MULHERES COM H
   

Saída do país requer cuidados
Foto: Agência Brasil/Divulgação
  Pesadelos na vida real

Para algumas travestis, o caminho para se dar bem na vida pode ser o do aeroporto internacional. Caminho tão sedutor quanto perigoso. Muitas vezes, o convite para ir trabalhar no Exterior (principalmente na Itália) vem de uma outra travesti, que virou cafetina lá fora e visita o Brasil constantemente à procura de novas “afilhadas”. A promessa é de programas bem mais lucrativos: se por aqui rendem entre R$ 30 e 70 (raramente R$ 100), lá a média chega a 100 euros (R$ 250).

O convite também vem acompanhado de um trato no visual. As cafetinas arcam com as “bombas” de silicone (nos seios, bumbum e quadris), roupas, apliques, maquiagem; cuidam dos documentos necessários para a viagem e compram a passagem aérea.

Nenhum valor é acertado previamente. A conta, geralmente, só é entregue quando a travesti já está fora do país, alojada na pensão da cafetina e com ponto certo para trabalhar, e facilmente supera os 12 mil euros (cerca de R$ 30 mil). A conta amarga transforma a travesti em uma escrava sexual. Enquanto ela não saldar sua dívida, não tem direito sequer a andar com o seu passaporte, que fica em poder da cafetina.

Foi assim com Lucrécia, hoje com 33 anos. Há dois anos e meio, ela recebeu o convite de uma cafetina chamada Letícia e resolveu deixar o bairro de Rio Doce, em Olinda. “Pensei que iria pagar apenas o bilhete aéreo e resolver minha vida. Mas quando cheguei lá fiquei sabendo da conta. Comecei a trabalhar feito louca, era um programa atrás do outro. Pé dentro, pé fora”, lembra. “Foi um ano de sofrimento. Fui presa duas vezes, uma delas por dois meses. Passei fome, desmaiei de frio. Eu era feliz no Recife e não sabia”.

A situação de Lucrécia só começou a melhorar quando ela passou a conhecer as regras italianas e ameaçou denunciar Letícia à polícia, já que a cafetinagem é crime naquele país. Ela conseguiu ter seu passaporte de volta e sair da pensão. Foi morar com outra travesti brasileira e passou a trabalhar por conta própria. Voltou a sonhar. (leia mais)

Sem ilusões – Rose (nome fictício) cresceu em uma cidade do Agreste pernambucano. Nunca havia se prostituído, mas no início de 2006 resolveu embarcar para Madri, na Espanha, para ganhar dinheiro com a prostituição. Trabalhou em terras espanholas com pelo menos outras 15 travestis levadas da mesma cidade do Interior. Em maio deste ano, recebeu a notícia que acabou com qualquer sonho que ela havia levado na bagagem: estava infectada com o vírus da Aids.

“Assim que soube, parei de trabalhar e procurei ajuda de assistentes sociais. Queria voltar para casa imediatamente, mas não tinha dinheiro. A Espanha foi uma madre para mim. Recebi medicamentos, dinheiro e a passagem aérea de volta. Hoje eu estou tomando coquetéis e tenho que viajar ao Recife quase toda semana. Moro com minha mãe, mas ela ainda não sabe que estou doente”, confessa Rose.

Além da saúde debilitada, Rose tem outras lembranças amargas da Espanha. Ou melhor, dos espanhóis. “Os clientes eram sujos, velhos, só queriam ser passivos na relação, diferente dos homens daqui. Eu não estava acostumada. Às vezes, eu não conseguia ficar excitada. Como? Nem pagando. Dava vontade de morrer. Fiquei com nojo deles, principalmente depois de descobrir que eles tinham me passado esse babado”, diz.


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