartos. Eu ficava escondida, dormindo em baixo da cama, enquanto as outras meninas faziam programa em cima dela. Às 3h da manhã, eu descia e fingia que estava subindo naquela hora”, recorda.

Mudança por amor - “Foi muito rico, uma grande bênção. Um dia, meu filho estava doente, com cansaço e fui para o hospital com ele. O carro da polícia passou e o PM perguntou: o que foi, senhora? Disse que estava levando meu filho para o médico e eles me deram uma carona! Eu era uma mãe, não uma travesti! Fui mais respeitada. No hospital, disse que era a mãe dele e fiquei internada no quarto, cuidando dele. Minha vida mudou muito. Meu filho conseguiu me mudar por amor. Realizei meu grande sonho. Se morresse hoje, morreria realizada”, diz, emocionada.

Quinze anos depois, Denise comemora uma relação de verdade e cumplicidade com o filho. Pilares edificados desde a infância e que hoje trazem seu resultado: “Logo cedo, ele começou a me chamar de mãe. Quando ele fez sete anos eu sentei com ele e disse: ‘eu não sou sua mãe, não sou mulher, sou uma travesti e namorada do seu pai’. Chamei a mãe dele e mostrei. De vez em quando, ele fazia perguntas sobre homossexualismo e eu respondia. Hoje meu filho é bem educado, trata todas as pessoas muito bem. É meu amigo. Temos uma relação aberta. Não arrumo namorado sem dizer a ele e ele não namora ninguém antes de me dizer”, ensina a experiente mãe.


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