
Lucrécia conseguiu superar a dor
Foto: Edvaldo Rodrigues/DP |
 |
|
Da exploração ao
amor sincero |
A história de Lucrécia pode ser contada
tanto do ponto de vista da regra quanto da exceção.
Desde pequena, ela nunca se considerava um menino como
os outros. Não gostava de jogar bola, mas adorava
brincar de casinha. Se assumiu homossexual aos 16 anos.
“Eu já trabalhava e ajudava meus pais no
sustento da casa. Isso fez com que ele não me
colocasse para fora quando descobriu tudo”, lembra.
O pai faleceu anos depois. Com a morte do pai, a mãe
soube que ele tinha outra mulher e também não
demorou muito a falecer. “Ela morreu de desgosto”,
acredita.
Lucrécia explica que, depois da morte dos pais,
a vida dela virou um “embaralho” e a saída
do Brasil se mostrou com a melhor alternativa. Ela sofreu
como a maioria das travestis ao chegar em um país
desconhecido (no caso, Itália), sem falar uma
palavra no idioma local, totalmente dependente de uma
cafetina que se mostrou cada dia mais hostil. Mas ela
também encontrou o amor e voltou a sonhar.
Há alguns meses, Lucrécia conheceu Maurício,
um cliente especial. “Era um domingo fraco de
movimento. Eu tinha apurado uns 600 euros, 200 a menos
do que a média dos outros domingos. Estava cansada.
Queria ir para casa. Mas parece que foi Deus que fez
com que eu ficasse um pouco mais”, conta.
“Vi um carro, com luz forte e pensei que era mais
uma maricona, um desses homens que querem que a gente
seja ativa na hora da transa. Mas não. Era um
cliente atencioso, que pagava bem”. Os programas
passaram a ser freqüentes, a ponto dele pagar para
ela passar o dia todo ao seu lado, almoçar em
restaurantes, fazer compras. “Hoje estamos morando
juntos e eu tenho uma vida de rainha. Tenho medo de
quebrar a cara de novo, claro, porque nunca confiei
em homem. Tenho amigas que já foram assassinadas
por homens”, diz. “Você está
apaixonada?”, pergunto. Depois de uma breve pausa,
a resposta: “O pior é que estou...”
Final feliz – Ainda é
cedo para escrever a frase “felizes para sempre”
nessa história. Pelo menos por enquanto. No dia
26 de maio, Lucrécia desembarcou no Recife para
visitar a família. Encontrou a irmã, os
sobrinhos, as amigas, matou a saudade e comprou presentes
para o amado - “encontrei um chapéu de
couro lindo em Caruaru”. Embarcou de volta para
a Europa no dia dois de julho, mas foi “barrada”
pela imigração em Lisboa, Portugal. A
alegação foi que Lucrécia não
tinha dinheiro suficiente, mas ela aposta em preconceito.
“Informei o endereço na Itália,
disse que dinheiro não seria problema, mas me
deportaram”. Agora, ela vai tentar uma outra rota
para entrar no continente, talvez Zurique ou Paris.
“Só não quero ficar longe dele por
mais tempo”.
leia mais |
Pesadelos na vida real
Denúncias não chegam à polícia
Pernambuco
lidera violência contra homossexuais
Entrevistas