MULHERES COM H
   

Sentenças favoráveis no TJPE
Foto: Jaqueline Maia/DP
  Avanços nos
entraves legais

Ainda um entrave para a feminilidade oficial de Cinthia, a documentação também vai mudar. “Graças a Deus, dei entrada no Fórum de Gravatá e estou aguardando a audiência. É a parte mais importante após a cirurgia. Acho que hoje sou mulher e, em determinadas situações ter que mostrar documentos masculinos me constrange. Hoje eu luto pra viver minha vida dignamente como mulher. No Brasil, o mais importante é o papel. Ainda há aquele preconceito. O documento vai acabar com tudo isso. Vou deixar de ser Enilson Lourenço dos Santos, para ser Cinthia Maria Santos”.

O caminho do processo de Cinthia vai ser facilitado por outras transexuais que já realizaram essa conquista, como aconteceu no município de Surubim, no Agreste pernambucano. Mas o trâmite, em tese, é o mesmo. “Depois de realizada a cirurgia, é preciso dar entrada em uma ação ordinária para mudança de sexo e nome”, explica o defensor público da comarca da cidade, Jânio Fernando Piancó, que defendeu o caso. “Foi nomeado um médico perito para atestar a feminilidade e para de apontar que a cirurgia tinha caráter irreversível”, acrescenta.

Um ano depois de protocolado, o processo foi julgado em 2006. “Mas o juiz da Segunda Comarca de Surubim, Joaquim Francisco Barbosa, deu procedência em parte, apenas em relação ao nome, mas não em relação ao sexo, mandou colocar transexual. A princípio ela não quis apelar, mas dois meses depois me procurou e disse que estava constrangida”, conta o defensor.

Foi aí que foi dada entrada em uma ação rescisória junto ao Tribunal de Justiça de Pernambuco. Em março deste ano, o desembargador Fernando Martins, membro da 6ª Câmara Cível, relator do processo, entendeu que havia sido cometida uma ofensa à Constituição, que prevê o princípio da dignidade da pessoa humana. O voto do magistrado foi acompanhado pelos outros dois desembargadores do colegiado, Bartolomeu Bueno e Eduardo Peres, gerando uma decisão unânime. Eles entenderam que não existe o sexo transexual e mandaram reformular a sentença, para constar no registro sexo feminino.

“A decisão foi publicada no Diário Oficial e não houve recurso. Definitivamente Ivanildo Francisco dos Santos, de 28 anos, hoje é Ágata Silva dos Santos. Ela namora um italiano e está com ele na Europa”, adianta Piancó, arrematando o final feliz da história.

Proteção - Na época, a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco chegou a ser apontada como inédita, mas em outra cidade do Interior (omitida para não possibilitar a identificação dos envolvidos), a dentista Paula (nome fictício) também sentia a justiça sendo feita em sua vida.

“A questão da cirurgia foi uma realização pessoal que fez com que eu me identificasse com meu físico, com minha genitália. A legalização é mais uma conquista em relação a você se sentir segura, protegida pelo Estado, por uma lei. É como se eu passasse a ter direitos. Em momento nenhum aceito o termo transexual, tampouco travesti ou qualquer forma de preconceito porque isso é crime. A questão jurídica veio me dar esse direito, fez eu me sentir segura”, descreve.

Antes da operação, realizada em um hospital particular em São Paulo no ano de 2001, Paula já atuava como dentista como uma profissional do sexo feminino. “Me formei dentista aos 21 anos e fiz a cirurgia com 23 anos, há sete anos atrás. Quatro meses depois, dei entrada em uma ação na comarca da minha cidade. A equipe tinha uma advogada que me orientou desde o início. Ela explicou sobre o processo na Justiça”, revela.

A decisão do TJPE saiu em um ano e meio, em 2002. Paula garante que não foi o primeiro caso. “Houve um anterior que foi citado. Nesse caso, o juiz negou e a pessoa recorreu ao Supremo Tribunal Federal, que foi favorável e então virou jurisprudência. Creio que meu caso tenha sido o segundo de Pernambuco”.

“Sou uma profissional bem sucedida. Minha aceitação sempre foi muito pelo profissional. Na minha área, é uma coisa mais difícil. O paciente tem que sentir credibilidade, confiança. A cirurgia ou a legalização não mudou a minha existência. Só veio completar o que já existia”, afirma, discreta.


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Espanha | Em abril deste ano, o transexual Julio Cuesta, de 50 anos, conseguiu alterar os seus documentos de identidade sem fazer a cirurgia para mudar de sexo. Ele é o primeiro espanhol a ter nome e sexo novos no registro civil sem ter realizado cirurgia genital. “Nunca me senti mulher e para mim é muito importante que todos os documentos oficiais reflitam o que eu realmente sou e me sinto", disse Julio, em entrevista à agência Efe, acrescentando que foram cinco anos de luta para conseguir a mudança.
Uruguai | A Suprema Corte de Justiça aprovou a mudança de sexo em um documento de identidade pela primeira vez em 1977. Um homem, que havia feito uma cirurgia, teve o sexo trocado de masculino para feminino em seu documento. Na época, a justificativa da Corte foi que “cada pessoa deve ser uma só no plano físico e no plano psíquico e não dividida em dois". A mudança de feminino para masculino só aconteceu em 2005, seis anos depois de Elisa Estela ter se submetido a uma cirurgia para retirar o útero, fechar a vagina e implantar próteses peniana e testicular. Desde então, Elisa Estela virou Bryan Javier. Ele também recebeu doses do hormônio testosterona, para evidenciar características masculinas como voz mais grave e pêlos no rosto e tórax.