MULHERES COM H
   

Entrevistas

Cecília Patrício


Cecília escreve tese na Espanha
Foto: Acervo pessoal
A antropóloga Cecília Patrício estuda as travestis desde o ano 2000. Em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela estudou a construção da identidade das travestis de Campina Grande (Paraíba), sua cidade natal. De lá para cá, o interesse pelo assunto só fez aumentar. Em outubro do ano passado, Cecília arrumou as malas e embarcou para Madri, na Espanha, onde entrevista travestis brasileiras para seu doutorado, sob orientação do professor Russel Parry Scott, da UFPE. A tese será defendida em março do ano que vem. Em entrevista por e-mail ao Pernambuco.com, Cecília adianta alguns aspectos de sua pesquisa.

Pernambuco.com – Por que as travestis saem do Brasil?
Cecília Patrício - A primeira coisa que faz com que uma travesti, ou transgênero, saia do seu país (e aqui tem de todas as partes do mundo) é a falta de emprego. Em todo o mundo é difícil contratar uma trans para fazer qualquer tipo de trabalho. Temos exemplos de casos que deram certo, como donas de locadoras, de videoclubes, de casas de massagem, de casas de shows e até enfermeiras em Recife.

Pernambuco.com – E qual a realidade na Espanha?
Cecília - Aqui temos advogadas, professoras e outros cargos que requerem estudos, mas com uma diferença: as que mais estudam são as que iniciam suas modificações corporais depois dos estudos. As do Brasil iniciam muito jovens, por isso a escola, e o preconceito dos colegas, principalmente, é uma barreira para elas se afirmarem enquanto possuindo uma identidade de gênero não reconhecida pela sociedade que a rodeia. Por isso a prostituição é o primeiro trabalho que elas podem realizar. Quando a família as apóia, e isso não encontramos com freqüência, embora haja hoje mais casos que há 10 anos, elas seguem suas vidas com condições de investir numa carreira. Mas é por isso que o nível escolar das trans que vêm para a Europa, Espanha, é baixo. Mais da metade não concluiu o ensino médio

Pernambuco.com – Dá para traçar um perfil de idade dessas travestis?
Cecília - A idade varia, pois há as que estão aqui há bastante tempo, mas há as que vieram faz pouco. Uma média seria 28 anos, porque entrevistei aqui meninas de 19 a 33 anos. As travestis fazem muito sucesso no mercado de sexo aqui na Europa.

Pernambuco.com – E o nível econômico?
Cecília – Isso é relativo, pois algumas que começaram a vir para a Europa já há algum tempo já conseguiram adquirir bens no Brasil, o que as coloca numa situação de classe média. Sua situação melhora muito quando elas começam a viajar para o exterior e enviar dinheiro para o seu país, como acontece com a maioria dos imigrantes. Logo assim melhora a situação da família e dela mesma, já que no Brasil o que se ganha é pouco para investir em si, nas modificações corporais, nos shows que algumas realizam e também para ajudar os seus. Como também a própria violência e homofobia, digo transfobia, é uma barreira constante pra elas continuarem vivendo.

Pernambuco.com – Já dá para chegar a alguma conclusão em relação à saúde?
Cecília – Ainda não organizei os dados. Posso adiantar que aqui na Espanha elas têm direito a serem atendidas como qualquer um, pelo sistema público de saúde, pelos Médicos del Mundo e também pelas ONGs que dão atenção quase 24 horas, com todo o sigilo, se forem indocumentadas ou profissionais do sexo. Não interessa. O que conta é que são como qualquer pessoa que busca ajuda.

Verônica Teresi


Verônica analisou o tráfico
Foto: Acervo pessoal
A Espanha também foi o país escolhido pela mestre em Direito Verônica Terese, de Santos/SP. Durante três meses (de novembro de 2006 a fevereiro deste ano), ela morou em Madri e escreveu uma tese sobre a Cooperação Internacional para o enfrentamento ao tráfico de mulheres brasileiras para fins de exploração sexual. Embora tenha feito sua tese sobre as mulheres, Verônica ouviu relatos de travestis que trabalham na Espanha e identificou que os motivos de saída do Brasil são diferentes. Mas, como as mulheres, as travestis também estão vulneráveis à exploração sexual e que por vezes são esquecidas pelas campanhas de saúde pública.


Pernambuco.com – As mulheres e os homens vão trabalhar na Europa pelo mesmo motivo?
Verônica Teresi – Não. O mundo da prostituição feminina é muito diferente da masculina Existem diferenças em relação ao que leva as mulheres e as trans à Espanha, especificamente. O que a gente percebe é que as mulheres vão com um desejo além da tentativa de mudar de vida. Elas vão com intenção de mandar dinheiro para sua família, seus filhos. No caso dos trans, e dos homossexuais, muitas vezes eles viajam sem saber que vão trabalhar na prostituição, vão como imigrantes, e acabam se vendo na necessidade de se prostituir ou são levados para a prostituição. É quando as pessoas são enganadas.

Pernambuco.com – É quando elas percebem que foram vítimas do tráfico?
Verônica - O conceito do tráfico de pessoas envolve tanto as pessoas que vão enganadas para exploração sexual como as que vão sabendo que vão se prostituir. Para o Protocolo de Palermo (legislação internacional que protege as vítimas de tráfico), essas pessoas estão em situação de vulnerabilidade tal que são entendidas como vítimas e devem ser protegidas. Quando elas vão, às vezes até sabendo que vão se prostituir, se deparam com outra realidade, porque a logística do local já envolve outras dívidas. Na Espanha, existem vários tipos de prostituição: de rua (mais “livre”), mas que muitas vezes as redes de tráfico ficam de olho; no clube; na praça; no piso (um apartamento alugado como moradia normal, mas lá dentro os quartos são usados para relações sexuais). Elas não podem sair até pagar a dívida, que só aumenta, pois elas precisam pagar extra para dormir e para se alimentar. Muitas delas, para ganhar mais dinheiro nos programas, acabam aplicando silicone, devendo mais dinheiro. Vira uma bola de neve.

Pernambuco.com – Em que sentido as travestis são mais vulneráveis do que as mulheres?
Verônica - A visão da assistência pública ainda não é muito grande para trans e travestis. As próprias campanhas de prevenção em relação ao uso de camisinhas são voltadas para as mulheres e não para as travestis. O que a gente percebe é que muitos travestis acabam voltando para o Brasil infectadas. Mesmo as que estão lá muitas vezes não utilizam o preservativo no momento da relação sexual (até porque os clientes pagam mais). Aí, por uma necessidade de ter de pagar a dívida, elas se submetem ao sexo inseguro. Há pouco tempo atrás, conseguimos fazer o gancho de uma rede que atendeu a uma trans na Espanha (inclusive ela é de Pernambuco) que contraiu Aids lá. Ela voltou para o Brasil, é uma menina extremamente vulnerável com essa situação toda, a família ainda não sabe da doença. A gente percebe essa grande deficiência da prevenção e do apoio, que ainda não tem a visão de que a travesti também necessitaria de apoio.


leia mais |
Pesadelos na vida real

Denúncias não chegam à polícia
Da exploração ao amor sincero
Pernambuco lidera violência contra homossexuais
   



Ilusão | Pesadelos na vida real
Apuros | Denúncias não chegam à polícia
Lucrécia | Da exploração ao amor sincero
Números | Pernambuco lidera violência contra homossexuais